A Escola que desenterrou as flautas

Por Adeílson Lopes da Silva (*)


Muitos dos pequenos igarapés (riachos), como os que formam o rio Içana, na terra dos índios Baniwa, no alto rio Negro, noroeste amazônico, abrigam uma infinidade de flautas, instrumentos que embalam rituais, festas e toda uma gama de celebrações realizadas secularmente pelas comunidades indígenas da região.

As flautas são acomodadas nestes corpos d’água, entre uma cerimônia e outra, com o intuito de protegê-las, preservá-las, ou até mesmo melhorar suas qualidades sonoras. Das mais simples às mais sofisticadas, as flautas e as danças que elas embalam estão repletas de significados e cercadas pelo ensinamento de comportamentos necessários para a vida dos povos indígenas. As melodias quase sempre encerram narrativas de como as pessoas devem se comportar em sociedade e no mundo.

Algumas dessas flautas são dotadas de imenso poder e, por isso, exigem um manuseio extremamente especializado. Elas são os próprios corpos de deuses ancestrais capazes de, ao serem tocadas, transformar profundamente as pessoas e o mundo onde elas vivem. Para os Baniwa, por exemplo, a expansão do mundo em que vivemos hoje, se deu concomitantemente ao ressonar do corpo-flauta de uma de suas principais divindades,Kowai.

Em um de seus mais importantes rituais, quando os jovens são preparados e passam para a fase de vida adulta, os Baniwa necessitam expor os meninos às flautas sagradas Kowai. Todas as plantas que fornecem as ceras, as fibras e demais partes utilizadas no fabrico dessas flautas sagradas tiveram origem nas cinzas do próprio corpo deKowai, queimado logo depois de ter realizado o primeiro ritual de iniciação desse povo, e de ter ensinado como as futuras gerações deveriam realizar essa cerimônia.

Quando o ritual se inicia, uma conexão vertical no cosmo liga diretamente este mundo em que vivemos ao mundo de profunda sabedoria onde vive Kowai. Devido à importância religiosa central das flautas (leia-se da música) e das danças na vida religiosa dos Baniwa do rio Içana essas práticas tiveram que se confrontar com missionários católicos e evangélicos, que quase sempre nelas identificaram pontos de discordância com o evangelho cristão que buscavam difundir aos povos indígenas.

Os velhos baniwa, sobretudo do médio rio Içana, contam que na década de 1950, com a chegada da missionária evangélica estadunidense, Sophie Muller, e com a conversão massiva desse povo à sua doutrina, as flautas tiveram de ser depositadas pela última vez nos pequenos igarapés, talvez para o repouso eterno. Deveria ser feito um esforço para que as flautas e as danças caíssem no esquecimento.

A Escola Pamáali: 10 anos

Para surpresa de muitos, meio século de silêncio se passou até que, em 2004, o som de algumas dessas flautas despertou os corpos e ouvidos de muitos Baniwa do médio rio Içana. Isso se deu durante a formatura da primeira turma de alunos do ensino fundamental da Escola Indígena Baniwa Coripaco – Pamáali.

Fundada pelos Baniwa, com apoio do ISA e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a escola tem como pilar a escolarização dos Baniwa e Coripaco com base no respeito aos valores e tradições desse povo. A escola é fruto da obstinação dos Baniwa pela oferta de um ensino de qualidade para suas novas gerações, e respaldada pelos novos direitos que a Constituição brasileira outorgou aos povos indígenas a partir de 1988.

Algumas flautas sagradas dos Baniwa também estão prestes de serem desenterradas por uma comunidade que vive na zona comunitária indígena de São Gabriel da Cachoeira, a comunidade de Itacoatiara-mirim. Neste que é considerado o município mais indígena do Brasil, e onde os índios foram proibidos de serem índios por quase três séculos, com resultados considerados dramáticos, essa comunidade construiu uma maloca e retomou a realização de várias de suas festas tradicionais. Ao desenterrar as flautas sagradas, que deixaram depositadas nas cabeceiras de alguns igarapés da antiga comunidade do rio Içana havia 23 anos, os Baniwa pretendem retomar também os seus rituais de iniciação. Para o mestre de maloca Luis Laureano, principal protagonista dessa história, os jovens indígenas que nascem em São Gabriel precisam reaprender que são índios e se orgulhar disso como condição para se livrarem dos vícios que hoje em dia mais os ameaçam: álcool, drogas e ondas de suicídio que, por vezes, são noticiadas na região. Esse será um passo ainda mais profundo na trajetória de revalorizar antigas tradições, e uma aposta de peso dos Baniwa em carimbar o passaporte para o futuro sem deixar de olhar para trás. Ouvidas com admiração, sobretudo pelos mais jovens, as flautas baniwa vêm cumprindo o objetivo de expandir o mundo novamente, mundo baniwa adentro, depois de meio século de silêncio.

(*) Ecólogo e assessor do programa Rio Negro do ISA

 

Fonte: Blog do ISA

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