Escola Pamáali 10 anos: Minha história.

Construção de casas, inicio de implantação da Pamáali (foto: Bonifácio J)

Inicio de uma história: Primeiros anos na escola.
O que me conhece desde que cheguei na  Escola  Pamáali, sabe ou pode contar minha história, mesmo, de vários ângulos. A minha intenção aqui, não é para me mostrar, mas, apenas, para contar a minha história, que a Pamáali me ajudou a escrever nestes últimos 10 anos. Ou melhor, resultado concreto do trabalho desenvolvido  no médio Içana, através da Educação Escolar Baniwa e Coripaco. Depois, de ler a minha história, que a Pamáali me ajudou a construir, você poderá responder a pergunta: Há motivos comemorar os 10 anos?

A minha história com a Pamáali começa em 2001. Um ano depois de começar as aulas na escola. Em meados daquele ano, a matrícula para a segunda turma estavam abertas. Quem quizesse, precisava pessoalmente ou com ajuda dos pais, escrever uma carta, onde tinha que escrever um texto de uns dez linhas, para contar os motivos de querer a vaga , tipo manifestando o interesse de ir estudar. A outra forma, era comunicar direto com os professores e coordenação da escola, para fazer a inscrição. E, eu, fiz a minha inscrição, através de radiofonia. O meu pai, disse que teríamos que continuar nossos estudos, junto com meu irmão mais velho (Arsênio). Mas, a decisão seria nossa. Passado, alguns dias, pouco conversamos sobre a proposta. E depois de alguns dias, tomamos uma das decisões mais importantes, que já experimentamos. De ir à Escola Pamáali.

Pouco sabíamos como seria a vida lá. Até naquele momento, conhecia o Içana, até em Tunuí, apenas. Num dia comum dia setembro, ouvimos um bote parar no porto de nossa comunidade, que não era comum naquela época. Deve ser alguém da OIBI ou da Escola, pensamos. Duas pessoas desconhecidas, saem na comunidade, e perguntam: Onde estão e quem são os alunos matriculados para ir a escola? E algumas, pessoas que estavam em volta, me indicaram, esse é um, e aquele é outro, apontando meu irmão. “Eu sou o Coordenador da escola, disse o mais baixinho. Era Raul. Aprontem suas malas e farinha, o barco, deve passar daqui a pouco, e vocês vão embarcar, disse.

Depois de outros anteriores, a minha mãe aproveita os últimos minutos para passar os conselhos. E pouco depois, chega o barco, na qual embarcamos e subimos o Içana. No barco, encontramos Pedro e Luciano, ambos de Ambaúba. Que viria ser meus melhores amigos da classe e da escola. E o Dzoodzo, também estava no barco.

Dois dias depois chegamos na escola. Mais de 40 alunos novatos, estavam chegando na escola. Tudo diferente. A escola estava apenas começando. Logo na saída, era apenas uma pequena roça. No pátio, muitos troncos de arvore. Quando chegamos aqui, era ainda mais do que isso, diziam os veteranos. Conhecia pouca gente no primeiro momento. As amizades viriam, ao longo das semanas. Logo no dia seguinte, acontece a Abertura Oficial da etapa. Primeiro os veteranos e depois os novatos. Os colegas foram se apresentando. Nome, comunidade, pais, clã e objetivo de vir para escola. Chega minha vez, me levanto e vou na frente..Foi uma das minhas primeiras apresentações em público. Quase que não consigo falar..Essa seria a primeira de muitas que viriam ao longo dos anos.

Primeiras aulas. Primeira semana. Primeiras amizades. Adaptar num local como aquele, não era fácil. Muitos colegas, queriam voltar para suas comunidades. Saudade da família. Também sentia isso, mas, os conselhos dos meus pais ecoavam mais forte. Tinha que continuar buscando formas de me adaptar. Eu sabia que seria uma questão de tempo.  E termina a primeira etapa na escola. Voltaríamos novamente, somente no ano seguinte.

A primeira etapa na escola era para o reconhecimento da escola. Cada aluno teria que conhecer as histórias de lugares sagrados na área para os cuidados diários que seria importantes.  Tomar banho todas as manhãs. Obedecer os horários estabelecidos para o funcionamento da escola. Ainda nessa primeira etapa, experimentei, o cargo de capitãozinho. Foi uma experiência única. Chegamos na comunidade, eu e meu irmão reunimos a comunidade, para contar as experiências vividas e repassar um pouco do que aprendemos, em quase três meses. Termina o ano. Começa 2001. Nas primeiras semanas, iniciamos as primeiras entrevistas sobre o tema de pesquisa para ser feito na comunidade ( Tema: Pássaros). Cada aluno teria que descrever dois pássaros e registrar suas histórias de origem. Começava ali, uma das atividades que viria ser minha atividade quase diário anos mais tarde. Pesquisa e pesquisas..

Os anos se passaram. Me tornei jovem. Crescí no conhecimento. As primeiras responsabilidades começaram a chegar. Duas vezes monitor de alojamento e inúmeras vezes, capitãozinho da semana. Em 2004, pela primeira vez faço parte da delegação brasileira (FOIRN, ISA, OIBI e EIBC) para participar de um encontro trinacional, realizado em Maroa, município venezuelano do Rio Guiania. Para falar para mais de 100 pessoas, as experiências da escola e das atividades de piscicultura nas comunidades. Que na época fazia parte da equipe técnica da estação. No mesmo ano, outra viagem à Galiléia uma comunidade da Colombia (Rio Negro), mais uma trinacional. Brasil, Colombia e Venezuela reunidos para trocar experiências em educação escolar própria. Dessa vez na equipe da Laíse Diniz/ISA e Daniel Benjamim, coordenador geral da escola naquele ano. Foi um sucesso. Contei como é o cotidiano de um aluno da Pamáali. A minha apresentação nesses eventos, não era mais aquela primeira que aconteceu na abertura da escola, quando cheguei. Em alguma coisa, tinha mudado, ou melhor, melhorado. Meu português, já era pelo menos compreensível.

Ano seguinte, 2005 ano da minha formatura de ensino fundamental. Que não aconteceu por alguns imprevistos. Foi um dos anos mais difíceis e mais marcante da minha vida na Pamáali. Precisava entregar a coordenação, um TCC, na qual colocaria o tema que mais me interessou nesses últimos 4 anos na escola. Qual seria o tema? Tive de passar vários dias tentando decidir o que queria mais. Pensei na origem dos Povos Baniwa e Coripaco. Algumas pesquisas anteriores já tinha abordado um pouco desse assunto. Registrar as danças tradicionais também me veio na cabeça. Também disse não a esse. Queria algo novo e que outros não tivessem explorado, pelo menos, os alunos da escola. Analisei o contexto atual da organização Baniwa e Coripaco, busquei entender o passado do povo. Levantei algumas perguntas que não precisavam ser respondidas. Serviam apenas para me ajudar a formular algo que já estava tentando ganhar forma na cabeça. E finalmente, veio à tona. Associações Baniwa e Coripaco.

As atividades dessa pesquisa me levou conversar (entrevistas) com os principais lideranças indígenas do Alto Rio Negro, André Baniwa e Domingos Barreto, diretores da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro-FOIRN. E outras lideranças da região do Içana. E foi além. Entrevistei o administrador do ISA/SGC, na época, o Fernando Vicente.  Alguns minutos de conversas inesquecíveis para um jovem estudante como eu. Cada entrevista que terminava, era motivo de comemorar. Consegui!!! Como a formatura foi adiada para o ano seguinte (2006), fiquei com mais tempo para escrever e organizar meus textos. E continuei fazendo minha pesquisa e fazendo outras tarefas, como aluno e líder da turma durante esse ano. Em junlho de 2006.  Uma semana antes da formatura. Entrego para professores e coordenação da escola um encadernado de 61 páginas, com o título “Administração das Associações Baniwa e Coripaco”. Objetivo alcançado. Agora podia apenas me preparar para receber meu certificado, que apenas simbolizava as horas e horas de caneta e lápis na mão. As, vezes, tinha que “roubar”, no sentido de pegar sem permissão, um dos únicos computadores da escola, para passar as altas horas da noite digitando minha monografia.

Formatura: Danças Tradicionais e outros preparativos tornam meus dias agitados.

Da esq. para direit. Elizeu, Marciana, Adiosa e eu (Foto: Arquivo EIBC)

Poucos dias faltavam para o dia mais esperado nesses quatros anos. O dia da formatura. Tinha mais uma tarefa a ser feita, ou melhor, várias.  Aprender a tocar japurutú e outras flautas. Antes já sabia um pouco. Mas, para um evento como aquele, os cuidados eram poucos. Foram horas e horas durante as madrugadas com os mestres Baniwa, que devo tudo o que aprendi, o Sr. Alberto Lourenço de Jandú Cachoeira e Mario dos Santos de Bela Vista.  Eu e Elizeu colega de estudo. Depois de várias tentativas precisávamos começar a acertar os ritmos. “Falta mais um pouquinho”-dizia os nossos mestres. As vezes, o meu companheiro olhava para mim. Tentava imaginar o que queria dizer. Era cançaso? Desanimo? O que mais queria naquele momento era repetir tudo de novo, e acertar aprender com os erros. Os dias pareciam ser curtos, diante daquelas atividades. E numa das madrugadas, pela primeira vez, nossos mestres nos deram o que mais esperávamos.. “Agora sim, vocês já estão prontos para apresentar em público”.  Deixamos as flautas, corremos para nosso alojamento e demos a notícias aos colegas.

Ainda faltava mais duas coisas para pensar e fazer. Escrever dois textos. Que  não eram texto quaiquer. Minha missão agora, era pensar muito e escrever o juramento e a oração da turma. Elevei minhas reflexões ao mais alto possível (para meu nível). Comecei a escrever.  Pouco a pouco, o texto foi ganhando sentido. E pronto!! Agora só ensaiar, e escolher alguém da turma para se responsabilizar. E E finalmente chega o dia. Pais e mães, autoridades, professores, lideranças.Mais de 300 pessoas assistem e acompanham a cada passo e cada som das flautas. Na cerimônia dou de presente para uma autoridade, o meu balaio “Aalidalo Yekoa”, que fiz durante os horários vagos, que valia também como trabalho de conclusão. Chegava ali, o momento de decidir se continuava ou não. Como ainda não tinha ensino médio. Era certo, a chegada dos meus dias lá.

Em busca de novas aventuras, momento de começar a retribuir para as comunidades o que aprendi na escola.

Desde 2005, comecei a participar do Magistério Indígena II, curso que forma professores para atuarem nas escolas da região. Portanto, antes mesmo de concluir o ensino fundamental, já estava cursando o nível médio. O que me garantia a começar atuar em sala de aula. Apesar de minha formatura na escola Pamáali ser em junho, desde março já tinha fechado meu contrato na secretaria municipal de educação, para dar aulas na escola Paraattana, no Baixo Içana. Escola que estava começando a funcionar, modelo inspirado na Pamáali. Por isso, ao final de minha formatura na Pamáali, no dia seguinte, começo a participar de uma oficina de formação de professores com a equipe da SEMEC, e com a secretária Edilúcia Freitas. Novas pessoas. Eu lá no meio de professores com mais de 5 e outros com 10 anos de experiência na sala de aula. Estava começando ali, uma nova etapa da minha vida e de formação.

Depois da oficina. Desço no mesmo barco da equipe da secretaria para Nazaré, baixo Içana. Lá acontece a minha primeira aula, apesar de ter dado algumas ainda na Pamáali. Mas, aquele começo foi diferente. Conheci professor Sabá, que viria ser meu amigo ao longo dos anos, até hoje. Ficávamos horas trocando idéias, no alojamento. E depois, de Nazaré, vou para Ambaúba, de lá para Castelo Branco. Por ser uma escola que funcionava em rodízio (professores passavam um tempo numa sala e depois vão para outra sala/comunidade). Termina o ano 2006. Na assembléia falo ao público, que não voltaria no ano seguinte, devido, os planos de continuar estudando, apesar de estar no magistério, que não era muito confiável devido as paralisações.

Na minha vinda para cidade, tentar conseguir uma vaga nos colégios, me encontro com a coordenação da escola de Assunção do Içana, e me apresentam a proposta de ir “ajudar”, eles em aulas de Língua Baniwa. Poucos dias depois, a equipe da Pamáali (Alfredo), me apresenta a proposta de “voltar”a Pamáali. Com essas duas proposta, passei quase uma semana no “muro”, avaliando cada uma com cuidado. Toda vez que me encontro com eles, me pedem uma resposta. E finalmente, decido voltar a Pamáali. Motivos vários. Uma delas, saudade dos colegas, apesar de a maioria não voltarem para escola. Que também começaram a tentar a vida em outros lugares.

Meu encontro com Novas Tecnologias: Internet e blogosfera.

Eu entre participantes do I Simpósio Web Indígena do Brasil, USP, 2010 (foto: Divulgação).

Volto para a escola com a missão de assumir o Telecentro, por ter iniciado um pouco quando ainda era aluno. Dessa vez, volto não mais como monitor, mas, administrador. O que me abriu novas portas para mais uma nova etapa de formação. Dessa vez em Novas Tecnologias. Internet e computadores, o que sempre desejei conhecer. Desde os tempos, que ficava até as altas horas no computador. Comecei a participar de algumas oficinas em São Gabriel e outras na escola. Aos poucos foi descobrindo e aprendendo novos conhecimentos.

Em 2008, é lançado o blog da escola (www.pamaali.wordpress.com) e os primeiros posts começam a acontecer. No ano seguinte, lanço o meu blog pessoal (este), apesar de ter feito outros nos anos anteriores. Com a experiência de blogueiro, participo do  I Simpósio Web Indígena, realizado na Universidade de São Paulo/USP em dezembro de 2010.  E começo participar intensamente, as discussões sobre o uso das mídias e web pelos povos indígenas do Brasil e do Alto Rio Negro.

Atualmente, faço curso a Distância pelo Programa de Formação do GESAC em Tecnologias de Informação e Comunicação. Professor de informática da Escola Pamáali. Ainda acumulo, cargos de  Coordenador Adjunto da EIBC, Secretário da Associação do Conselho da Escola Pamáali-ACEP e da Coordenadoria das Associações Baniwa e Coripaco-CABC.  E administrador do blog da Pamáali, atuando na produção de conteúdos e na coordenação da Equipe de Comunicação da escola. E os sonhos e projetos, ainda virão. A minha história resumida aqui, é apenas um de muitas histórias de ex-alunos da Pamáali, que passaram quatro anos, e hoje estão contribuindo com o desenvolvimento dos Povos Baniwa e Coripaco. E é apenas uma de muitas conquistas. E aí, dá pra comemorar as conquistas da Pamáali?

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13 respostas em “Escola Pamáali 10 anos: Minha história.

  1. Caro Benjamim, como leitor que sou dos seus escritos postados na blogosfera nunca me decepciono e sempre aprendo, me emociono, com o q vc escreve, seu compromisso e dedicação nesse percurso longo e repleto de novidades foi muito bem descrito e imagino q você escreverá novas versões, um percurso que lembra aquelas viagens de Napirikuri e outros, expandindo o mundo do içana…on line… você tem muito o que comemorar… abração, Paulo.

  2. Benjamim, aqui do Acre foi um prazer ler seu post e saber de vc. Sou professora de antropologia aqui na Universidade Federal, e tenho tido muitas dificuldades com meus alunos “brancos” e sua pouca sensibilidade para a realidade indígena do estado, da Amazônia e do país. Vou divulgar seu blog entre eles, e aí podemos estar juntos nesta colaboração para a formação destes novos cientistas sociais. Abraço, Mariana (também tenho um blog, mas tá muito abandonado… http://www.aflora.blogspot.com)

  3. Ray, nossa, como sou emotiva, a sua descrição me fez quase chorar!!!
    Com isso, vc pôde mostrar como as escolas indígenas tem qualidade!!! Me sinto muito orgulhosa de vc, principalmente por ser sua conterrânea!
    Percebo que atualmente o Brasil está em crise com a sua diversidade, mas uma crise que espero, não chegue nos “parentes”, pois assim todos poderão continuar animados por tudo de bom que fazem em suas aldeias/comunidades!
    Parabéns para todos vocês por esses 10 anos de muuitas conquistas! Teem muito a comemorar e mostrar como é possível construir uma proposta inovadora específica com suas próprias mãos!!!
    Novamente parabéns e nos envie, pf, as notícias das festividades!
    Abraços para todos.

  4. Amigo Ray, estou encantada e tbm emocionada com tão bela descrição de sua história de vida. Suas lutas, suas conquistas, sua garra na busca dos objetivos, merecem todo meu respeito. Eu me orgulho muito de fazer parte do povo da floresta, principalmente quando posso compartilhar através da leitura, de momentos tão importantes e significativos como este. Parabéns a vc, a Escola Pamáali e a todos que fazem parte deste maravilhoso projeto. Continue sempre um bravo guerreiro em busca de grandes conquistas! Forte Abraço, Maria Mourão

  5. Benjamin, prezado
    O teu relato é demais de bom. Ele mostra para quem acompanhou de longe os sonhos da Pamaali, que valeu a pena vocês Baniwa e o ISA investirem no projeto. Tuas palavras são de quem viveu ali, não são palavras de relatório de atividades!
    Muuuuuito legal. Quem sabe você continua escrevendo mais, e teus colegas se animam a seguir teus voos literários nesse espaço internáutico! abraços, Nina Kahn

  6. Pingback: Imagens da Escola Pamáali: Boas lembranças. « Nodanakaroda

  7. fico imensamente feliz em poder ler as tuas escritas, pois lembro de cada passo que dou para tbm, realizar meus sonhos e poder continuar auxiliando a minha comunidade que é tão carente de informações em ns asuntos…….parabéns pelas tuas conquistas em fim por tudo que tem preparado para ofereçer a seu povo…..

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