Entrou no movimento indígena e descobriu a “ identidade original”.

Nascido na comunidade Bawarí no Médio Rio Negro Denivaldo é uma daquelas pessoas que não passam despercebidos pelos conhecidos nas ruas de São Gabriel onde mora atualmente. Denivaldo ou Deni como é também chamado por vários conhecidos, deixa a FOIRN nessa semana. Após deixar uma mensagem de agradecimentos e anunciar a saída da federação no dia 26/10 na página pessoal no facebook, e ser comentando por vários amigos, marquei uma conversa com ele para saber mais detalhes e aproveitar a para registrar e divulgar as principais atividades que fez nesses oito anos na federação. Fez muita coisa e aprendeu um “bocado” como ele mesmo descreve. Segundo Deni a FOIRN precisa além do lado político ver também o lado social das comunidades da região, pois, durante os primeiros anos viajou e conheceu as mais distantes comunidades, ouviu das pessoas e viu de perto o quanto são grandes dificuldades que enfrentam.

 

1. Deni se apresenta aos nossos leitores. Fala um pouco de você.

Denivaldo: Meu nome é Denivaldo Cruz da Silva, tenho 36 anos, nascido e criado na comunidade Bawarí médio Rio Negro, próximo a comunidade Ilha das Flores. Sou da etnia Desano, que o próprio Movimento Indígena me fez descobrir, porque antes me considerava Baré até em 2004. Estudei de 1ª a 4ª série na comunidade Ilha das Flores. Depois fiz o ensino Fundamental no Colégio Marchesi e terminei o ensino médio no Colégio São Gabriel. Falo apenas duas línguas, o português e Nheengatú (língua Geral). E entendo algumas palavras em Baniwa, que aprendi nas viagens que fiz ao longo desses anos, e por ser casado com uma Baniwa (risos..).

2. Como descobriu a identidade “original”?

Denivaldo:Numa das viagens que fiz algumas pessoas que conheciam meu pai, que na época não se importava muito com as questões culturais, falaram que ele era da etnia Desana, e não Baré. A partir daí passei a fazer parte da etnia original”. Pergunto como foi a aceitação. “Até hoje os meus irmãos se consideram Baré”.

Durante esses 8 anos fez muitas coisas e aprendeu um “bocado”, como ele mesmo descreve. Mas, quem era Deni antes de chegar na FOIRN? “Passei desde minha infância com os Padres, cheguei a morar com Padre Nilton, e ao terminar meu curso de Ensino Médio (Magistério) no Colégio São Gabriel, fui dar aula na minha comunidade. Conhecia apenas o caminho de São Gabriel até a minha comunidade e nada mais”.

3. Como chegou à FOIRN?

Denivaldo: Antes dei aulas por dois anos, e depois, voltei pro Seminário onde fiquei apenas dois anos, não deu dos diretores que na época era o Sr. Orlando. De lá me convidaram para ser logístico num dos projetos (PPTAL), que era coordenado pelo Abraão”. Por uma necessidade de uma equipe para atender o cronograma do projeto, como viajar. “Às vezes o Abraão viajava para Waupés e eu ia para baixo rio Negro, quando ele ia para o Içana, viaja para outra região. E sem esperar

acabaram demitindo o coordenador do projeto, e pela indicação, como estava diretamente participando da execução, sabia o que devia ser feito, acabei assumindo o projeto”.

4. E qual o objetivo dessas viagens?

Denivaldo: Não era apenas a fiscalização, fazíamos também o lado social, como levar informações e conversar com as pessoas, ouvir e ver as necessidades reais das comunidades. Realmente as necessidades de que mora lá na ponta da região, nas cabeceiras dos Rios enfrentam enormes dificuldades. Principalmente de deslocamento para a cidade, que é o único meio de adquirir os bens básicos como sabão, sal e outros. Por exemplo, quem desce de Camanaus ou de Pana-Panã (comunidades do Alto Rio Içana), para receber seu dinheirinho não consegue cobrir as despesas de viagem, é coisa de louco!. A FOIRN precisa também olhar e levantar a bandeira de luta do lado social, não tratar apenas de política…E deve ser urgente, pois, as dificuldades que as pessoas das comunidades enfrentam são grandes.

5. E ao final do projeto?

Denivaldo: Como se sabe quando um projeto chega ao final a instituição não tem como segurar por não ter recursos. Tive que deixar a FOIRN, mas, não por muito tempo. Na época no Departamento de Educação tinha um recurso para um “Articulador Político”, mas, que tinha que ser alguém do Baixo Rio Negro, por isso, foi chamado uma pessoa de Santa Isabel, mas, que não se adaptou aos trabalhos e desistiu em menos de dois meses. Como não tinha alguém para substituir me convidaram para essa tarefa em 2008. Época em que levamos algumas assembléias de discussão para a região de Barcelos e Santa Isabel, inclusive levando alguns coordenadores de escolas como a Nazária Andrade da Escola Pamáali e Juscelino Azevedo da Escola AEITYM para apresentar as experiências para o pessoal. Uma das atividades que envolveu professores e o poder publico, mas, não deu continuidade, e até hoje as comunidades continuam reivindicando.

6. E nesses últimos anos?

Denivaldo: Hoje o Departamento de Educação não tem mais recurso próprio para apoiar as atividades. Que antes (anos atrás ) ainda tínhamos um apoio da RFN (Rainforest), hoje dependemos das viagens dos diretores ou algum apoio de algumas instituições como a FUNAI-SGC para participar de eventos como assembléias nas bases. Para completar não recebemos apoio do poder publico. Nos anos anteriores participávamos de decisões em alguns conselhos como o Conselho Municipal de Educação e Conselho de Alimentação Escolar – CAE, e atualmente não somos mais convocados, não sabemos como são feitas as deliberações nesses conselhos. E o pior é que todos os conselhos não estão funcionando. Apesar de todas essas dificuldades continuo otimista, acredito que ainda teremos um gestor que atenda e olhe as nossas necessidades com mais carinho. E uma dos projetos que acompanhei de perto foi o curso de formação dos Agentes Comunitários Indígenas.

7. Quais motivos você deixa a federação nesse momento (ano)?

Denivaldo: É chato falar isso. Mas, bom…acho que é momento de dar um tempo apesar de não ter sido no momento certo.

 

8. Ao sair o que você leva da FOIRN ?

Denivaldo: Tive oportunidade de fazer muitas coisas e aprendi um bocado. Se tivesse entrado numa faculdade estaria saindo com um diploma. Mas, saio daqui um “diploma da FOIRN”. Pelas viagens conheci muita gente das comunidades e de fora (outros estados). Hoje quando ando na rua muitas pessoas me cumprimentam e conversam sobre assuntos variados e isso é muito bom. Uma rede de colaboradores e amigos intelectuais foi construída ao longo desses oito anos no movimento. Saio daqui com mala cheia de aprendizados (risos). Uma coisa deixo claro, saio da FOIRN, mas, não deixo Movimento Indígena.

9. Como você disse “Saio da FOIRN, mas, não deixo o Movimento Indígena”, você volta para a FOIRN algum dia?

Denivaldo: Sim. Quem sabe aparece outra oportunidade futuramente.

 

10. Como se sabe mudanças é sempre são difíceis, agora que você deixa a Federação quais são os planos futuros a partir de agora? Sei que para pessoas com essa experiência que tem as vagas são o que não faltam..

Denivaldo: Já recebi várias propostas (4) até agora. Mas, preciso pensar bem antes de tomar uma decisão qual vou aceitar. Mas, uma coisa deixo claro que só aceito com uma condição: ter espaço para continuar no Movimento Indígena. Quem sabe ir para a Escola Pamáali (risos…)

 

 

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6 respostas em “Entrou no movimento indígena e descobriu a “ identidade original”.

  1. É muito bom saber um pouco de trajetória.
    As outras oportunidades vão aparecer, como já disse (4). O tempo passa, e cada um de nós fazemos o tempo passar pelo tempo, cada tempo tem o seu tempo e o tempo faz seu tempo. Assim é a nossa vida

    • Valeu pelo comentário Dzoodzo, conhecer a trajetória de luta de pessoas nos ajuda a conhecer a nossa própria história (Movimento Indígena). Abraços.

  2. Parabéns pelo blog.
    Tenho muita saudade de São Gabriel da Cachoeira e do carinho com que me receberam.
    Sou professora do Curso de Pedagogia da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – Paraná. Estive em SG coordenando um projeto de alfabetização de adultos, entre os anos de 1999 e 2001, nas comunidades indígenas do alto Rio Negro. Primeiro, acompanhada pelo Profº Ademir (SEDUC) e Rosimeire (Coordenadora local), depois com Ademir e Waldete (Coordenadora local) que atualmente está fazendo mestrado em uma das Universidades do Nordeste. Grandes companheiros de viagens.
    A FECILCAM teve que deixar o projeto, pela inadequação da proposta as características do grupo, pois o programa deveria ficar somente 6 meses em cada comunidade. Como se tratavam de adultos, da qual a língua materna era a indígena, o tempo para alfabetizá-los em língua portuguesa se tornou inviável.

    Um grande abraço a todos das comunidades que tive o prazer de conhecer.

    Maria José

    • Obrigado Professora, meu primo participou desse projeto, inclusive participei de algumas aulas e foi muito bom. Alguns nomes citados são conhecidos e a Waldete é mimha amiga.

      São Gabriel e comunidades te esperam se aparecer outra oportunidade.

      Forte abraço!

  3. Amigos, gostei muito de ler a entrevista com o Denivaldo. Eu conheço o Deni desde 1982 e vejo nele um jovem completamente comprometido com as demandas das comunidades do Rio Negro. Saudações e parabéns pela entrevista.

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