Movimento Indígena do Rio Negro: Agora é elas!

As mulheres indígenas do Rio Negro conseguiram um fato inédito na história do movimento. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro- FOIRN terá primeira mulher presidente em 25 anos. Quem conta como a participação delas vem crescendo nos últimos anos é a  Rosane Cruz – Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro – DMIRN , que coordena e acompanha de perto o movimento delas no Rio Negro.

Rosane Cruz- Coordenadora do DMIRN (foto: Arquivo pessoal)

Sorridente, corajosa e guerreira. Uma das poucas que conhecem de perto a realidade das mulheres  que vivem no chamado “cabeça de cachorro”. Quando o assunto é Mulheres Indígenas ou assunto relacionado a isso, é com ela mesma!  Essa é a Rosane Cruz ou Oholipako da etnia Piratapuya, de apenas 22 anos. A atual Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do  Rio Negro , espaço conquistado por elas dentro da FOIRN.

Nasceu e cresceu em Iauaretê no Rio Waupés, um dos principais afluentes do Rio Negro. Antes de assumir o DMIRN, fez o Curso de Gestores  de Projetos e de lá pra cá, muita coisa aconteceu. Entrou para o movimento indígena do Rio Negro e não parou mais. Depois do dia 19 de maio de 2010, quando foi eleita, a rotina da Rosane, passou a ser reuniões e viagens.

Criado em 2002, o DMIRN  entre outros objetivos, assume o compromisso de assegurar e viabilizar a defesa e o exercício dos direitos das mulheres indígenas na área de atuação da FOIRN e  representar politicamente organizações de mulheres indígenas do Rio Negro dos 23 povos da região em eventos deliberativos locais e nacionais

Estão presentes desde o inicio.

Elas estão presentes na luta desde o inicio. A participação delas foi decisiva para a criação da FOIRN em 19 87 (Clique aqui para assistir o vídeo de fundação da FOIRN).

Nesses últimos 25 anos, elas se organizaram por meio de associações,  com focos voltadas principalmente para a produção e comercialização de produtos feitos por elas. Algumas se desenvolveram mais e outras menos. E a presença e a participação delas no movimento por meio dessas associações vem crescendo nos últimos anos.

Em diretorias executivas, apenas nas gestões de 2001 á 2004 teve a Rosline Fonseca – Piratapuya como diretora. Mas, nunca chegaram ao posto mais alto, à presidência ( o que aconteceu na última assembleia e será contado mais abaixo).

O papel delas no movimento indígena do Rio Negro.

 

Coordenadoras do DMIRN visitam e conversam com as mulheres indígenas. Foto: Acervo DMIRN

Atualmente, somam-se 14 associações de mulheres filiadas à FOIRN. Cada uma nas respectivas áreas de abrangência e dificuldades diferentes.

 Segundo a Rosane, a apesar das dificuldades que enfrentam, o movimento delas vem crescendo nos últimos anos. “As associações de mulheres na região estão crescendo aos poucos, mas, ainda enfrentam muitas dificuldades, como a elaboração de propostas de projetos, a formação técnica em linguagem exigida pelos editais de financiamento e como a própria documentação da associação”-disse.

A mulher assume um papel importante na maioria das histórias e mitos que contam o surgimento dos povos. Para os povos Baniwa e Coripaco, a mulher é responsável por muitos aspectos importantes e decisivos na história de origem e durante o processo de organização da vida social do povo, representadas pela Amarottadoa.

No movimento indígena do Rio Negro, acontece o mesmo. Muitas conquistas e realizações da FOIRN nessas primeiras duas décadas, contaram com a participação direta e indireta delas.

E vão conquistando seus espaços aos poucos. Depois que foi criada o DMIRN em 2002, passaram a participar ativamente das atividades e ações da federação. Mas, somente a partir da XVI Assembleia Geral da FOIRN realizado em Barcelos no inicio de 2011, com a aprovação do novo estatuto, passaram a ter direito de estarem (obrigatoriamente) participando  da eleição e concorrer vaga na diretoria da federação (cada Coordenadoria regional tem direito de indicar/escolher por meio de votação três candidatos, e entre esses, uma vaga é de uma candidata mulher).

Lá vão elas. E sonham alto. Hoje, elas veem a necessidade de criarem uma organização de representação em nível da FOIRN. E não pensam em deixar isso mais pra frente. Já vão discutir a pauta na próxima Assembleia Eletiva do DMIRN, prevista para o mês de maio de 2013, com data ainda não definida. “Além de eleger a nova coordenação do DMIRN, uma das fortes discussões que queremos iniciar nesse evento será sobre a criação de uma organização de mulheres a nível do Alto Rio Negro. E um dos objetivos da assembleia será o fortalecimento da política do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro para garantir a participação ativa das associações de mulheres no movimento do Rio Negro”- explica a coordenadora do DMIRN.

Os desafios

A Rosane Cruz tem um grande peso de responsabilidade no fortalecimento do movimento das Mulheres do Rio Negro, através da reorganização das associações criadas por elas (foto: Arquivo pessoal).

Muito precisa ser feito, ainda. Mas, tem alguém disposto a fazer tudo pela causa. Na entrevista, ao ser perguntado quais desafios o movimento das mulheres tem pela frente. Ela dá uma pausa longa, como se precisasse respirar fundo, antes de dar a resposta. E volta a escrever: “Espero conseguir alcançar mais objetivos, para com isso Unir numa só corrente a luta das Mulheres”.

A Rosane, desde que começou a assumir o DMIRN, vem buscando formas de cumprir os objetivos do departamento através de diálogo com as mulheres que representam as associações e com aquelas que estão nas comunidades nas viagens que fez nesses últimos dois anos. Enfrenta dificuldades, principalmente por falta de recursos financeiros que é importante para realizar as viagens para as bases. Ainda mais por ser uma região muito grande. As vezes recebe convite, mas, não tem condições para chegar lá.

E ela não está sozinha. Quando a Rosane viaja fora do município para participar de eventos nacionais, tem a Anair Sampaio, da etnia Tukano, vice-coordenadora do DMIRN,  que também faz viagens e conversa com as mulheres nas comunidades. Nesses últimos anos ela  visitou e conheceu associações de mulheres das coordenadorias CABC, COITUA e CAIMBRN.

E o que é necessário fazer para fortalecer o movimento delas? “Hoje é necessária uma ação de reorganização e fortalecimento das associações de mulheres das bases, pois várias delas estão praticamente paradas, fazer articulação para poder fortalecer a força política das Mulheres Indígenas do Rio negro”- lembra.

Qual recado você deixa a elas? “Deixar claro a todas mulheres indígenas do Rio Negro que é não tão difícil conquistar um espaço dentro da Foirn. Por isso, elas precisam que ser participativas e conhecedoras dos principais problemas da nossa região. A conquista  na última assembleia, vai incentivar muitas mulheres. Quem sabe daqui quatro anos possamos coloca mais 2 mulheres dentro da Diretoria”.

Agora é a vez delas..

Elas comemoram a vitória na XVII Assembleia Geral da FOIRN, Almerinda Ramos a primeira mulher presidente da federação em 25 anos de história. Foto: Beto Ricardo/ISA

O que se pode esperar da gestão da federação com uma mulher na presidência? Na opinião da coordenadora do DMIRN, a facilidade de diálogo e a possibilidade de incluir (com mais facilidade) o planejamento do departamento junto com o planejamento da FOIRN pode ser esperado. “Com mulher na presidência, pode facilitar o diálogo entre a diretoria e o departamento nos planejamentos e na realização de nossas ações, como departamento. O que vai ajudar muito no fortalecimento do nosso movimento. Quanto sobre recursos financeiros, é nossa responsabilidade correr atrás”- afirma Oholipako.

Dia 8 de novembro de 2012, entrou para a história do movimento indígena do Rio Negro. O dia em que foi eleita uma mulher para presidir uma das maiores e mais respeitadas organizações indígenas do país, a FOIRN. Nome dela: Almerinda Ramos de Lima, 40, da etnia Tariana. Que deixou os homens, com brilhos nos olhos de surpresa e apenas na condição de expectadores na lotada maloca da FOIRN.

Muitos desafios vem pela frente para serem enfrentadas. E lá vão elas. As nossas lideranças e guerreiras! Com coragem e garra. Até onde vão chegar e quantos conquistas elas tem pela frente, não sabemos. Só o tempo vai dizer. E nós homens, precisamos fazer nossa parte. Valorizar, reconhecer, aplaudir e somar forças com elas.

Leia também: Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro visita comunidades do Rio Xié para propor a criação de Associação das Mulheres Indígenas do Xié.

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O novo índio brasileiro

André Baniwa é índio, militante e vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Ele é um exemplo de que os limites culturais entre os indígenas e a sociedade ocidental têm se transformado e defende que só a educação é capaz de garantir a qualidade de vida das futuras gerações indígenas. Enquanto acesso a tecnologia e a universidades fazem parte da vida de alguns povos, outros enfrentam altas taxas de mortalidade infantil e sequer sabem o que é uma crise econômica. Afinal: o que é ser índio hoje?

Foto: Mario Farias/OIBI. André Baniwa e lideranças das comunidades

Indígena da tribo Tucumã Rupitá, nascido em 1971, no Alto Rio Içana, afluente do Rio Negro, André Baniwa só frequentou a escola porque seu pai não queria que suas crianças passassem pela mesma dificuldade que ele teve de entender o que estava acontecendo no mundo, porque coisas erradas aconteciam, com que intenção os homens brancos entravam em contato com os índios e os motivos que levavam o governo a tomar suas tantas decisões.

Anos mais tarde, quando os filhos começaram a sair da aldeia para continuar os estudos – André foi para Manaus cursar uma escola agrícola em regime de internato –, a saudade do pai acabou fazendo com que ele se arrependesse da escolha que fez, pois seu desejo era de que todos permanecessem na comunidade e contribuíssem ali.

Quando não teve mais recursos financeiros para continuar seus estudos na capital amazonense, André voltou para junto de seu povo – hoje, são cerca de seis mil indígenas Baniwa espalhadas por 80 aldeias – e, pelo fato de ter escolaridade superior à da maioria dos que haviam permanecido lá, inclusive alienados sobre seus direitos, acabou participando da OIBI – Organização Indígena da Bacia do Içana e entrando para o movimento indígena. Naquele momento, a discussão dos índios com a FUNAI – Fundação Nacional do Índio girava em torno da demarcação de terras.

Baniwa já foi presidente da associação local, lutou por saúde, educação e geração de renda para seu povo – fortemente submetido à exploração de patrões brasileiros e colombianos – e desenvolveu um modelo educacional e pedagógico para os povos Baniwa e Kuripaco, que chegou a ser objeto de estudo de universitários da Noruega. Para ele, a educação é a chave para melhorar a qualidade de vida dos índios. Ele também foi Conselheiro Municipal de Saúde, é membro da diretoria da FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e, em 2008, se tornou vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira (AM), pelo Partido Verde.

Há quase oito anos, a arte dos índios Baniwa chegou a empresas de São Paulo como Tok Stok, Pão de Açúcar e Natura e a Universidade Federal do Amazonas abraçou um dos projetos da aldeia que valoriza a medicina tradicional indígena. Enquanto a universidade os orientava sobre políticas públicas e sistema de saúde, eles ensinavam o poder curativo das plantas.

Em homenagem ao Dia do Índio, Andre Baniwa conversou com o Planeta Sustentável e nos fez refletir sobre os novos limites culturais e de informação entre os indígenas e a sociedade moderna ocidental. Ao mesmo tempo em que muitos têm acesso a universidades e tecnologias, a mortalidade infantil entre eles está bem acima da média nacional. Se, por um lado, eles têm consciência de que as mudanças climáticas são uma realidade, a metade deles sequer sabe que o mundo passa por uma forte crise econômica. A diferença entre os povos indígenas compõe o cenário de diversidade – e de desigualdade – presente em todo o território nacional e nos leva a questionar: afinal, o que é ser índio hoje?

Ao mesmo tempo em que existem índios como você, que interagem com a sociedade ocidental e participam ativamente dela, cerca de metade dos povos indígenas ainda permanece isolada do contato com os brancos. É possível estabelecer essa interação e ao mesmo tempo preservar a identidade?

Nós entendemos que hoje a realidade é diferente. O Rio Negro tem mais de 300 anos de contato com a sociedade ocidental. Muitas tradições já deixaram de ser usadas e precisam ser fortalecidas, mas não acabaram, elas estão na memória. Eu sempre digo aos antropólogos que, hoje, já não é possível viver só do que é nosso, precisamos dos conhecimentos do ocidente, assim como dos nossos conhecimentos. Estamos interessados em tecnologias, em conhecimento que vem de fora, em aprender o que é o nosso direito. No Rio Negro, muitas lideranças estão lutando por isso e não é desejo desses povos viver isolados. O sentido é vivermos juntos, um respeitando o outro, isso é mais importante.

No meu município, que já é centenário, 95% da população é indígena, mas não são os indígenas que têm gerenciado o local. Com o contato que tivemos com os colonizadores, o que vem de fora é que tem sido valorizado. Agora estamos conscientes e decididos que, por mais que sejamos diferentes, temos nossa cultura e queremos ter oportunidades de mostrar o indígena, de trabalhar, coordenar e dirigir a comunidade. A tentativa é, cada vez mais, tirar a imagem negativa que se tem sobre os índios e adequar as políticas públicas.

Você luta muito pela questão da saúde indígena, essa ainda continua sendo uma questão grave do contato dos brancos com os índios?


O que fica bem claro nessa área da saúde é que os serviços não estão organizados, não há infraestrutura suficiente para trabalhar na prevenção, mesmo de doenças já conhecidas no Brasil. Ainda temos índices altos de mortalidade infantil, acima da média nacional. Estamos trabalhando para que a medicina ocidental e a tradicional andem juntas.

Quais são as grandes ameaças atuais aos povos indígenas?


A ameaça constante não está localizada aqui, está em Brasília, no Congresso Nacional, quando vemos deputados anti-indígenas querendo rever os direitos dos índios. Hoje, as terras demarcadas indígenas são uma das únicas maneiras de garantir a preservação da floresta e evitar essa crise ambiental mundial, o aquecimento global e as mudanças climáticas. Nós precisamos divulgar essas coisas boas dos indígenas, porque isso é a garantia de sobrevivência das futuras gerações.

Você usa termos como aquecimento global, mudanças climáticas e crise ambiental. Os indígenas estão conscientes destas questões que preocupam o planeta?


A gente está consciente de que essas coisas acontecem, isso também está presente nas nossas mitologias. Nesse âmbito de aliança pelo clima, desenvolvemos projetos que hoje estão sendo reconhecidos e divulgados pelo Brasil como políticas de boas práticas. Agora no dia 18 de abril, um seminário vai reunir a comunidade científica e os pajés para conversar sobre qual é a visão dos povos indígenas sobre as mudanças climáticas e o que dizem os cientistas. A partir desse diálogo vamos pensar na política pública do estado e dos municípios.

A maneira como vocês lidam com a natureza pode ser uma boa lição para o planeta…


É verdade. Nosso conhecimento vem da natureza, nós entendemos que ela é fonte de sabedoria, de tratamento. Ela tem um espírito. Pedra, peixe, floresta, água, cada um desses seres tem vida. E os povos indígenas se preocupam em fazer manejo. A mensagem que queremos deixar para o mundo inteiro é que se a sociedade explora a natureza sem um planejamento de uso sustentável dos recursos naturais, não haverá outro destino senão esse de que o mundo está indo para um abismo sem volta. As histórias da ciência, da Bíblia e da nossa mitologia têm demonstrado isso. Todos devem parar de pensar em si próprios, sem se interessar com quem vem depois. E depois vêm os filhos, os netos e as gerações que continuam. Isso deve ser pensado antes de mexermos com a Terra.

Segundo a FUNAI, dos 230 povos indígenas que existem no país, pelo menos a metade vive quase que exclusivamente de caça e pesca. Enquanto isso, o mundo vive hoje uma crise financeira. Como você enxerga essa diferença de realidade?


Os povos indígenas têm realidades diversas entre si. No mapa do Brasil, existem povos com pequeníssima reserva de terras, como o povo Guarani e os Serenas, que vivem no Centro Oeste e no Sul do país. Eles enfrentam problemas sérios nessas situações. Já na Amazônia, muitos lugares não dependem do dinheiro e, sim, dos recursos naturais para sobreviver, então para eles a crise econômica não tem sentido.

E o nosso conceito de pobreza é diferente. Por mais que não tenham calçado, camiseta, uma série de coisas, o índio decide em que hora vai brincar, quando vai trabalhar, quando vai descer para andar na praia… A vida é completamente diferente, mais tranqüila, não existe problema de agenda. Eu conheço essa realidade e hoje que estou na gestão da prefeitura, vejo que essa vida simples é muito melhor.

Atualmente, a população indígena cresce mais do que a média nacional. Ao mesmo tempo, 5 mil índios frequentam universidades e já existem 20 mil professores indígenas. Que tipo de preocupações precisamos ter em termos de cuidados com as futuras gerações indígenas?


A educação é uma de compreensão nossa sobre o que é o mundo, sobre como tratamos dos nossos direitos, como cuidamos das pessoas. É um caminho que nos ajuda a nos defendermos melhor e quando compreendemos o Estado brasileiro, certamente saberemos propor mudança para vivermos melhor. Somos indígenas e somos brasileiros e não é preciso deixar de ser nem um nem outro.

E o que é ser índio hoje?


Ser índio é conhecer a própria cultura, as tradições e manter sua identidade, sem deixar de conhecer o Estado brasileiro, a cultura e a tradição da nação. Assim, a pessoa fica mais fortalecida culturalmente. Queremos ter uma vivência intercultural do país e ser respeitados. Apesar de a lei dizer isso, a prática é bem mais difícil.

O que poderia ser feito para que os índios fossem incluídos na sociedade em que vivemos sem perder sua identidade?


Inclusão é uma forma de dizer, em outras palavras, integração. Parece que ser pobre é um problema para o Estado e para o sistema. É como se eles dissessem “aqui é melhor, vocês têm que vir para cá”, e não é esse o sentido. Corremos esse risco o tempo inteiro. Mas eu acho válida a tentativa do Brasil de cuidar de seu povo. Nossas tradições precisam continuar e a palavra certa é respeito.

Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br

Perguntas e Respostas: Gersem Baniwa, índio e antropólogo.

 Gersem dos Santos Luciano Baniwa é importante líder indígena, o representante indígena no Conselho de Educação e autor do primeiro livro da série Via dos Saberes, “O índio brasileiro – O que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje”. Produzida pelo projeto Trilhas de Conhecimento, a série Via de Saberes é composta de quatro livros sobre os índios brasileiros e foi publicada no início deste ano na Coleção Educação para Todos, do Unesco e do MEC. Baniwa conversou esta semana com o Prosa & Verso  por e-mail, durante as atividades do Abril Indígena, em Brasília. Leia a íntegra da entrevista concedida esta semana por e-mail ao GLOBO, durante as atividades do Abril Indígena, em Brasília:

Os povos indígenas representam cerca de 0,4% da população brasileira e  detêm cerca de   11%  do território nacional.  Muita gente  diz  que há muita terra para pouco índio, assim como diz  que há muito investimento em educação diferenciada, por exemplo, para pouco índio. O que acha dessa visão?
GERSEM BANIWA
:  Essa questão é a principal fonte de discriminação e de  negação dos direitos dos povos indígenas. É o ranço do pensamento medieval e colonialista, que considerava a cultura européia  a única aceitável. A comparação é contra toda  possibilidade de uma sociedade muliticultural. Se o princípio da multiculturalidade é a possibilidade de convivência harmoniosa ou tolerante entre diversas culturas e etnias, então é preciso admitir as diversas formas de vida dos povos e das culturas. Ora, os povos indígenas só podem continuar com suas culturas, tradições,  línguas,   mitologias, cosmologias,   filosofias, seus sistemas econômicos,  jurídicos e políticos, se continuarem tendo seus espaços territoriais e processos educativos próprios. Querer que os povos indígenas vivam em terras minúsculas ou em apartamentos como os não-índios nos centros urbanos é querer que   sejam extintos, que deixem de existir. Os povos indígenas, que vivem basicamente de caça e pesca, agricultura itinerante, de rituais, de cerimônias, de economia recíproca  e de solidariedade, precisam de territórios suficientes para esse exercício de vida coletiva. O tamanho do território determina as condições de sobrevivência alimentar e econômica, mas principalmente a sobrevivência cultural. Afinal, onde irão desenvolver seus rituais, suas tradições, suas caçadas e pescarias coletivas? Além disso, é necessário que se pense o futuro dos povos indígenas na perspectiva de seu crescimento demográfico, para não haver as tragédias que estamos vendo, por meio da mídia, com os índios guarani e terena no Mato Grosso do Sul, cujas terras,  quando   demarcadas, eram suficientes para a população,  então em franca decadência por conta do grande processo de genocídio e etnocídio do início  do século passado. Hoje são absolutamente  insuficientes  para a população indígena em franco crescimento demográfico após os novos ares da Constituição Federal  de 1988 . Vive-se lá num   amontoado e confinamento trágico de seres humanos.  Sem dúvida, esse é o maior desafio dos povos indígenas do Brasil   hoje:  mostrar para a sociedade, principalmente os segmentos mais conservadores,   que, por serem portadores de culturas e modos de vidas diferentes das sociedades não-indígenas, precisam ser vistos e tratados também de formas diferente, principalmente nos quesitos terra, educação e saúde. As terras indígenas precisam ser suficientes para garantir a reprodução física e cultural dos povos indígenas. A educação escolar e a saúde indígena precisam dar conta além da cidadania e direito universal de acesso á saúde e educação pública de qualidade, da educação e saúde diferenciada, o que significa, produção e materiais didáticos específicos, de formação de professores e agentes de saúde indígena específicos, além do envolvimento de pajés e lideranças tradicionais nas políticas públicas, pois só eles podem orientar a qualidade dos serviços e das políticas públicas voltados aos povos indígenas.  É um desafio   para o qual a série Via dos Saberes pretende contribuir.

A lei que obriga o ensino da cultura e da história dos povos indígenas pode ajudar? BANIWA:  A lei é importante porque estimulará a produção de livros didáticos que tratem de forma adequada as realidades históricas e atuais dos povos indígenas, sem os preconceitos, os estereótipos e as imagens deturpadas, que a literatura colonialista tradicional produziu e divulgou nas escolas e na mídia.  A lei, na verdade, regulamenta o que já estava assegurado na Constituição Federal e na leis infra-constitucionais, particularmente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), da necessidade dos sistemas de ensino e das escolas darem tratamento adequado no âmbito de seus processos didático-pedagógicos, sobre os povos indígenas do país. Não será tarefa fácil, na medida em que não existem  livros didáticos sobre a questão,  com abordagens adequadas e atuais. Esses livros deverão ser produzidos e isso depende fundamentalmente do financiamento público,  principalmente do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura. Outro desafio será estimular  os povos indígenas  a escreverem livros. Existindo financiamento, outro desafio será estimular que os povos indígenas, principalmente os professores, estudantes, pesquisadores e acadêmicos indígenas se interessem e se dediquem a escrever livros. Outra esperança é de que a partir da lei, os sistemas de ensino e as escolas incorporem, em suas áreas de atuação, a necessidade de produção de livros didáticos sobre o tema e que isso venha estimular a criação e o desenvolvimento de grupos de estudos e pesquisadores indígenas e não-indígenas para tal fim. O que os povos indígenas podem fazer, a partir da lei, é aproveitar o ensejo para estimularem que as suas escolas se dediquem a produzir livros próprios, pois os professores junto com seus alunos são as melhores opções para elaboração de livros, com qualidade e a custos razoáveis, além da possibilidade de ampla participação das comunidades em todo empreendimento.  E os povos indígenas precisam traçar estratégias de articulação com os sistemas de ensino e com as escolas para que a lei seja cumprida, que não vire lei morta, como muitas vezes acontece com os direitos indígenas.  

Há muitos livros de apresentação dos povos indígenas escritos por antropólogos.  Qual  a particularidade do seu olhar?   
BANIWA:
  Na verdade já existem vários livros escritos por índios que tratam basicamente de mitologias ou experiências de projetos escolares ou de projetos produtivos e ambientais. São livros muito ricos e devem ser aproveitados na perspectiva apontada pela lei, embora estejam muito mais voltados para uma divulgação genérica, sem   preocupação didática ou voltados  para  um determinado público. Cito, como exemplo, uma coleção chamada “Narradores Indígenas” que já conta com sete volumes, que trata de mitologias escritas por lideranças indígenas do Alto Rio Negro no estado do Amazonas. São volumes densos, muito ricos e importantes para o público mais acadêmico ou as próprias lideranças indígenas, mas  pouco práticos para trabalhar em escolas como material didático, a não ser de forma  complementar, para eventuais pesquisas. No caso das produções de antropólogos, estas seguem fundamentalmente o perfil acadêmico, muito pouco aproveitável  no âmbito das escolas de educação básica, na medida em que são monografias muito densas e com linguagem distante de jovens da escola. De todo modo, nos dois casos, os materiais produzidos são importantes para subsidiar a produção de livros específicos para escolas. No caso dos antropólogos, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) deveria ser estimulada a estabelecer parcerias com as comunidades e as escolas indígenas na perspectiva de produção de livros, como uma forma de contribuição ou retribuição recíproca, do acúmulo de conhecimentos que foram gerados a partir dos povos indígenas e também como forma de tirar dos arquivos acadêmicos essa riqueza de conhecimentos, para que  seja levada ao público brasileiro.
O livro “O Índio brasileiro — O  que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje”  tem uma característica particular pelo fato de ser um livro escrito não a partir de uma pesquisa acadêmica, mas a partir de, ou baseada em experiência concreta de vida. Portanto, reflete um olhar do que é vivido e não de conjecturas, análises, ou teorias. Além disso, o livro é escrito para um público específico que são os jovens indígenas e não-indígenas do ensino médio e de graduação. Aqueles que estão iniciando seu processo pessoal e coletivo de enfrentamento com o mundo das relações identitárias e  da realidade brasileira como uma sociedade pluricultural e multiétnica,  mas também de lideranças indígenas, que no dia-a-dia desenvolvem suas lutas a partir dessas realidades e contextos políticos abordados no livro.  Além disso, é um livro que privilegia a relação dos povos indígenas do Brasil com a sociedade nacional e internacional, principalmente com o Estado brasileiro, ou seja, trata dos desafios históricos, presentes e futuros dos povos indígenas. Neste sentido, a particularidade do olhar pessoal como baniwa, de outros olhares de antropólogos, está no olhar direto, sem subterfúgios teóricos e epistemológicos, para tentar dar conta da realidade vivida pelos povos indígenas, no dia-a-dia de suas lutas por sobrevivência, por garantia de seus direitos, por cidadania e por seu espaço na sociedade e na autonomia de vida em seus territórios. Isso é importante de ser considerado, pois o meu olhar não está focado no passado nem no que se poderia considerar como tradição, algo muito privilegiado pela antropologia clássica, para mim ainda vigente, embora considere as duas dimensões como fundamentais para a contextualização histórica das lutas indígenas por sus direitos, mas focado no contexto presente e nas expectativas do futuro que os povos indígenas estão construindo e as formas, estratégias que vão traçando para garantir seu espaço na sociedade de hoje, moderna, globalizada, tecnológica etc. Ou seja, procurei abordar temas, idéias, sonhos, que estão sendo falados, pensados, trabalhados pelos povos indígenas, aproveitando-me do privilégio de fazer parte dessas coletividades e dos processos sóciopolíticos que estão construindo.

No livro, o senhor observa que “toda concepção social, cultural e econômica de um povo indígena está relacionada a uma concepção de mundo e de vida, a uma determinada cosmologia organizada e expressa por meio dos mitos e dos ritos”. É extensa a literatura científica produzida no país por antropólogos sobre essas questões. Como antropólogo baniwa, o que acha desses estudos?
BANIWA:
Como eu já afirmei antes, são estudos importantes seja do ponto de vista da ciência, seja do ponto de vista político. São estudos muito importantes, por exemplo, para fundamentar muitos direitos dos povos indígenas, como o direito ao território que exige comparação da tradicionalidade e imemorialidade de ocupação. Em geral são muito ricos para fundamentar a necessidade do direito coletivo específico, ou seja, como coletividades precisam ter sistemas jurídicos diferenciados para que seja garantida a continuidade étnica e cultural dos povos indígenas. Minha única crítica é que são estudos elaborados com a participação e ajuda dos povos indígenas, mas depois de sistematizados e publicados não são retornados aos povos indígenas que não ficam sabendo dos resultados e muito menos para que acabam servindo. Ou seja, são estudos produzidos para a academia e muitas vezes com resultados apenas aos próprios pesquisadores. Felizmente isso está mudando, pela própria pressão dos índios, que não aceitam mais serem apenas objetos ou informantes de estudos, querem ser também co-autores, sujeitos e beneficiários desses estudos. Com a possibilidade de termos cada vez mais índios antropólogos esse processo tende a ser acelerado, pois o índio antropólogo pesquisador obrigatoriamente tem que ter o compromisso, moral, ético e político com a comunidade, o que faz com que tudo o que faz deve fazer parte das estratégias de sua comunidade e de seu povo. Neste sentido, o controle sobre o índio antropólogo é muito grande, enquanto que sobre o antropólogo não-índios é mínimo ou quase inexistente.

Como vê a questão do “índio urbano”? Como o conhecimento, da história e da diversidade cultural, pode ajudar tanto o índio quanto o branco a observar e a lidar com essas diferenças?
BANIWA:
A presença indígena nos centros urbanos não é nova. Nova é a visibilidade que essa população está ganhando. Até então eram populações invisíveis e totalmente excluídas e negadas do campo dos direitos indígenas, de modo que sofriam dupla discriminação: de serem parte dos segmentos empobrecidos das periferias das cidades e excluídos dos direitos indígenas oferecidos aos índios de aldeias. Com o processo de democratização do país os processos de reafirmação étnica e identitária vieram à tona e junto as políticas de ações afirmativas, essas populações começaram a ganhar espaços de visibilidade e o movimento indígena e as políticas públicas foram pressionadas a olhar para eles também como sujeitos de direitos específicos, o que é absolutamente legítimo. O que  é necessário,  agora, é estender e consolidar políticas adequadas para eles, que não podem ser iguais àquelas voltadas para as aldeias e as terras indígenas, uma vez que as demandas e perspectivas são diferentes em muitos aspectos. Uma escola indígena de aldeia, por exemplo, visa a formar jovens indígenas para responder às necessidades da aldeia, melhorar a produção e comercialização de seus produtos. Uma escola indígena situada numa cidade como Manaus precisa formar jovens indígenas para a realidade de Manaus, cuja base é a aspiração ao mercado de trabalho. O que não pode é excluir essas populações dos direitos indígenas específicos, seja porque fazem parte do segmento indígena, portanto, portadores de culturas, tradições, valores próprios, seja porque podem aumentar o número de contingentes marginalizados das periferias das cidades, que resultam em um dos priores males das civilizações urbanas modernas.

Retirado em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/post.asp?t=gersem_baniwa_indio_antropologo&cod_Post=98367&a=96.

Imagem retirado de:

http://www.lpp-.net/olped/acoesafirmativas/boletim/28/entrevista_gersem_luciano.htm