139 Agentes Comunitários Indígenas de Saúde concluem curso técnico em São Gabriel da Cachoeira

ACIS do Pólo Formativo Baniwa e Coripaco (Médio e Alto Içana). Foto: FOIRN

ACIS do Pólo Formativo Baniwa e Coripaco (Médio e Alto Içana). Foto: FOIRN

Foi uma comemoração e tanto. Dois dias para comemorar essa conquista histórica. Só para se ter idéia, a maloca da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), lotou na noite do dia 10/04. O ginásio Arnaldo Coimbra ficou cheio de gente no dia 11/04.  Uma comemoração de um resultado de um trabalho conjunto e coletivo que envolveu várias pessoas e instituições ao longo dos anos.

Em 2009, atendendo a uma demanda apresentada pela Federação das Organizações Indígenas de Saúde – FOIRN, a Fiocruz Amazônia uniu forças com outra unidade da Fiocruz, a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, com a Gerência de Educação Indígena (GEEI) da Secretaria Estadual de Educação do Amazonas e juntamente com outros parceiros como a FUNAI, Prefeitura Municipal de São Gabriel da Cachoeira e o DSEIARN proporcionaram a formação de agentes indígenas de saúde das áreas indígenas.

Na primeira noite, os representantes de instituições que participaram ativamente no processo de construção do projeto de formação dos Agentes Comunitários Indígenas de Saúde, lembraram das dificuldades e os aprendizados ao longo dos anos. “Não foi fácil – todos aqui são merecedores dessa conquista, é a primeira turma de Curso Técnico em Agente Comunitário Indígena de Saúde do país”-lembrou uma das lideranças durante a cerimônia.

“Que a essa conquista tenha resultados direto na melhoria da qualidade de vida da população indígena”, “Vocês estão de parabéns por essa conquista, e como também a todos que fizeram parte desde o começou”, “Estamos mostrando para o governo Brasileiro que sabemos fazer e direito” – essas foram algumas das afirmações nos discursos de abertura.

Homenagens da turma foram dedicados à alguns cursistas que faleceram ao longo do curso, e como também aqueles que foram os primeiros agentes de saúde indígena na região mesmo sem remuneração, entre estes foram convidados: Antônio Menezes, Argemiro Teles e outros.

Foram várias etapas desse projeto formação, a primeira delas foi a regularização da vida escolar (vários não tinham ensino fundamental completo ou ensino médio), e a segunda foi a formação técnica. De ACIS para Técnicos em Agentes Comunitários Indígenas de Saúde. Os desafios são grandes pela frente, mas, o resultado de uma luta de vários anos, mostra que é possível, sonhar e lutar.

Parabéns!

Em Iauaretê, uma temporada no Rio Waupés

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Em Iauaretê, durante o Seminário de Educação Escolar Indígena, entre os dias 17 a 19 de março.

Uma viagem tranquila e longa. As curvas e praias brancas às margens são os detalhes da paisagem, que além de lindas, as vezes significam perigo ou pedem atenção aos que descem e sobem o rio, que não são poucos, mas, especialmente àqueles que conduzem as encabarcações, os motoristas. Por isso, é sempre melhor, ter alguém que é de lá, e que conhece o “canal” para não ser surpreendidos ao longo da viagem.

Mas, nem todo o trajeto tem praias. Há um trecho já próximo de Iauaretê, que se fosse descrever a paisagem para orientar quem estivesse indo pela primeira vez, diria: “se começar a ver pedrais, é por que você já vai chegar em Iauaretê”.

Na última subida no Waupés, foi até em Taracúa, no final de fevereiro, também para o segundo seminário de educação escolar indígena. Na época, o mapa que tinha em mente sobre Waupés, terminava ali mesmo, informações que tinha sobre além disso era pouco.

Dessa vez, a missão da equipe na qual estava acompanhando era realizar o terceiro seminário de educação em Iauaretê, para reunir informações e ouvir o que as pessoas do alto Waupés e Papurí, como também aquelas que moram nas próximidades do distrito tem a dizer, reclamar, propor para que essa pauta avance, melhore. É aí que entro, para registrar o evento e gravar depoimentos. E ainda, conhecer pessoas, amarrar amizades e parcerias.

Depois de um dia de viagem sem pressa, num domingo (16/03) de muito sol, passamos noite Monte Alegre, que também é conhecido como Matapi. Um por do sol espetacular, com direito à algumas primeiras histórias sobre o local. Com praia de areia fina no porto, um local muito bonito, e bom de se tomar banho. Os botos de lá, são chamados de “aimas”. Vou explicar. Há algum tempo no rio Negro, foi criada a categoria de jovens indígenas pesquisadores conhecidos de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (aimas) pelo Instituto Socioambiental, FOIRN em parcerias com algumas escolas indígenas, com a proposta de estudar e desenvolver pesquisas sobre o uso de recursos naturais usados pelas comunidades, com o objetivo de acompanhar e propor boas práticas de manejo, ou, em outras palavras “cuidar” dos recursos.

O Leôncio, coordenador da COITUA, conta que todas vez que alguém coloca uma malhadeira (rede de pesca), os botos vão lá, acabar com a rede, no sentido, de furar e não “deixar que as pessoas coloquem essa armadilha lá”, por isso, esses botos receberam esse nome pelas pessoas de lá. Outro detalhe curioso, Monte Alegre é igual a qualquer uma comunidade rionegrina, menos por um detalhe: não tem cachorro. Por quê? O Leôncio responde: a comunidade um dia se reuniu para tratar de um assunto que consideraram importante: não ter mais cachorro na comunidade, e foi decidido.

Depois de uma noite fria e silênciosa, com direito ao cantos de pássados noturnos, depois do mingaú, continuamos a viagem. Era uma segunda-feira. Saimos cedo com a intencão de chegar mais cedo em Iauaretê. Passamos foz do Tiquié e logo depois, Taracúa, palco do ultimo encontro realizado. De longe, avistamos uma placa azul que  aparece pela metade “comido” pelo pasto. O primeiro sinal de uma obra do governo abandonada. Um pequeno sinal do que viria, seria visto, depois, da pequena comunidade conhecida de “Ipanoré”. É o projeto “Melhorias para a Estrada de Ipanoré”, com um custo de quase 10,5 milhões. Uma obra que teve início ainda em 2013, e seria entregue no início daquele mês (março). Porém, uma surpresa. A Estrada estava longe de ser concluída. Conto isso, mais na frente.

Mas, antes de encararmos a ladeira, e a altura do caminhão velho, resolvemos mergulhar no tempo. Fomos conhecer a cachoeira de Ipanoré, um dos locais sagrados e comumente citado nas narrativas de origem das etnias da família linguistica Tukano e Maku. No nível que a água estava, não deu para chegar mais próximo do “buraco de origem/imersão”. De acordo, com nosso motorista, tentar ir lá, é arriscar. E, é claro, ninguém queria arriscar. Ficamos de longe, mas, ouvi muita história sobre o local. Umas ligadas à origem da humanidade e outras, histórias relacionadas, a tragédias e mortes.

“Um dos esteios que sustenta a humanidade” 

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Mako.

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Makú.

O Higino, conhecedor Tuyuka, companheiro de viagem, disse, que desde os tempos antigos, muitas pessoas morreram e até de casos mais recentes. Há aproxidamente 500 metros de onde estávamos, de acordo o Higino, fica o grande “buraco”, uma grande “panelona”diz ele, que é único meio de passar e seguir a viagem. Os viajantes precisam esperar o tempo certo para passar, por que se “errar o tempo” já era – diz Higino. E ainda tem a parte mais curiosa, os mais velhos ou os benzedores, até mesmo os que “sairam de lá com vida” relatam que quando entra no buraco, é uma viagem em questão de segundo dentro de um túnel, para sair até nas proximidades de Ipanoré, que fica há mais ou menos 1km de lá na “boca do buraco”. De acordo com essas pessoas, dizem que eles passam dentro de uma “grande maloca” onde se vê muitas redes atadas, para sair de lá vivo é preciso tentar não “encostar” em nada. Mas, de todos que já entraram ou foram “engolidos” pelo buraco, poucos conseguiram sair com vida e contaram essa história. Mas, nada se sabe, como passou a ser a vida deles depois disso.

Outro detalhe curioso, é que acima da dessa grande cachoeira, não se vê mais boto. As narrativas dão a resposta. De acordo com os conhecedores, existem apenas dois “bucaros” umas espécies de túneis. Uma das piranhas e outras de peixes como aracú e outros. Alguém deve pensar, mas, por que ele passa nesses túneis? Até que daria para ele ir ou tentar. Mas, não é por falta de tentativas. É por que, quem fica de vigia na saída, é uma piranha enorme, do tamanho de uma “peneira”. Aí, o segredo. Quando tenta, é espedaçado em segundos. Depois de ouvir essa narrativa, se fosse boto, eu não arriscaria.

Depois, disso, voltar para à encarar Estrada, é como emergir de novo depois de um mergulho que fez você ir ao limite a imaginação. Agora, é encarar a parte mais complicada da viagem: a estrada de Ipanoré.

Uma obra iniciada, mas, não acabada..: “Filma isso e coloca no site!”.

Placa da "Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré" do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

Placa da “Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré” do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

“Aqui se quiser ajuda dos outros, você tem que ajudar” diz motorista do caminhão a alguns jovens que estavam ali sentados, enquanto um senhor estava tentando descer o bote do caminhão velho. Madruga, como é conhecido por todos, é o motorista do caminhão, o único meio de passar o trecho do Waupés Ipanoré-Urubuquara, um trajeto quase intransponível.

Com idade já na casa dos 50, ele carrega canoas (até médias) e voadeiras todos os dias, de Ipanoré à Urubuquara e vice-versa. E ele diz “Não sei aonde encontro tanta disposição assim. Mas, o corpo recla depois, a noite, quando caio na rede, não me mexo mais”. É um dos que reclamam da “incompetência” e do “desvio do recurso público”, palavras que ele usa, para chamar a situação em que se encontra a construção da estrada. Estava tirando fotos da estrada, e ele viu e me falou: “filma isso aqui e bota no site, alguém precisa cutucar alguém, é disperdício de dinheiro público, alguém está passeando com esse dinheiro, enquanto aqui o povo está sofrendo”.

Enfim, depois de aproximadamente 14 minutos, com nossas duas voadeira em cima do caminhão, descemos em Urubuquara. Ao longo da corrida, é possível ver o quanto ainda precisa ser feito para a obra ser concluida, e pior, muitas sacas de cimento estragadas ao longo da estrada. No caminho, um susto. Muitos sentiram a sensação de o “coração sair pela boca”, estourou um pneu do caminhão.

“Daqui até o destino são aproximadamente três horas” diz Ivo, para animar a turma. Mas, precisávamos comer, já tinha passado meio dia até aí. Fomos comprar peixe à uma comunidade chamada Pinu-pinu, que fica atras de uma ilha, atrás de Urubuquara. De lá, a gente tem a sensação de que o chão treme só por ouvir som da cachoeira. Não poderia perder a chance de conhecer aquele local, subi junto com Higino e Ivo. E lá, me perguntaram se aceitava uma “cuiada” de vinha de pupunha. E quem não aceitaria? Queria experimentar. Humm, demais. Muito bom. Mas, tinhamos que descer e continuar a viagem, por que, ainda tinha muito “chão” pra correr.

Deitei depois de algum tempo sentado, e dormí. Uma chuva forte, me fez acordar. Alguns minutos depois, começamos a passar vários pedrais e canoas subindo. Já estávamos chegando. Em meio à chuva, a vistamos de longe a igreja. “É Iauaretê! – disse um menino que estava de carona com a gente desde Ipanoré. Ainda se chegarmos ao porto, fomos “parados” pelo posto do exército, um militar de capuz preto desceu às pressas até a beira e grito: “tem algum estrangeiro aí?!”. Como não tinha, ele “liberou” a gente, para continuar a viagem.

E chegamos. No porto, Esmeraldo da COIDI e mais algumas pessoas estam nos esperando. E, fomos levados à sede da Coordenadoria, que é um antigo hospital dos salesianos, recentemente doado a eles. A tal da “Santa Casa”. Onde vamos ficar nos próximos dias, enquanto estivermos lá.

No dia seguinte, umas oito da manhã, iniciou-se o seminário. O legal desses seminários, é que a forma como é conduzida, os professores, os gestores, os estudantes, pais de alunos, colocam na mesa os problemas, as necessidades que enfrentam em relação a educação escolar. É falta de material escolar, falta de estrutura, contração de professores e etc…E melhor nisso, é, tudo na lingual. No caso, de Iauaretê, lingual Tukano. Por isso, aos que não são de lá, ou que não entendem, ficam “boiando” o evento tudo. Mas, tradutores não falta. Por isso, a única forma de me situar e acompanhar o andamento dos trabalhos, foi arrumar um tradutor.

Ao longo dos intervalos, procurei conhecer e saber mais sobre, a “cidade de indio”, como Iauaretê é também conhecido, devido, ao grande número de pessoas que compartilham aquele espaço. São pelo menos 4 mil pessoas na sede, e 3 mil nas comunidades próximas. Um local que está entre uma grande comunidade à cidade. Iauaretê reúne pessoas de vários lugares e de etnias diversos, o que faz dele, um povoado multiétnico.

Além de ter pequenos comercios, tem pelotão de exército, hospital, correios e entre esses a missão salesiana, mas, o que reúne jovens dos mais diversos lugares é a escola estadual São Miguel. Uma das mais antigas escolas da região do Rio Negro, foi a primeira a ofertar o ensino médio na região. No discurso de apresentação do que foi e o que é hoje, o atual Diretor disse: “a nossa escola foi pensada pelos missionários, mas, ela foi um espaço importante de formação na região, o que permitiu que chegássemos onde estamos hoje, apesar de ela ter objetivos inicialmente de acabar com as nossas culturas. Hoje, estamos mudando essa realidade e esses objetivos”.

Caminhar nas ruas de Iauretê, é “tropeçar”com a própria história local. Do bairro tradicional São Miguel, dos Tarianos ào bairros mais recentes. As ruínas do antigo internato, mostra as marcas deixadas pelo auge da atuação dos salesianos.

“São Gabriel dos meus sonhos es formosa…”.

 

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Bem ali, próximo do porto fica um pequeno comercio, é do Sr. Floriano e da Dona Terezinha Cardoso. O que faz, dos dois, e principalmente a Dona Terezinha, mergulhar todos os dias nas águas pretas do Waupés. Mas, o que ela tem de  especial assim afinal? É mais que isso, há 42 anos atrás, ná época ainda aos 20 anos, na 8a série, no Colégio São Gabriel da Cachoeira, ela participou de um concurso de poesia. E  nesse concurso ela ficou em primeiro lugar. Mas, o que ela não sabia, é que aquela poesia um ano depois, em 1972, se tornaria o hino de São Gabriel. “Não sabia que a minha poesia seria selecionada para ser o hino do município”- lembra.  E eu, como tantos outros meninos e meninas na época da escola (ensino fundamental), aprendi a cantar esse hino. Só nunca imaginei que um dia iria me encontrar  e conversar com a autora desse hino. E ainda mais, contar a história (um pouquinho) pro mundo.  Hoje, aos 62 anos,  divide seu tempo para ajudar o marido no comércio, e de vez em quando, ir para roça, fazer farinha e tapioca. Olha, que ganhei um kilo com a dona Terezinha.

Lá, nos horários de intervalo do evento, conheci professores e alguns jovens que não perde nenhum intervalo sem se conectar ao mundo virtual. É facebook e WhatsApp. E nesses intervalos, também aproveito para “coletar” depoimentos desses jovens e alguns participantes sobre o seminário. As entrevistas com alguns desses jovens foi bastante divertido, muitos “curta aê”, o termo usado para falar “pausa de gravação”.

Fiz um video de 10 mim do seminário para exibir ao final do evento, e foi muito bom, todo mundo gostou. Mas, disse a eles, que o video completo seria concluído em São Gabriel da Cachoeira. Muitos em suas falas, mostraram a importância desses tipos de eventos, pois, muitos deles, estão começando a participar desse movimento, por isso, todos eles afirmaram que “aprenderam muito durante o seminário”. O que mostra que os própositos dos eventos realizados, estão alcançando seus objetivos, que além de promover a discussão, leva também informação e conhecimento aos participantes, e em especial aos que estão começando a fazer parte da discussão e do debate sobre o tema.

Os dias em Iauaretê estavam chegando ao final. Mas, sair de lá sem conhecer de perto as pedras e ouvi as histórias sobre a Cachoeira das Onças não seria bom. Por isso, ficamos mais um dia para fazer isso. Ir até Aduana, um povoado que fica ao lado oposto de Iauaretê, à margem esquerda da foz Papurí. Do lado Colômbiano. E ver de perto os desenhos nas pedras, os petroglifos.

Sábado, 22/03, chega ao final, a temporada em Iauaretê. É hora de descer para São Gabriel da Cachoeira, encarar na volta a estrada de Ipanoré, e depois de lá é abrir meu livro de viagem: “Não posso me apaixonar” e cair na “estrada”, que são apenas mais seis horas de viagem. Cada viagem, sempre é uma aventura, de  muitas aprendizagens e descobertas.

 

Três dias em Taracúa

Em homenagem ao Luis Carlos, que faleceu na volta, depois do Seminário de EEI realizado em Taracúa.

Em homenagem ao Luis Carlos, que faleceu na volta, depois do Seminário de EEI realizado em Taracúa.

Na ida animado e na chegada triste. Era mais um evento voltado para discutir e compartilhar conhecimentos, sabres e práticas sobre a educação escolar indígena. Depois, de dar o pontapé inicial em Itapereira, uma comunidade que fica no médio Rio Negro, duas horas descendo do Porto de Camanaus, de São Gabriel da Cachoeira, era a vez, do pessoal, da região Baixo, Médio e Rio Tiquié fazer o mesmo: Discutir os problemas e elaborar propostas para o Seminário Regional previsto para o mês de maio.

A última viagem que fiz pra lá (Taracúa), foi em dezembro de 2007. De lá pra cá, muita coisa aconteceu, na época, a minha ida pra Taracúa, tinha como objetivo participar de um Curso de formação continuada para professores indígena para o ensino médio. Novo e inexperiente, e único representante da Escola Baniwa e Coripaco Pamáali, na época, buscando caminhos e dando passos iniciais da luta de implantação de ensino médio. Portanto, era conhecer as experiências das escolas estaduais que já estavam funcionando há alguns anos. Em duas semanas, conhecí experiências, histórias de pessoas, e como amarrei amizades. Que se tornaram meus contatos para continuar acompanhando o movimento de lá depois do evento.

Dessa vez, final de fevereiro desde ano, minha missão no evento foi registrar, conhecer as histórias, as experiências em fotos e vídeos. E lá acabei novamente relatando um pouco da experiência que obtive na escola Baniwa, desde os tempos de estudante, até ao de Coordenador, o posto que tive o privilégio de assumir, antes de iniciar uma nova etapa de experiências. E enfim…

Durante os três dias em Taracúa, foi rico em vários sentidos. A volta pra rever os amigos, aprender e contar um pouco da história de luta e conquistas do meu povo em relação ao tema educação escolar indígena. Mas, o que fez, dessa viagem inesquecível, não foi uma coisa boa, ou que não eu não esperava. A perda de um grande amigo e companheiro de luta, que conhecí, exatamente, em 2007, quando participei do evento em Taracúa: Luis Carlos.

Era um domingo, 02/03, depois do almoço, debaixo de uma forte chuva, já umas três da tarde, quando dois botes saíram do porto de Taracúa, num deles (da SEMEC-SGC), ele no meio. Uma viagem que o levou e que seria a última, e sem volta. Dia antes, fomos subir na pedra atrás da antiga casa de hospedagem da Missão Salesiana, admirando a vista linda e trocando as máquinas fotográficas. Eu tirando fotos dele, e ele (uma que vai nesse post) tirando as minhas. Ficamos ali conversando, quando aparece o irmão dele, Tarcísio, para fazer companhia…Na conversa, voltamos no túnel do tempo…”o nosso irmão (Gersen) estou aqui”, ele lembrou, “aqui é o único lugar um presidente já pisou”- comentou Tarcísio. E logo, o sino do jantar nos interrompeu e voltamos.

Na segunda de tarde, quando eu e mais companheiros chagamos no Porto da Queiróz, em São Gabriel da Cachoeira, recebemos a notícia: “O Luis Carlos, desapareceu, num acidente aí acima na volta, até agora, ainda não encontraram o corpo dele”- disse Abraão Mendes, que foi eleito (Tesoureiro), junto com ele, ainda em 2013. O Luis, era o Presidente (da Associação dos Professores Indígenas do Alto Rio Negro – APIARN).

Foi um choque enorme, ninguém estava esperando por isso. Todos, ficaram abalados por essa perda. Muitos, entre eles, eu, são testemunhas, da dedicação e do compromisso que Luis tinha e demonstrou desde na época de professor, e mais recentemente, como representante e liderança indígena.

Os três dias em Taracúa (28/02 a 02/03), ficaram na lembrança e na saudade. Que o meu grande amigo e líderança indígena do rio Negro, descance em Paz.

Rio Negro fervendo de formação nos primeiros meses do ano

II Turma  Baniwa do Curso Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da -UFAM, em Assunção do Içana. Foto: Dario Casimiro

II Turma Baniwa do Curso Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da -UFAM, em Assunção do Içana. Foto: Dario Casimiro

Começou no inicio dessa semana, o Curso Licenciatura Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal do Amazonas – em São Gabriel da Cachoeira. Coordenada e realizada pela UFAM em parceria com a FOIRN, o curso formou a primeira turma no final de outubro de 2013. E nesse ano, começa a segunda turma do curso, que são mais de 100 alunos, divididos em três pólos Baniwa, Tukano e Nheengatú, com localidades, de acordo com o território línguístico. Polo Tukano em Taracúa – Médio Waupes, Baniwa em Assunção do Içana – Médio Içana e Nheengatú em Cucuí – Alto Rio Negro. A primeira etapa do curso vai até na segunda quinzena de fevereiro, segundo informações divulgadas pela coordenação geral do curso.

Enquanto isso, o Magistério Indígena III – Curso de Formação para Professores Indígenas de nível médio está acontecendo na Ilha de Camanaus, próximo de São Gabriel da Cachoeira, que reúne cerca de 100 professores indígenas, distribuídos em cinco pólos: Baniwa, Tukano, Hupdah, Yanomani e Nheengaú. O curso deu início no dia 20 de janeiro e vai até no inicio do mês de março, no período em que começa as aulas da rede município. Segundo, o Juscelino Pereira, seleção dos candidatos para a terceira turma do Curso, teve como prioridade atender e garantir formação aos professores que já atuam na sala de aula, mas, que apenas tem formação acadêmica (nível médio). Dessa vez, o curso é realizada pela SEMEC em parceria com a SEDUC, que tem a empresa empresa Memvavmem como executura do projeto.

E utros Cursos de Graduação para formação de professores através do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica – PARFOR acontece no município, que atende o maior número de professores indígenas da região. E a turma da Licenciatura Intercultural do IFAM – Campus São Gabriel também está em formação nesse mesmo período. É o Rio Negro fervendo de formação nesses primeiros meses do ano.

 

Mulheres Indígenas do Rio Negro se reuniram em SGC para discutir temas de interesse e elaborar propostas e planos de ação para próximos anos.

ImagemNa semana passada, entre os dias 03 a 05, acompanhei de perto o evento que reuniu mais de 50 mulheres indígenas, vindas de varias regiões do Rio Negro. Uma verdadeira aula de historia de movimento indígena pra mim, que antes, pouco conhecia o quanto era o envolvimento e participação delas, desde que o movimento indígena do rio negro foi formado.

Declarações de ex-diretores, como de Domingos Barreto, me fez lembrar e trazer aos “olhos” a fala da “Joaquina” (como aparece no vídeo), de como elas foram e são parte importante do movimento. Mas, nem sempre tiveram o devido espaço, como elas conquistaram desde que o Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn foi criado em 2002.

Apesar dos altos e baixos desde que foi criado, o DMIRN consolidou o espaço delas no movimento, que pode ser mencionado como um dos resultados dentre os varias conquistas. Em 26 anos, apenas duas mulheres passaram na diretoria. A Rosilene Fonseca e a  a Almerinda Ramos que tem mais 3 anos de gestão pela frente.

Enfim…durante os três dias de evento, pude perceber o quanto ainda são grandes os desafios a serem superadas em termos de fortalecimentos de suas instituições, e como organização de suas iniciativas, relacionadas a praticas de produção.  E como representantes delas, as coordenadoras do Departamento foram cobrados frequentemente na reunião. Duas senhoras questionaram as atuais (da gestão 2010-2013), o por que elas não atenderam as demais regiões, se fizeram isso em outras.

Esse atendimento se resume em visitas e realizações de oficinas de formação e outros. E por ai vai…O que faz necessário uma explicação por parte das coordenadoras, do porque a ausência em todas as regiões. Primeiro por que a atuação do DMIRN abrange três municípios (Sao Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos), por isso, ha muitas demandas, e para agravar a situacao, os recursos são escassos, e o departamento não tem uma estrutura e equipamento para realizar viagens independentes. Segundo as coordenadoras, só chegam nas bases pegando “carona” com os coordenadores regionais, que nem sempre realizam viagens com frequência.

Outra critica. A Loja de produtos do Rio Negro, a Wariro, sempre foi vista por elas, como um espaço distante do que gostariam que fosse. Todas elas são produtoras de determinados produtos, usando cerâmica, tucum e fibras de piaçava. “A gente chega la, as vezes a gerente pede para passar outro dia, e quando vamos no dia seguinte, fala a mesma coisa..Isso nos desanima” – afirmou uma das participantes, ao se referir as gerentes anteriores da atual. “Agora esta melhorando, estou gostando” – conclui a produtora, falando dos avanços em relação a responsável atual.

O que elas querem?. Durante o evento, as participantes foram organizadas em grupos por associações para colocar no papel e apresentar as demandas. Formação e informação, troca de experiencias com outras mulheres de regiões diferentes foram os desejos mais repetidos nas exposições. Oficinas, encontros e feiras são formatos que apontaram para realização desses objetivos. Por isso, que Santa Isabel e Barcelos os aguardem! Elas vão la…O mais interessante, a preocupação em repasse e transmissão de conhecimentos esta sendo foco dessas oficinas e encontros.

Em 2014, a Casa do Saber da Foirn (maloca), sera um centro de formação de mulheres em produção de artefatos de cerâmica e produtos de tucum. Foram programas essas oficinas aqui em São Gabriel da Cachoeira. Ja esta anotado e agendado. Elas vao se organizar e deixar todo material a ser usado, pronto, e trazer para cidade, quando chegar a data. E a grana para reunir tantas mulheres e vários lugares diferentes? ” A Funai tem que nos apoiar” – disse dona Jacinta, presidente de uma das associações presentes no evento. Sobre recursos financeiros, elas com certeza irão atras, disso, não tenho duvidas.

Depois de toda discussão, no final do evento, chegou o momento mais esperado. E eleição da nova coordenação para o departamento de mulheres. Com o compromisso de trazer uma candidata, cada associação veio com 5 delegadas para votar. Mas, algumas associações chegaram com poucas delegadas, e apenas 4 apresentaram suas indicadas para concorrer. As quatro tiveram seu tempo para se apresentar e falar de suas propostas para a gestão. Isso, aconteceu no final do segundo dia.

No terceiro dia, apos, a palestra de dois enfermeiros do DSEI-ARN, sobre a Saúde da Mulher (Importância do Pre-natal, Câncer de Mama e Câncer de Colo de Útero), começou a votação. Foram mais de 30 votos no total. Resultado. Professora Rosilda Cordeiro da etnia Tukano, do Distrito de Taracuá como Coordenadora e Francineia Fontes, Baniwa, da comunidade de Assunção do Içana.

Depois disso, houve um momento que comoveu todos os presentes. Leituras de cartas de agradecimento das atuais coordenadoras do departamento, Rosane Cruz e Anair Sampaio, eleitas em 2010. Onde, elas, expressam suas aprendizagens, lutas e conquistas. ” Deixo o departamento, mas, continuarei sendo liderança indígena, o que me tornei” – finalizou a Cruz, que coordenou do DMIRN por três anos.

E nós, homens, estivemos la também para apoiar em momentos necessários. ” Falar de lutas e do movimento das Mulheres, e referir nos a luta do Movimento Indígena do Rio Negro”- disse, o Barreto, atual coordenador do CRRN-Funai.

Oficinas de Acordos ortográficos das línguas co-oficializadas do Município de SGC.

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A busca por uma “escrita” mais próxima da forma como se fala as línguas indígenas do Rio Negro não é recente. Línguistas, pesquisadores tem sido as pessoas que chegam, pesquisam e propõem essas propostas, é claro, geralmente com pessoas falantes dessas línguas indígenas. Resultado disso. Já existem muito materiais didáticos e para-didáticos produzidos em algumas línguas, as mais conhecidas e divulgadas são: Baniwa, Tukano e Yêgatú.

Mas, o movimento mais recente, há pelo menos desde o início desta década, os próprios indígenas, através de organizações comunitárias e, em especial de professores, vem criando e buscando, eles próprios a discutir como “pode pode ser” usado, ou aproveitado o que “ja existe” (propostas de grafias). Já que essas linguas (três) são co-oficializadas no município. Mas, até agora no só papel, sem implementação.

Uma das poucas implentações conhecidas, ou práticas até hoje, é o processo seletivo da para o Curso de Licenciatura Indígena da UFAM (Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável), em que os inscritos, realizam a prova nas línguas indígenas.

Nesse ano, sobretudo, a partir de segundo semestre, lideranças, indígenas, professores e estudantes voltaram se reunir para retomar as discussões que algum tempo havia sido “deixadas de lado”. Em agosto, o COPIARN (Conselho dos Professores Indígenas do Rio Negro), reuniu falantes dessas línguas na Casa dos Saberes da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira, para iniciar a retomada dessa atividade. O evento de dois dias, foi suficiente para apresentar o que já tem de material didático produzidos nas línguas, e aos mais jovens, que estão começando a participar do movimento, conhecer a história de como começou o movimento (co-oficialização das línguas indígenas).

A oficina de agosto, resultou uma série de propostas para os próximos anos, voltados para essa temática, entre elas, as discussões em torno de um “acordo ortográfico” das línguas co-oficializadas. Na primeira semana de novembro, o Conselho de Professores, reuniu os “falantes” da língua Yêgatú, em Boa Vista, comunidade que fica na foz do Içana, a três horas de viagem de São Gabriel (para transportes rápidos).

E nesse final de semana (22 a 23/11), foi a vez dos Tukano se reunir na Casa dos Saberes da FOIRN, em São Gabriel para também iniciar uma discussão em torno desse mesmo tema. ” Sempre terá brigas quando o assunto é buscar um acordo, ainda mais, quando se trata de uma grafia de uma língua. Todo mundo acha que como se escreve é a maneira “certa” de se escrever. Por isso, temos que conversar, discutir e buscar consenso” – disse professor Gilvan Muller, mediador da discussão durante a oficina.

Maximiliano Correia completa: ” Estamos buscando uma forma de “escrever” de uma única maneira, o que não significa que vamos pronúniciar a frase da mesma forma. Pois, sabemos que cada trecho do rio, falamos diferente um do outro, apesar de ser a mesma língua”.

E como fica a diversidade línguistíca do Rio Negro, se apenas 3 línguas são (ainda) co-oficializadas? Essa pergunta foi feita no encontro de agosto, e, é uma questão em aberto. O que indica que o tema está voltando a ser o foco das atenções no rio Negro. E que deve ser mesmo. Fiquei sabendo que foi também realizado uma oficina no rio Xié, sobre a grafia da língua Werekena, nesse segundo semestre do ano.

Os Baniwa, já estão projetando também um encontro para próximo ano, no Içana, com essa mesma proposta. Afinal, uma língua escrita, falada é como dizem sempre “é a alma de uma cultura”. E a co-oficialização de uma língua indígena é a âncora de uma transformação social, emprestando as palavras do professor Gilvan.

 

Voltando aos poucos a blogar.

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Depois de tirar uma “folga” das minhas redes, estou aos poucos voltando. E no final dessa semana (25/08), participei do Encontro de Jovens Indígenas Baré, Werekena e Baniwa na comunidade de Boa Vista/Foz do Içana. O encontro foi realizado pelo Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN.

Representando o Setor de Comunicação (FOIRN), falei sobre a presença de novas tecnologias nas comunidades indígenas, e na influencia destes na vida dos jovens. Falei também da importância das redes sociais como ferramenta de comunicação e do exercício de cidadania.

Para ler a matéria que escreví sobre o encontro, acesse: http://foirn.wordpress.com/2013/08/28/mobilizacao-reuniu-jovens-indigenas-baniwa-bare-e-werekena-em-boa-vista-foz-do-icana-nos-dias-24-a-25-de-agosto/

 

 

Escola Pamáali se prepara para a semana de eventos e formatura.

Faltam apenas algumas semanas para chegar a semana de formatura, os preparativos para o evento já começaram. Foto: G. Pereira.

Com pouco menos de três semanas para o inicio da sequência de eventos que será fechado com a grande festa de formatura da V turma da escola no dia 15/12, a escola Pamáali desde a semana passada começou a se organizar e fazer os retoques necessários. Reformas do palco dos eventos, a quadra-praça Pamáali já está praticamente concluída.

Os ensaios de danças tradicionais contará com a presença de alguns sábios e colaboradores com a escola. O que vem sendo feito desde 2004, quando foi realizada a primeira festa de formatura.

Será a primeira vez que a EIBC-Pamáali, localizado próximo a comunidade de Tucumã Rupitá, irá sediar três importantes eventos.  Serão realizados em sequência a partir do dia 12/12 a  Assembleia Geral da Organização Indígena da Bacia do Içana – OIBI, Assembleia Geral da Associação do Conselho da Escola Pamáali- ACEP nos dias 13 e 14/12 e para fechar a semana, nada melhor que a V formatura da EIBC no dia 15/16.

A partir da semana que vem serão iniciados postes especiais sobre esses eventos, onde serão contado um pouco da trajetória de alguns jovens que estão chegando à primeira conquista e para alguns, mais uma. São 24 alunos de ensino fundamental e 10 de ensino médio.

São esperadas mais de 300 pessoas para esses eventos. As duas grandes assembleias terá como uma das pautas a eleição de nova diretoria. Atualmente (desde 2009) a diretoria da oibi é: Mario Farias – Presidente, Wilson Júlio – Vice-Presidente, Armindo Brazão – Tesoureiro e Paulo Farias – Secretário. Em 2011, na Assembleia de Comemoração de 10 anos, pelo afastamento do presidente eleito em 2009, houve a eleição da nova diretoria da ACEP, portanto, os diretores atuais são: Juvêncio da Silva Cardoso – Presidente (professor da EIBC), Alfredo Feliciano Brazão – tesoureiro (professor da EIBC) e  Raimundo Benjamim (eu)- secretário (professor da EIBC).

Enquanto a data não chega, alunos e professores estão fazendo as tarefas e obrigações. Monografias, ensaios (danças e cantos) e atividades de campo passaram a ser as atividades diárias da escola desde a semana passada.

Na Formatura serão apresentadas danças tradicionais, e a cerimônia de Kalidzamai. Na imagem mestre Samuel da Silva (em memória), na formatura de 2007. Foto: Acervo EIBC.