Sesc lança livro sobre a cultura do povo Baré, do Alto Rio Negro

No próximo dia 31 de março, o Sesc lança em São Paulo, Baré: o povo do rio que traz depoimentos de dois líderes da etnia baré, do Alto Rio Negro, somados a textos de diversos pesquisadores e etnólogos. O evento inclui exibição de documentário homônimo. A organização é de Marina Herrero e Ulysses Fernandes

Foto: reprodução

As Edições Sesc São Paulo lançam o livro Baré: povo do rio, com fotos e textos de dez autores, na Choperia do Sesc Pompeia, no próximo dia 31 de março (terça-feira), às 19h. O evento inclui a exibição de documentário homônimo produzido pelo Sesc TV, além de bate-papo entre os líderes baré Braz França e Marivelton Barroso e o antropólogo e etnólogo Eduardo Viveiros de Castro. Ao final haverá uma sessão de autógrafos com os principais autores do livro.

A história do povo baré, que originalmente ocupava um território de mais de 165 mil km2, foi marcada pela violência e pela exploração do trabalho extrativista. Gradativamente, o grupo viu sua língua vernacular (ariak) ser substituída pelo nheengatú, utilizado, na época da colonização do Brasil, pelos jesuítas para uniformizar a comunicação entre eles e as tribos da região do Rio Negro, e também pela língua portuguesa.

Aos poucos as crenças, costumes e tradições dos baré foram igualmente adaptados ao modelo português. Hoje, o povo que até 1990 era considerado extinto no Brasil, tornou-se a décima população indígena do país e vive próximo aos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, região com uma forte desestruturação social e que sofre com a recente invasão de garimpeiros.

Com o objetivo de registrar e divulgar a cultura do povo baré, o projeto das Edições Sesc São Paulo se propõe a discutir sua identidade, suas memórias, histórias, costumes e experiências, bem como apresentar análises com viés acadêmico, pesquisas arqueológicas e depoimentos sobre suas lutas e conquistas.

O prefácio assinado pelo antropólogo e etnólogo americanista Eduardo Viveiros de Castro aborda a principal problemática identitária vivida pelos baré até muito recentemente, envolvendo o seu não reconhecimento como índios e tampouco como brancos: “eles não são mais índios sem serem por isso não índios, isto é, brancos. Não são nada. São o que mais convém ao outro dizer o que eles são. (…) Como sobreviver a tal metódico etnocídio, melhor, como ressurgir a partir dele, como refazer um povo? Como recuperar a memória e reinventar um lugar no interior do estranho, do estreito e instável intervalo entre “índios” e “não índios” que ora se abre, ora se fecha para os povos nativos do continente? Os baré são uma das respostas em ato, hoje, a essas perguntas”.

Clique aqui e leia a matéria na íntegra.

Fonte:  Instituto Socioambiental (ISA).

Dois dias em São Pedro, respirando e revivendo os momentos históricos da luta do movimento indígena do Rio Negro

Eu e Braz em viagem de subida de São Pedro para São Gabriel da Cachoeira, março de 2014.

Eu e Braz em viagem de subida de São Pedro para São Gabriel da Cachoeira, março de 2014.

A primeira vez que vi o Braz, foi através de um vídeo institucional da FOIRN em 2005. Na época estava fazendo uma pesquisa sobre as organizações indígenas do Rio Içana e que me levou a conhecer também a história da fundação da FOIRN, e entender um pouco que motivos e situações fez algumas lideranças indígenas começar a luta pela demarcação das terras.

A cada reunião que participo, onde ele é convidado para falar da história do movimento indígena, fico ainda mais admirado e comovido pela coragem que essas lideranças tiveram, e lutaram por nós, que somos da geração de hoje.

Na reunião de 2 dias (4 a 6 de março) em São Pedro, baixo Rio Negro, não foi diferente. Falou dos momentos iniciais e como foi criada a ACIBRN – Associação das Comunidades Indígenas do Rio Negro.

A iniciativa das organizações indígenas do Rio Negro em valorizar as lideranças antigas é muito importante no processo de transmissão de conhecimentos e experiências para os jovens que estarão na frente dessas instituições no futuro, ou alguns já estão assumindo essa responsabilidade.

Já cheguei a pensar em escrever o que já consegui conhecer da história do Rio Negro a partir dos relatos do Braz, quem sabe mais na frente.

Em Barcelos nos dias 14 a 16 de maio.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

O Seminário que aconteceu em Barcelos reuniu 50 representantes de 12 comunidades indígenas do município, incluindo professores, pais, alunos e lideranças Baré, Baniwa, Tukano, Caxinawá, Tuyuka, Macuxi, Ticuna e Arapasso, além de integrantes da Coordenadoria das Associações Indígenas do baixo Rio Negro (CAIMBRN), Associação Indígena de Barcelos (Asiba) e Setor de Educação Escolar Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Barcelos.

Leia mais sobre o evento aqui

Três dias em Taracúa

Em homenagem ao Luis Carlos, que faleceu na volta, depois do Seminário de EEI realizado em Taracúa.

Em homenagem ao Luis Carlos, que faleceu na volta, depois do Seminário de EEI realizado em Taracúa.

Na ida animado e na chegada triste. Era mais um evento voltado para discutir e compartilhar conhecimentos, sabres e práticas sobre a educação escolar indígena. Depois, de dar o pontapé inicial em Itapereira, uma comunidade que fica no médio Rio Negro, duas horas descendo do Porto de Camanaus, de São Gabriel da Cachoeira, era a vez, do pessoal, da região Baixo, Médio e Rio Tiquié fazer o mesmo: Discutir os problemas e elaborar propostas para o Seminário Regional previsto para o mês de maio.

A última viagem que fiz pra lá (Taracúa), foi em dezembro de 2007. De lá pra cá, muita coisa aconteceu, na época, a minha ida pra Taracúa, tinha como objetivo participar de um Curso de formação continuada para professores indígena para o ensino médio. Novo e inexperiente, e único representante da Escola Baniwa e Coripaco Pamáali, na época, buscando caminhos e dando passos iniciais da luta de implantação de ensino médio. Portanto, era conhecer as experiências das escolas estaduais que já estavam funcionando há alguns anos. Em duas semanas, conhecí experiências, histórias de pessoas, e como amarrei amizades. Que se tornaram meus contatos para continuar acompanhando o movimento de lá depois do evento.

Dessa vez, final de fevereiro desde ano, minha missão no evento foi registrar, conhecer as histórias, as experiências em fotos e vídeos. E lá acabei novamente relatando um pouco da experiência que obtive na escola Baniwa, desde os tempos de estudante, até ao de Coordenador, o posto que tive o privilégio de assumir, antes de iniciar uma nova etapa de experiências. E enfim…

Durante os três dias em Taracúa, foi rico em vários sentidos. A volta pra rever os amigos, aprender e contar um pouco da história de luta e conquistas do meu povo em relação ao tema educação escolar indígena. Mas, o que fez, dessa viagem inesquecível, não foi uma coisa boa, ou que não eu não esperava. A perda de um grande amigo e companheiro de luta, que conhecí, exatamente, em 2007, quando participei do evento em Taracúa: Luis Carlos.

Era um domingo, 02/03, depois do almoço, debaixo de uma forte chuva, já umas três da tarde, quando dois botes saíram do porto de Taracúa, num deles (da SEMEC-SGC), ele no meio. Uma viagem que o levou e que seria a última, e sem volta. Dia antes, fomos subir na pedra atrás da antiga casa de hospedagem da Missão Salesiana, admirando a vista linda e trocando as máquinas fotográficas. Eu tirando fotos dele, e ele (uma que vai nesse post) tirando as minhas. Ficamos ali conversando, quando aparece o irmão dele, Tarcísio, para fazer companhia…Na conversa, voltamos no túnel do tempo…”o nosso irmão (Gersen) estou aqui”, ele lembrou, “aqui é o único lugar um presidente já pisou”- comentou Tarcísio. E logo, o sino do jantar nos interrompeu e voltamos.

Na segunda de tarde, quando eu e mais companheiros chagamos no Porto da Queiróz, em São Gabriel da Cachoeira, recebemos a notícia: “O Luis Carlos, desapareceu, num acidente aí acima na volta, até agora, ainda não encontraram o corpo dele”- disse Abraão Mendes, que foi eleito (Tesoureiro), junto com ele, ainda em 2013. O Luis, era o Presidente (da Associação dos Professores Indígenas do Alto Rio Negro – APIARN).

Foi um choque enorme, ninguém estava esperando por isso. Todos, ficaram abalados por essa perda. Muitos, entre eles, eu, são testemunhas, da dedicação e do compromisso que Luis tinha e demonstrou desde na época de professor, e mais recentemente, como representante e liderança indígena.

Os três dias em Taracúa (28/02 a 02/03), ficaram na lembrança e na saudade. Que o meu grande amigo e líderança indígena do rio Negro, descance em Paz.

Retrô 2013: Viagem pro Baixo Rio Negro

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Em setembro, acompanhei o representante do Departamento de Educação (Foirn) e o Prof. Orlando Melgueiro Baré, Coordenador da CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), com a missão de registrar as oficinas e colaborar com um pouco do que conseguí acumular de experiências nos últimos 10 anos, começando como aluno, depois como professor e finalmente no ano passado como Coordenador da Escola Baniwa e Coripaco.

Paramos em quatro comunidades. Cada lugar situação diferente. Dificuldades, problemas e desafios. Todos com um objetivo como como sonho: Educação Escolar própria. Algumas com a escola na comunidade já funcionando, outras apenas ainda como um sonho. E nós, em alguns momentos buscando formas de ajudar na compreensão e direcionamento. Tirando dúvidas, contando experiências, com o objetivo dar a eles um pouco de conhecimento, para eles, próprio construir o que eles querem.

Em questão de idade, de formação e de experiência sou o menor na viagem. E para completar, é a primeira vez que viajo de voadeira, parando em algumas comunidades nessa região. Portanto, um desafio. Nas primeira duas comunidades (Castanheirinho e Livramento II), ainda usei meu “baniwa”para me comunicar com as pessoas. Na terceira e na quarta comunidade, somente português, já que meu Yêgatú serve apenas para entender e o algumas vezes adivinhar o que meus parentes Baré falam.

Cada comunidade um sabor, uma receita e lá está a quinhapira acompanhado sempre de vinho de açai. E histórias sobre lugares, como o por quê da Comunidade Cartucho ter aquele nome, também aprendi na viagem e durante as reuniões, que duravam apenas no máximo dois dias. Pouco para construir ou pelo menos para ajudar no entendimento do que é um Projeto Político Pedagógico Indígena? Muito pouco. Mas, estávamos ali, para dar continuidade de um trabalho já iniciado. O caminho já estava aberto há algum tempo. Mas, em alguns casos, tivemos que voltar atrás, para começar de novo.

Certas pessoas algumas vezes, mesmo longe de casa, te faz sentir como se estivesse lá. Logo na primeira comunidade, o “administrador”em uma viagem a Santa Isabel, na volta, viu uma placa na foz de um igarapé e anotou e trouxe para comunidade o recado deixado. Ele, explica e pergunta aos demais qual o sentido da mensagem (vou tentar recuperar a mensagem). O admirei pelo conhecimento que carrega, estão tão bem atualizado, como qualquer um que está conectado à internet todos os dias. Na outra, achamos o Chiquinho, como é mais conhecido o Francisco Suares, com idade já na casa dos 50, que só pelo jeito de falar e de se movimentar, já faz as pessoas ao redor rir.

Ah..deixo voltar um pouco para a missão. Na fala dos professores, das lideranças comunitárias e dos próprios alunos, dá a entender o quanto querem que a escola seja mais próximo, que respeito e que de alguma forma sirva de instrumento para recuperar aspectos culturais perdidos, ao longo do tempo do contato. Só para se ter idéia, não se escuta mais eles usarem a língua Baré nas comunidades visitadas. Os próprios jovens em seus depoimentos, falam que não sabem mais fazer algum tipo de artesanato. E a escola é um espaço certo ou ideal para a revitalização e transmissão desses saberes?

Na última comunidade visitada, a coordenação da oficina, aproveitou a passagem do Higino Tenório (Tuyuka), para ele também contar a história e da experiência da escola que ele ajudou a montar com um único e objetivo claro: “Fazer o povo Tuyuka voltar a falar a lingua Tuyuka”. Se quisermos valorizar, recuperar nossa cultura, temos que ser “radicais”disse ele. “Época que criamos a escola Tuyuka, apenas idosos falavam a nossa língua. Decidimos então que nínguem falasse mais Tukano em aldeia Tuyuka. Resultado disso, depois de algumas semanas, as crianças começaram a falar a nossa língua”- lembra Higino. E mais, “Se rezarmos “Ave Maria”todos os dias com nossas crianças e jovens, é claro que em menos de uma semana todos eles vão saber rezar”- completa.

Em uma das conversas que tive com o professor Orlando, ele me fez a pergunta: “O que te faz dizer que uma viagem para fora de sua região (no caso Içana) ser boa ou até marcante?

Matsiakaro phatsamitha weemaka wadzakalenairiko

ImagemLirikoda mhitshaka lhieka idzeenaliwa (05-07/12), nawakeetakawa nhaa kaakonadalipe ayaha Hiipanako, kaakokaro nhaa nanako nhaa kanakaiperi pamatsiataka ideenhikhettika oo nhaatsakha nhaa kanakaiperittoa padeenhika, wattaitakaro mitha watsa weemaka matsiaphatsa wadzakalenairiko.Hoore yakotti, iwapineetakhetti, nheette ideenhikhetti kanakaiperi padeenhika, metsa karoka mherapittinakatsa ni.

Waanheenina oophittetsa lhie naamaka nawadzakeetaka whaa oo maatshika naako nheette nadeenhika wakhoette nhaa wanheri yalanawinai. Metsa, neenikatsakhaa nhaa yomakape oo ikitsindataka whaa, Nhaa wakitsienatsa nakhoette nhaa wheponda, ideenhiri phiome nhetakaro waadza wahipaite weemali neeni. Ikatsa pada yakotti khedzakoli kanakai wakaitepeka walhiowaaka pandza whaa wakoenai, imas, pawalipe, nhaatsa nhaa wakitsienatsa, pakoaka nawapineetaka naapidza nhaa yalanawinai oo nawadaka matsiakalika lhia nhemali nheette nakapali tsakha. Katsa pada matshidalikatsa yakottika pandza.

Irawadatti (dzanakaa), katsa padakatsakha imatshikakada weemaka pandza ayaha weemakaliko. Padatsa kaakoli nhaa inako lirikoda neeniri mendzamitsa. Hore kanhetsa pida nadeeka irawadatti wadzakalenairiko nhaa padapenaa wakitsienapetsa, koamekatsa nhaa yalanawinai (Colombianonai). Okayalirikolhe pida horekanheetsa nadeeka lhiapepe. Pandza pida Dzawhipani, karotha pida nakadaa navenderi neeni, metsa peemhette pida neenika ni. Kadzodali ima pida, manopena nainoakakawa oo maliomekanhaa kadzodali ikhette.

Daa..hore mikanheetsa kanakaiperi pamatsiataka weemakawaliko. Oopina naroita wapidzawa nhaa kanakaiperi Iniali irhio, pandza kanakai watsa waaka naphontte, ima wawapakadaatsa watsa, kadzo oopidzotsa, karowatsa koaka wadeenhiri. Phada pianhe tsiali.

Mulheres Indígenas do Rio Negro se reuniram em SGC para discutir temas de interesse e elaborar propostas e planos de ação para próximos anos.

ImagemNa semana passada, entre os dias 03 a 05, acompanhei de perto o evento que reuniu mais de 50 mulheres indígenas, vindas de varias regiões do Rio Negro. Uma verdadeira aula de historia de movimento indígena pra mim, que antes, pouco conhecia o quanto era o envolvimento e participação delas, desde que o movimento indígena do rio negro foi formado.

Declarações de ex-diretores, como de Domingos Barreto, me fez lembrar e trazer aos “olhos” a fala da “Joaquina” (como aparece no vídeo), de como elas foram e são parte importante do movimento. Mas, nem sempre tiveram o devido espaço, como elas conquistaram desde que o Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn foi criado em 2002.

Apesar dos altos e baixos desde que foi criado, o DMIRN consolidou o espaço delas no movimento, que pode ser mencionado como um dos resultados dentre os varias conquistas. Em 26 anos, apenas duas mulheres passaram na diretoria. A Rosilene Fonseca e a  a Almerinda Ramos que tem mais 3 anos de gestão pela frente.

Enfim…durante os três dias de evento, pude perceber o quanto ainda são grandes os desafios a serem superadas em termos de fortalecimentos de suas instituições, e como organização de suas iniciativas, relacionadas a praticas de produção.  E como representantes delas, as coordenadoras do Departamento foram cobrados frequentemente na reunião. Duas senhoras questionaram as atuais (da gestão 2010-2013), o por que elas não atenderam as demais regiões, se fizeram isso em outras.

Esse atendimento se resume em visitas e realizações de oficinas de formação e outros. E por ai vai…O que faz necessário uma explicação por parte das coordenadoras, do porque a ausência em todas as regiões. Primeiro por que a atuação do DMIRN abrange três municípios (Sao Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos), por isso, ha muitas demandas, e para agravar a situacao, os recursos são escassos, e o departamento não tem uma estrutura e equipamento para realizar viagens independentes. Segundo as coordenadoras, só chegam nas bases pegando “carona” com os coordenadores regionais, que nem sempre realizam viagens com frequência.

Outra critica. A Loja de produtos do Rio Negro, a Wariro, sempre foi vista por elas, como um espaço distante do que gostariam que fosse. Todas elas são produtoras de determinados produtos, usando cerâmica, tucum e fibras de piaçava. “A gente chega la, as vezes a gerente pede para passar outro dia, e quando vamos no dia seguinte, fala a mesma coisa..Isso nos desanima” – afirmou uma das participantes, ao se referir as gerentes anteriores da atual. “Agora esta melhorando, estou gostando” – conclui a produtora, falando dos avanços em relação a responsável atual.

O que elas querem?. Durante o evento, as participantes foram organizadas em grupos por associações para colocar no papel e apresentar as demandas. Formação e informação, troca de experiencias com outras mulheres de regiões diferentes foram os desejos mais repetidos nas exposições. Oficinas, encontros e feiras são formatos que apontaram para realização desses objetivos. Por isso, que Santa Isabel e Barcelos os aguardem! Elas vão la…O mais interessante, a preocupação em repasse e transmissão de conhecimentos esta sendo foco dessas oficinas e encontros.

Em 2014, a Casa do Saber da Foirn (maloca), sera um centro de formação de mulheres em produção de artefatos de cerâmica e produtos de tucum. Foram programas essas oficinas aqui em São Gabriel da Cachoeira. Ja esta anotado e agendado. Elas vao se organizar e deixar todo material a ser usado, pronto, e trazer para cidade, quando chegar a data. E a grana para reunir tantas mulheres e vários lugares diferentes? ” A Funai tem que nos apoiar” – disse dona Jacinta, presidente de uma das associações presentes no evento. Sobre recursos financeiros, elas com certeza irão atras, disso, não tenho duvidas.

Depois de toda discussão, no final do evento, chegou o momento mais esperado. E eleição da nova coordenação para o departamento de mulheres. Com o compromisso de trazer uma candidata, cada associação veio com 5 delegadas para votar. Mas, algumas associações chegaram com poucas delegadas, e apenas 4 apresentaram suas indicadas para concorrer. As quatro tiveram seu tempo para se apresentar e falar de suas propostas para a gestão. Isso, aconteceu no final do segundo dia.

No terceiro dia, apos, a palestra de dois enfermeiros do DSEI-ARN, sobre a Saúde da Mulher (Importância do Pre-natal, Câncer de Mama e Câncer de Colo de Útero), começou a votação. Foram mais de 30 votos no total. Resultado. Professora Rosilda Cordeiro da etnia Tukano, do Distrito de Taracuá como Coordenadora e Francineia Fontes, Baniwa, da comunidade de Assunção do Içana.

Depois disso, houve um momento que comoveu todos os presentes. Leituras de cartas de agradecimento das atuais coordenadoras do departamento, Rosane Cruz e Anair Sampaio, eleitas em 2010. Onde, elas, expressam suas aprendizagens, lutas e conquistas. ” Deixo o departamento, mas, continuarei sendo liderança indígena, o que me tornei” – finalizou a Cruz, que coordenou do DMIRN por três anos.

E nós, homens, estivemos la também para apoiar em momentos necessários. ” Falar de lutas e do movimento das Mulheres, e referir nos a luta do Movimento Indígena do Rio Negro”- disse, o Barreto, atual coordenador do CRRN-Funai.

Oficinas de Acordos ortográficos das línguas co-oficializadas do Município de SGC.

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A busca por uma “escrita” mais próxima da forma como se fala as línguas indígenas do Rio Negro não é recente. Línguistas, pesquisadores tem sido as pessoas que chegam, pesquisam e propõem essas propostas, é claro, geralmente com pessoas falantes dessas línguas indígenas. Resultado disso. Já existem muito materiais didáticos e para-didáticos produzidos em algumas línguas, as mais conhecidas e divulgadas são: Baniwa, Tukano e Yêgatú.

Mas, o movimento mais recente, há pelo menos desde o início desta década, os próprios indígenas, através de organizações comunitárias e, em especial de professores, vem criando e buscando, eles próprios a discutir como “pode pode ser” usado, ou aproveitado o que “ja existe” (propostas de grafias). Já que essas linguas (três) são co-oficializadas no município. Mas, até agora no só papel, sem implementação.

Uma das poucas implentações conhecidas, ou práticas até hoje, é o processo seletivo da para o Curso de Licenciatura Indígena da UFAM (Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável), em que os inscritos, realizam a prova nas línguas indígenas.

Nesse ano, sobretudo, a partir de segundo semestre, lideranças, indígenas, professores e estudantes voltaram se reunir para retomar as discussões que algum tempo havia sido “deixadas de lado”. Em agosto, o COPIARN (Conselho dos Professores Indígenas do Rio Negro), reuniu falantes dessas línguas na Casa dos Saberes da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira, para iniciar a retomada dessa atividade. O evento de dois dias, foi suficiente para apresentar o que já tem de material didático produzidos nas línguas, e aos mais jovens, que estão começando a participar do movimento, conhecer a história de como começou o movimento (co-oficialização das línguas indígenas).

A oficina de agosto, resultou uma série de propostas para os próximos anos, voltados para essa temática, entre elas, as discussões em torno de um “acordo ortográfico” das línguas co-oficializadas. Na primeira semana de novembro, o Conselho de Professores, reuniu os “falantes” da língua Yêgatú, em Boa Vista, comunidade que fica na foz do Içana, a três horas de viagem de São Gabriel (para transportes rápidos).

E nesse final de semana (22 a 23/11), foi a vez dos Tukano se reunir na Casa dos Saberes da FOIRN, em São Gabriel para também iniciar uma discussão em torno desse mesmo tema. ” Sempre terá brigas quando o assunto é buscar um acordo, ainda mais, quando se trata de uma grafia de uma língua. Todo mundo acha que como se escreve é a maneira “certa” de se escrever. Por isso, temos que conversar, discutir e buscar consenso” – disse professor Gilvan Muller, mediador da discussão durante a oficina.

Maximiliano Correia completa: ” Estamos buscando uma forma de “escrever” de uma única maneira, o que não significa que vamos pronúniciar a frase da mesma forma. Pois, sabemos que cada trecho do rio, falamos diferente um do outro, apesar de ser a mesma língua”.

E como fica a diversidade línguistíca do Rio Negro, se apenas 3 línguas são (ainda) co-oficializadas? Essa pergunta foi feita no encontro de agosto, e, é uma questão em aberto. O que indica que o tema está voltando a ser o foco das atenções no rio Negro. E que deve ser mesmo. Fiquei sabendo que foi também realizado uma oficina no rio Xié, sobre a grafia da língua Werekena, nesse segundo semestre do ano.

Os Baniwa, já estão projetando também um encontro para próximo ano, no Içana, com essa mesma proposta. Afinal, uma língua escrita, falada é como dizem sempre “é a alma de uma cultura”. E a co-oficialização de uma língua indígena é a âncora de uma transformação social, emprestando as palavras do professor Gilvan.

 

Movimento Indígena do Rio Negro: Agora é elas!

As mulheres indígenas do Rio Negro conseguiram um fato inédito na história do movimento. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro- FOIRN terá primeira mulher presidente em 25 anos. Quem conta como a participação delas vem crescendo nos últimos anos é a  Rosane Cruz – Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro – DMIRN , que coordena e acompanha de perto o movimento delas no Rio Negro.

Rosane Cruz- Coordenadora do DMIRN (foto: Arquivo pessoal)

Sorridente, corajosa e guerreira. Uma das poucas que conhecem de perto a realidade das mulheres  que vivem no chamado “cabeça de cachorro”. Quando o assunto é Mulheres Indígenas ou assunto relacionado a isso, é com ela mesma!  Essa é a Rosane Cruz ou Oholipako da etnia Piratapuya, de apenas 22 anos. A atual Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do  Rio Negro , espaço conquistado por elas dentro da FOIRN.

Nasceu e cresceu em Iauaretê no Rio Waupés, um dos principais afluentes do Rio Negro. Antes de assumir o DMIRN, fez o Curso de Gestores  de Projetos e de lá pra cá, muita coisa aconteceu. Entrou para o movimento indígena do Rio Negro e não parou mais. Depois do dia 19 de maio de 2010, quando foi eleita, a rotina da Rosane, passou a ser reuniões e viagens.

Criado em 2002, o DMIRN  entre outros objetivos, assume o compromisso de assegurar e viabilizar a defesa e o exercício dos direitos das mulheres indígenas na área de atuação da FOIRN e  representar politicamente organizações de mulheres indígenas do Rio Negro dos 23 povos da região em eventos deliberativos locais e nacionais

Estão presentes desde o inicio.

Elas estão presentes na luta desde o inicio. A participação delas foi decisiva para a criação da FOIRN em 19 87 (Clique aqui para assistir o vídeo de fundação da FOIRN).

Nesses últimos 25 anos, elas se organizaram por meio de associações,  com focos voltadas principalmente para a produção e comercialização de produtos feitos por elas. Algumas se desenvolveram mais e outras menos. E a presença e a participação delas no movimento por meio dessas associações vem crescendo nos últimos anos.

Em diretorias executivas, apenas nas gestões de 2001 á 2004 teve a Rosline Fonseca – Piratapuya como diretora. Mas, nunca chegaram ao posto mais alto, à presidência ( o que aconteceu na última assembleia e será contado mais abaixo).

O papel delas no movimento indígena do Rio Negro.

 

Coordenadoras do DMIRN visitam e conversam com as mulheres indígenas. Foto: Acervo DMIRN

Atualmente, somam-se 14 associações de mulheres filiadas à FOIRN. Cada uma nas respectivas áreas de abrangência e dificuldades diferentes.

 Segundo a Rosane, a apesar das dificuldades que enfrentam, o movimento delas vem crescendo nos últimos anos. “As associações de mulheres na região estão crescendo aos poucos, mas, ainda enfrentam muitas dificuldades, como a elaboração de propostas de projetos, a formação técnica em linguagem exigida pelos editais de financiamento e como a própria documentação da associação”-disse.

A mulher assume um papel importante na maioria das histórias e mitos que contam o surgimento dos povos. Para os povos Baniwa e Coripaco, a mulher é responsável por muitos aspectos importantes e decisivos na história de origem e durante o processo de organização da vida social do povo, representadas pela Amarottadoa.

No movimento indígena do Rio Negro, acontece o mesmo. Muitas conquistas e realizações da FOIRN nessas primeiras duas décadas, contaram com a participação direta e indireta delas.

E vão conquistando seus espaços aos poucos. Depois que foi criada o DMIRN em 2002, passaram a participar ativamente das atividades e ações da federação. Mas, somente a partir da XVI Assembleia Geral da FOIRN realizado em Barcelos no inicio de 2011, com a aprovação do novo estatuto, passaram a ter direito de estarem (obrigatoriamente) participando  da eleição e concorrer vaga na diretoria da federação (cada Coordenadoria regional tem direito de indicar/escolher por meio de votação três candidatos, e entre esses, uma vaga é de uma candidata mulher).

Lá vão elas. E sonham alto. Hoje, elas veem a necessidade de criarem uma organização de representação em nível da FOIRN. E não pensam em deixar isso mais pra frente. Já vão discutir a pauta na próxima Assembleia Eletiva do DMIRN, prevista para o mês de maio de 2013, com data ainda não definida. “Além de eleger a nova coordenação do DMIRN, uma das fortes discussões que queremos iniciar nesse evento será sobre a criação de uma organização de mulheres a nível do Alto Rio Negro. E um dos objetivos da assembleia será o fortalecimento da política do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro para garantir a participação ativa das associações de mulheres no movimento do Rio Negro”- explica a coordenadora do DMIRN.

Os desafios

A Rosane Cruz tem um grande peso de responsabilidade no fortalecimento do movimento das Mulheres do Rio Negro, através da reorganização das associações criadas por elas (foto: Arquivo pessoal).

Muito precisa ser feito, ainda. Mas, tem alguém disposto a fazer tudo pela causa. Na entrevista, ao ser perguntado quais desafios o movimento das mulheres tem pela frente. Ela dá uma pausa longa, como se precisasse respirar fundo, antes de dar a resposta. E volta a escrever: “Espero conseguir alcançar mais objetivos, para com isso Unir numa só corrente a luta das Mulheres”.

A Rosane, desde que começou a assumir o DMIRN, vem buscando formas de cumprir os objetivos do departamento através de diálogo com as mulheres que representam as associações e com aquelas que estão nas comunidades nas viagens que fez nesses últimos dois anos. Enfrenta dificuldades, principalmente por falta de recursos financeiros que é importante para realizar as viagens para as bases. Ainda mais por ser uma região muito grande. As vezes recebe convite, mas, não tem condições para chegar lá.

E ela não está sozinha. Quando a Rosane viaja fora do município para participar de eventos nacionais, tem a Anair Sampaio, da etnia Tukano, vice-coordenadora do DMIRN,  que também faz viagens e conversa com as mulheres nas comunidades. Nesses últimos anos ela  visitou e conheceu associações de mulheres das coordenadorias CABC, COITUA e CAIMBRN.

E o que é necessário fazer para fortalecer o movimento delas? “Hoje é necessária uma ação de reorganização e fortalecimento das associações de mulheres das bases, pois várias delas estão praticamente paradas, fazer articulação para poder fortalecer a força política das Mulheres Indígenas do Rio negro”- lembra.

Qual recado você deixa a elas? “Deixar claro a todas mulheres indígenas do Rio Negro que é não tão difícil conquistar um espaço dentro da Foirn. Por isso, elas precisam que ser participativas e conhecedoras dos principais problemas da nossa região. A conquista  na última assembleia, vai incentivar muitas mulheres. Quem sabe daqui quatro anos possamos coloca mais 2 mulheres dentro da Diretoria”.

Agora é a vez delas..

Elas comemoram a vitória na XVII Assembleia Geral da FOIRN, Almerinda Ramos a primeira mulher presidente da federação em 25 anos de história. Foto: Beto Ricardo/ISA

O que se pode esperar da gestão da federação com uma mulher na presidência? Na opinião da coordenadora do DMIRN, a facilidade de diálogo e a possibilidade de incluir (com mais facilidade) o planejamento do departamento junto com o planejamento da FOIRN pode ser esperado. “Com mulher na presidência, pode facilitar o diálogo entre a diretoria e o departamento nos planejamentos e na realização de nossas ações, como departamento. O que vai ajudar muito no fortalecimento do nosso movimento. Quanto sobre recursos financeiros, é nossa responsabilidade correr atrás”- afirma Oholipako.

Dia 8 de novembro de 2012, entrou para a história do movimento indígena do Rio Negro. O dia em que foi eleita uma mulher para presidir uma das maiores e mais respeitadas organizações indígenas do país, a FOIRN. Nome dela: Almerinda Ramos de Lima, 40, da etnia Tariana. Que deixou os homens, com brilhos nos olhos de surpresa e apenas na condição de expectadores na lotada maloca da FOIRN.

Muitos desafios vem pela frente para serem enfrentadas. E lá vão elas. As nossas lideranças e guerreiras! Com coragem e garra. Até onde vão chegar e quantos conquistas elas tem pela frente, não sabemos. Só o tempo vai dizer. E nós homens, precisamos fazer nossa parte. Valorizar, reconhecer, aplaudir e somar forças com elas.

Leia também: Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro visita comunidades do Rio Xié para propor a criação de Associação das Mulheres Indígenas do Xié.