Outra vez: Santa Isabel do Rio Negro

Pôr do sol no Rio Negro (Baixo Rio Negro).

Pôr do sol no Rio Negro (Baixo Rio Negro).

Após a etapa local da Conferência Nacional de Política Indigenista, realizado em Juruti – Alto Rio Negro, no início do mês de maio (ver post abaixo), dessa vez o evento aconteceu em Santa Isabel do Rio Negro, um dos três municípios do Rio Negro (São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos – nessa ordem, descendo o rio Negro).

Mais uma vez, o evento aconteceu durante três dias, mais de 200 pessoas marcaram presença, estes, vindos das mais diferentes comunidades, representantes de organizações Indígenas.

O principal tema de discussão foi sobre os Direitos Indígenas conquistados na C.F 1988, violados e ameaçados pelos interesses econômicos. Uma oportunidade para as lideranças mostrarem sua indignação a respeito disso, e melhor, elaborar propostas para os governos municipal, estadual e federal sobre, como querem que passem a ser tratados de agora em diante.

Enfim….muitas propostas foram levantadas e encaminhadas, especialmente o pedido da demarcação urgente das Terras Indígenas em processo, localizadas na região do Baixo Rio Negro. Para saber mais como foi leia a notícia da conferência no blog da FOIRN. 

A viagem de volta, como na descida foi de voadeira. Uma oportunidade de ver e rever lugares, e pessoas conhecidas em algumas comunidades onde tivemos a oportunidade de fazer uma parada (em Cartucho – para assar peixe e almoçar).

Muito bom viajar pelo Rio Negro. Cada viagem uma alegria, uma emoção, uma aventura.

Subindo o Rio Negro, de Santa Isabel para São Gabriel da Cachoeira

Subindo o Rio Negro, de Santa Isabel para São Gabriel da CachoeiraPess

A Pimenta Baniwa é mais que uma pimenta

Mulheres Baniwa na cerimônia de Inauguração da Casa da Pimenta Yamado (Titsiadoa), 23 de abril. Foto: Ray Benjamim

Mulheres Baniwa na cerimônia de Inauguração da Casa da Pimenta Yamado (Titsiadoa), 23 de abril. Foto: Ray Benjamim

Provavelmente, o Iñapirikoli – Deus criador (para os Baniwa) já sabia que os Walimanai (novas gerações/gerações de hoje), algum dia no futuro iriam usar a pimenta não apenas para purificar a comida, ou como alimento que protege o corpo e a alma de espíritos que causam doenças. Desde que foi iniciado o projeto, a Pimenta Baniwa vem sendo um símbolo de luta pelos direitos, reafirmação de identidade do Povo Baniwa, não apenas estes, mas, de todos os povos indígenas do Rio Negro. A Pimenta Baniwa carrega uma história de luta e resistência vem sendo uma “mensagem positiva” dos povos indígenas para o Brasil e para o mundo, de acordo com o André Fernando ou André Baniwa, como é mais conhecido o presidente da OIBI (Organização Indígena da Bacia do Içana).

O Projeto Pimenta Baniwa vem buscando valorizar a diversidade e a territorialidade tradicional dos clãs Baniwa na região do Içana. “A primeira casa inaugurada, está funcionando em Tunuí Cachoeira (Baixo-Médio Içana) no território dos Dzawinai, a segunda, foi inaugurada na comunidade Ucuki Cachoeira, Alto Aiarí no território dos Hohodene, e a terceira na Escola Pamáali no território dos Waliperidakenai, e esta quarta casa vai funcionar aqui em Yamado para os Baniwa que mora na cidade ou próximo a ela”-lembrou Adeilson Lopes, ecólogo do Instituto Socioambiental, que assessora o projeto, e trabalha com os Baniwa do Içana há alguns anos.

André Baniwa, lembrou da importância das parcerias, os apoiadores, os consumidores da Pimenta, especialmente as instituições que apoiam e participam da gestão compartilhada do projeto como a FOIRN, a CABC, o ISA, o ATA entre outros que vão se construindo e consolidando com o tempo, que de acordo o André são importantes para a divulgação do projeto, da luta e da história (e cultura) que esse produto carrega.

Chefes de Cozinha com mulheres Baniwa na inauguração da Casa da Pimenta Yamado. Foto: Ray Benjamim

Chefes de Cozinha com mulheres Baniwa na inauguração da Casa da Pimenta Yamado. Foto: Ray Benjamim

Os Chefs de Cozinha Alex Atala (Restaurante D.O.M de São Paulo), Felipe Schaedler (Restaurante Banzeiro de Manaus) e Bela Gil participaram das duas cerimônia de inauguração.

Em meios as tantas ameaças aos direitos constitucionais dos indígenas no Brasil hoje, a Pimenta Baniwa chega para contribuir com essa luta.

Que a Pimenta Baniwa não apenas nos projeta de espíritos que causam a doença, como também nos proteja dessas ameaças aos nossos direitos.

Saiba mais sobre a Pimenta Baniwa, onde encontrar e receitas aqui.

Sesc lança livro sobre a cultura do povo Baré, do Alto Rio Negro

No próximo dia 31 de março, o Sesc lança em São Paulo, Baré: o povo do rio que traz depoimentos de dois líderes da etnia baré, do Alto Rio Negro, somados a textos de diversos pesquisadores e etnólogos. O evento inclui exibição de documentário homônimo. A organização é de Marina Herrero e Ulysses Fernandes

Foto: reprodução

As Edições Sesc São Paulo lançam o livro Baré: povo do rio, com fotos e textos de dez autores, na Choperia do Sesc Pompeia, no próximo dia 31 de março (terça-feira), às 19h. O evento inclui a exibição de documentário homônimo produzido pelo Sesc TV, além de bate-papo entre os líderes baré Braz França e Marivelton Barroso e o antropólogo e etnólogo Eduardo Viveiros de Castro. Ao final haverá uma sessão de autógrafos com os principais autores do livro.

A história do povo baré, que originalmente ocupava um território de mais de 165 mil km2, foi marcada pela violência e pela exploração do trabalho extrativista. Gradativamente, o grupo viu sua língua vernacular (ariak) ser substituída pelo nheengatú, utilizado, na época da colonização do Brasil, pelos jesuítas para uniformizar a comunicação entre eles e as tribos da região do Rio Negro, e também pela língua portuguesa.

Aos poucos as crenças, costumes e tradições dos baré foram igualmente adaptados ao modelo português. Hoje, o povo que até 1990 era considerado extinto no Brasil, tornou-se a décima população indígena do país e vive próximo aos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, região com uma forte desestruturação social e que sofre com a recente invasão de garimpeiros.

Com o objetivo de registrar e divulgar a cultura do povo baré, o projeto das Edições Sesc São Paulo se propõe a discutir sua identidade, suas memórias, histórias, costumes e experiências, bem como apresentar análises com viés acadêmico, pesquisas arqueológicas e depoimentos sobre suas lutas e conquistas.

O prefácio assinado pelo antropólogo e etnólogo americanista Eduardo Viveiros de Castro aborda a principal problemática identitária vivida pelos baré até muito recentemente, envolvendo o seu não reconhecimento como índios e tampouco como brancos: “eles não são mais índios sem serem por isso não índios, isto é, brancos. Não são nada. São o que mais convém ao outro dizer o que eles são. (…) Como sobreviver a tal metódico etnocídio, melhor, como ressurgir a partir dele, como refazer um povo? Como recuperar a memória e reinventar um lugar no interior do estranho, do estreito e instável intervalo entre “índios” e “não índios” que ora se abre, ora se fecha para os povos nativos do continente? Os baré são uma das respostas em ato, hoje, a essas perguntas”.

Clique aqui e leia a matéria na íntegra.

Fonte:  Instituto Socioambiental (ISA).

Projeto Mawako: Encontro de sons para a formação de novas lideranças e valorização cultural

Mobilizando pessoas para contribuir no processo de fortalecimento das comunidades Baniwa, valorização cultural e formação de novas lideranças através da música. “Uma gota de ação neste mar verde”.

Equipe do Projeto Mawako em Assunção do Içana. Foto: Inês

Equipe do Projeto Mawako em Assunção do Içana. Foto: Inês

A idéia de criar um projeto que ajudasse a valorização da cultura pelos jovens indígenas e a formação destes para continuar a luta pela defesa dos direitos, da terra e continuar mantendo viva seu modo de vida, mas, ao mesmo tempo aprendendo novas coisas para fugir das drogas e etc…, nasceu  no curso de Fé e Política (CEFEP (5a turma), do ano de 2014-2015 promovido pela CNBB e PUC­Rio.

Trinho Paiva, professor Baniwa e vereador de São Gabriel da Cachoeira, compartilhou as dificuldades enfrentadas na região do Rio Negro, sobretudo, na região do Içana. Falou também ao grupo do curso, quais principais anseios dos jovens baniwa, e a preocupação dos mais velhos em relação a transmissão de conhecimentos a estes. E como resultado dessa reflexão, chegou-se a uma conclusão, fazer alguma ação que incentive os jovens a valorizar as musicas tradicionais através de instrumentos musicais dos “brancos”. Assim foi criado o Projeto Mawako. (Mawako é um instrumento musical usando comumente pelos povos indígenas do Rio Negro).

Desde então, foi criado um sítio do projeto na internet com objetivo de divulgar o objetivo do projeto e como uma forma de encontrar colaboradores e apoiadores através de doações de instrumentos ou de recursos financeiros.

Entre 14 a 18 de março, aconteceu a primeira viagem à região do Içana. A equipe composta pelo Isaias Fontes (Diretor da FOIRN, parceira do projeto), Trinho Paiva (Coordenador do Projeto), Inês, Luiz Catapan, Irmã Inê e Honeide. E eu acompanhei a equipe para fazer registro.

A primeira etapa do projeto contemplou as comunidades Assunção do Içana e Ucuki Cachoeira, alto Aiarí. A próxima etapa será contemplar outras comunidades da região.

Nas comunidade visitadas (contempladas) a equipe (estudantes do curso), falou da reforma política, um dos temas abordados pelo curso. Após a palestra sobre o tema, os comunitários também falaram da situação em que vivem, de acordo eles, os programas de governo não chegam e clamam para que o poder público municipal faça alguma….”Os políticos só aparecem aqui na época da campanha política para pedir voto, depois da eleição não aparecem mais….prometem e prometem e nunca cumprem”-falou Dário da comunidade Ucuki Cachoeira.

“Não podemos perder a esperança. Vocês precisam lutar pelos seus direitos…por isso que estamos aqui com o projeto Mawako para trazer incentivo aos jovens, pois são eles o presente e o futuro”-falou Luiz Catapan.

Isaias e os demais membros da equipe de viagem, ressaltaram a importância da valorização da cultura, e que o projeto Mawako tem essa proposta, e que o o objetivo maior vai além da música, que o projeto contribua no desenvolvimento social das comunidades e do povo Baniwa.

“Com estes instrumentos os jovens irão animar a comunidade através de grupo de musicas, animar as assembleias das associações e momentos que for necessários. Quem sabe no futuro iremos realizar festivais de musicas na região. A própria comunidade vai fazer a gestão desses equipamentos”-disse Trinho.

Na noite em que chegamos em Ucuki o Trinho passou vídeos de mensagens do bispo Don Edosn, Antonio Manoel de Barros comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva e do Secretário Municipal de educação de São Gabriel da cachoeira. Estes em suas mensagens declaram apoio a iniciativa e ressaltaram de ações como o projeto Mawako para incentivar os jovens a valorização de suas culturas e o fortalecimento das lideranças e comunidades.

Pessoalmente, foi a segunda vez que fui até Ucuki Cachoeira, depois de quase um ano, mais uma vez tive o privilégio conhecer mais o modo de vida ainda “viva”, como disse o capitão da comunidade Abel Fontes. “Aqui não falamos do resgate da cultura. Estamos vivendo a nossa cultura”-disse ele. Não é em todo lugar que se ouve palavras como a do capitão de Ucuki.

Que o projeto Mawako seja um instrumento que incentive os jovens a continuarem aprendendo com os mais velhos, para que no futuro próximo eles façam o mesmo com os filhos. E que o projeto Mawako se amplie e chegue em várias comunidades no Içana e como também em outros cantos deste imenso rio Negro. Para isso, convido você leitor conhecer o projeto e colaborar. Sua colaboração fará grande diferença e dará bons frutos no futuro.

Moradores da comunidade Ucuki Cachoeira, com flautas tradicionais e instrumentos musicais dos "brancos" em frente a maloca. Foto: Arquivo pessoal

Moradores da comunidade Ucuki Cachoeira, com flautas tradicionais e instrumentos musicais dos “brancos” em frente a maloca. Foto: Arquivo pessoal

Conheça mais o projeto visitando o site do projeto: http://www.projetomawako.teiadecomunidades.com.br/

Dois dias em São Pedro, respirando e revivendo os momentos históricos da luta do movimento indígena do Rio Negro

Eu e Braz em viagem de subida de São Pedro para São Gabriel da Cachoeira, março de 2014.

Eu e Braz em viagem de subida de São Pedro para São Gabriel da Cachoeira, março de 2014.

A primeira vez que vi o Braz, foi através de um vídeo institucional da FOIRN em 2005. Na época estava fazendo uma pesquisa sobre as organizações indígenas do Rio Içana e que me levou a conhecer também a história da fundação da FOIRN, e entender um pouco que motivos e situações fez algumas lideranças indígenas começar a luta pela demarcação das terras.

A cada reunião que participo, onde ele é convidado para falar da história do movimento indígena, fico ainda mais admirado e comovido pela coragem que essas lideranças tiveram, e lutaram por nós, que somos da geração de hoje.

Na reunião de 2 dias (4 a 6 de março) em São Pedro, baixo Rio Negro, não foi diferente. Falou dos momentos iniciais e como foi criada a ACIBRN – Associação das Comunidades Indígenas do Rio Negro.

A iniciativa das organizações indígenas do Rio Negro em valorizar as lideranças antigas é muito importante no processo de transmissão de conhecimentos e experiências para os jovens que estarão na frente dessas instituições no futuro, ou alguns já estão assumindo essa responsabilidade.

Já cheguei a pensar em escrever o que já consegui conhecer da história do Rio Negro a partir dos relatos do Braz, quem sabe mais na frente.

Em Barcelos nos dias 14 a 16 de maio.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

O Seminário que aconteceu em Barcelos reuniu 50 representantes de 12 comunidades indígenas do município, incluindo professores, pais, alunos e lideranças Baré, Baniwa, Tukano, Caxinawá, Tuyuka, Macuxi, Ticuna e Arapasso, além de integrantes da Coordenadoria das Associações Indígenas do baixo Rio Negro (CAIMBRN), Associação Indígena de Barcelos (Asiba) e Setor de Educação Escolar Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Barcelos.

Leia mais sobre o evento aqui

Em Iauaretê, uma temporada no Rio Waupés

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Em Iauaretê, durante o Seminário de Educação Escolar Indígena, entre os dias 17 a 19 de março.

Uma viagem tranquila e longa. As curvas e praias brancas às margens são os detalhes da paisagem, que além de lindas, as vezes significam perigo ou pedem atenção aos que descem e sobem o rio, que não são poucos, mas, especialmente àqueles que conduzem as encabarcações, os motoristas. Por isso, é sempre melhor, ter alguém que é de lá, e que conhece o “canal” para não ser surpreendidos ao longo da viagem.

Mas, nem todo o trajeto tem praias. Há um trecho já próximo de Iauaretê, que se fosse descrever a paisagem para orientar quem estivesse indo pela primeira vez, diria: “se começar a ver pedrais, é por que você já vai chegar em Iauaretê”.

Na última subida no Waupés, foi até em Taracúa, no final de fevereiro, também para o segundo seminário de educação escolar indígena. Na época, o mapa que tinha em mente sobre Waupés, terminava ali mesmo, informações que tinha sobre além disso era pouco.

Dessa vez, a missão da equipe na qual estava acompanhando era realizar o terceiro seminário de educação em Iauaretê, para reunir informações e ouvir o que as pessoas do alto Waupés e Papurí, como também aquelas que moram nas próximidades do distrito tem a dizer, reclamar, propor para que essa pauta avance, melhore. É aí que entro, para registrar o evento e gravar depoimentos. E ainda, conhecer pessoas, amarrar amizades e parcerias.

Depois de um dia de viagem sem pressa, num domingo (16/03) de muito sol, passamos noite Monte Alegre, que também é conhecido como Matapi. Um por do sol espetacular, com direito à algumas primeiras histórias sobre o local. Com praia de areia fina no porto, um local muito bonito, e bom de se tomar banho. Os botos de lá, são chamados de “aimas”. Vou explicar. Há algum tempo no rio Negro, foi criada a categoria de jovens indígenas pesquisadores conhecidos de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (aimas) pelo Instituto Socioambiental, FOIRN em parcerias com algumas escolas indígenas, com a proposta de estudar e desenvolver pesquisas sobre o uso de recursos naturais usados pelas comunidades, com o objetivo de acompanhar e propor boas práticas de manejo, ou, em outras palavras “cuidar” dos recursos.

O Leôncio, coordenador da COITUA, conta que todas vez que alguém coloca uma malhadeira (rede de pesca), os botos vão lá, acabar com a rede, no sentido, de furar e não “deixar que as pessoas coloquem essa armadilha lá”, por isso, esses botos receberam esse nome pelas pessoas de lá. Outro detalhe curioso, Monte Alegre é igual a qualquer uma comunidade rionegrina, menos por um detalhe: não tem cachorro. Por quê? O Leôncio responde: a comunidade um dia se reuniu para tratar de um assunto que consideraram importante: não ter mais cachorro na comunidade, e foi decidido.

Depois de uma noite fria e silênciosa, com direito ao cantos de pássados noturnos, depois do mingaú, continuamos a viagem. Era uma segunda-feira. Saimos cedo com a intencão de chegar mais cedo em Iauaretê. Passamos foz do Tiquié e logo depois, Taracúa, palco do ultimo encontro realizado. De longe, avistamos uma placa azul que  aparece pela metade “comido” pelo pasto. O primeiro sinal de uma obra do governo abandonada. Um pequeno sinal do que viria, seria visto, depois, da pequena comunidade conhecida de “Ipanoré”. É o projeto “Melhorias para a Estrada de Ipanoré”, com um custo de quase 10,5 milhões. Uma obra que teve início ainda em 2013, e seria entregue no início daquele mês (março). Porém, uma surpresa. A Estrada estava longe de ser concluída. Conto isso, mais na frente.

Mas, antes de encararmos a ladeira, e a altura do caminhão velho, resolvemos mergulhar no tempo. Fomos conhecer a cachoeira de Ipanoré, um dos locais sagrados e comumente citado nas narrativas de origem das etnias da família linguistica Tukano e Maku. No nível que a água estava, não deu para chegar mais próximo do “buraco de origem/imersão”. De acordo, com nosso motorista, tentar ir lá, é arriscar. E, é claro, ninguém queria arriscar. Ficamos de longe, mas, ouvi muita história sobre o local. Umas ligadas à origem da humanidade e outras, histórias relacionadas, a tragédias e mortes.

“Um dos esteios que sustenta a humanidade” 

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Mako.

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Makú.

O Higino, conhecedor Tuyuka, companheiro de viagem, disse, que desde os tempos antigos, muitas pessoas morreram e até de casos mais recentes. Há aproxidamente 500 metros de onde estávamos, de acordo o Higino, fica o grande “buraco”, uma grande “panelona”diz ele, que é único meio de passar e seguir a viagem. Os viajantes precisam esperar o tempo certo para passar, por que se “errar o tempo” já era – diz Higino. E ainda tem a parte mais curiosa, os mais velhos ou os benzedores, até mesmo os que “sairam de lá com vida” relatam que quando entra no buraco, é uma viagem em questão de segundo dentro de um túnel, para sair até nas proximidades de Ipanoré, que fica há mais ou menos 1km de lá na “boca do buraco”. De acordo com essas pessoas, dizem que eles passam dentro de uma “grande maloca” onde se vê muitas redes atadas, para sair de lá vivo é preciso tentar não “encostar” em nada. Mas, de todos que já entraram ou foram “engolidos” pelo buraco, poucos conseguiram sair com vida e contaram essa história. Mas, nada se sabe, como passou a ser a vida deles depois disso.

Outro detalhe curioso, é que acima da dessa grande cachoeira, não se vê mais boto. As narrativas dão a resposta. De acordo com os conhecedores, existem apenas dois “bucaros” umas espécies de túneis. Uma das piranhas e outras de peixes como aracú e outros. Alguém deve pensar, mas, por que ele passa nesses túneis? Até que daria para ele ir ou tentar. Mas, não é por falta de tentativas. É por que, quem fica de vigia na saída, é uma piranha enorme, do tamanho de uma “peneira”. Aí, o segredo. Quando tenta, é espedaçado em segundos. Depois de ouvir essa narrativa, se fosse boto, eu não arriscaria.

Depois, disso, voltar para à encarar Estrada, é como emergir de novo depois de um mergulho que fez você ir ao limite a imaginação. Agora, é encarar a parte mais complicada da viagem: a estrada de Ipanoré.

Uma obra iniciada, mas, não acabada..: “Filma isso e coloca no site!”.

Placa da "Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré" do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

Placa da “Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré” do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

“Aqui se quiser ajuda dos outros, você tem que ajudar” diz motorista do caminhão a alguns jovens que estavam ali sentados, enquanto um senhor estava tentando descer o bote do caminhão velho. Madruga, como é conhecido por todos, é o motorista do caminhão, o único meio de passar o trecho do Waupés Ipanoré-Urubuquara, um trajeto quase intransponível.

Com idade já na casa dos 50, ele carrega canoas (até médias) e voadeiras todos os dias, de Ipanoré à Urubuquara e vice-versa. E ele diz “Não sei aonde encontro tanta disposição assim. Mas, o corpo recla depois, a noite, quando caio na rede, não me mexo mais”. É um dos que reclamam da “incompetência” e do “desvio do recurso público”, palavras que ele usa, para chamar a situação em que se encontra a construção da estrada. Estava tirando fotos da estrada, e ele viu e me falou: “filma isso aqui e bota no site, alguém precisa cutucar alguém, é disperdício de dinheiro público, alguém está passeando com esse dinheiro, enquanto aqui o povo está sofrendo”.

Enfim, depois de aproximadamente 14 minutos, com nossas duas voadeira em cima do caminhão, descemos em Urubuquara. Ao longo da corrida, é possível ver o quanto ainda precisa ser feito para a obra ser concluida, e pior, muitas sacas de cimento estragadas ao longo da estrada. No caminho, um susto. Muitos sentiram a sensação de o “coração sair pela boca”, estourou um pneu do caminhão.

“Daqui até o destino são aproximadamente três horas” diz Ivo, para animar a turma. Mas, precisávamos comer, já tinha passado meio dia até aí. Fomos comprar peixe à uma comunidade chamada Pinu-pinu, que fica atras de uma ilha, atrás de Urubuquara. De lá, a gente tem a sensação de que o chão treme só por ouvir som da cachoeira. Não poderia perder a chance de conhecer aquele local, subi junto com Higino e Ivo. E lá, me perguntaram se aceitava uma “cuiada” de vinha de pupunha. E quem não aceitaria? Queria experimentar. Humm, demais. Muito bom. Mas, tinhamos que descer e continuar a viagem, por que, ainda tinha muito “chão” pra correr.

Deitei depois de algum tempo sentado, e dormí. Uma chuva forte, me fez acordar. Alguns minutos depois, começamos a passar vários pedrais e canoas subindo. Já estávamos chegando. Em meio à chuva, a vistamos de longe a igreja. “É Iauaretê! – disse um menino que estava de carona com a gente desde Ipanoré. Ainda se chegarmos ao porto, fomos “parados” pelo posto do exército, um militar de capuz preto desceu às pressas até a beira e grito: “tem algum estrangeiro aí?!”. Como não tinha, ele “liberou” a gente, para continuar a viagem.

E chegamos. No porto, Esmeraldo da COIDI e mais algumas pessoas estam nos esperando. E, fomos levados à sede da Coordenadoria, que é um antigo hospital dos salesianos, recentemente doado a eles. A tal da “Santa Casa”. Onde vamos ficar nos próximos dias, enquanto estivermos lá.

No dia seguinte, umas oito da manhã, iniciou-se o seminário. O legal desses seminários, é que a forma como é conduzida, os professores, os gestores, os estudantes, pais de alunos, colocam na mesa os problemas, as necessidades que enfrentam em relação a educação escolar. É falta de material escolar, falta de estrutura, contração de professores e etc…E melhor nisso, é, tudo na lingual. No caso, de Iauaretê, lingual Tukano. Por isso, aos que não são de lá, ou que não entendem, ficam “boiando” o evento tudo. Mas, tradutores não falta. Por isso, a única forma de me situar e acompanhar o andamento dos trabalhos, foi arrumar um tradutor.

Ao longo dos intervalos, procurei conhecer e saber mais sobre, a “cidade de indio”, como Iauaretê é também conhecido, devido, ao grande número de pessoas que compartilham aquele espaço. São pelo menos 4 mil pessoas na sede, e 3 mil nas comunidades próximas. Um local que está entre uma grande comunidade à cidade. Iauaretê reúne pessoas de vários lugares e de etnias diversos, o que faz dele, um povoado multiétnico.

Além de ter pequenos comercios, tem pelotão de exército, hospital, correios e entre esses a missão salesiana, mas, o que reúne jovens dos mais diversos lugares é a escola estadual São Miguel. Uma das mais antigas escolas da região do Rio Negro, foi a primeira a ofertar o ensino médio na região. No discurso de apresentação do que foi e o que é hoje, o atual Diretor disse: “a nossa escola foi pensada pelos missionários, mas, ela foi um espaço importante de formação na região, o que permitiu que chegássemos onde estamos hoje, apesar de ela ter objetivos inicialmente de acabar com as nossas culturas. Hoje, estamos mudando essa realidade e esses objetivos”.

Caminhar nas ruas de Iauretê, é “tropeçar”com a própria história local. Do bairro tradicional São Miguel, dos Tarianos ào bairros mais recentes. As ruínas do antigo internato, mostra as marcas deixadas pelo auge da atuação dos salesianos.

“São Gabriel dos meus sonhos es formosa…”.

 

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Bem ali, próximo do porto fica um pequeno comercio, é do Sr. Floriano e da Dona Terezinha Cardoso. O que faz, dos dois, e principalmente a Dona Terezinha, mergulhar todos os dias nas águas pretas do Waupés. Mas, o que ela tem de  especial assim afinal? É mais que isso, há 42 anos atrás, ná época ainda aos 20 anos, na 8a série, no Colégio São Gabriel da Cachoeira, ela participou de um concurso de poesia. E  nesse concurso ela ficou em primeiro lugar. Mas, o que ela não sabia, é que aquela poesia um ano depois, em 1972, se tornaria o hino de São Gabriel. “Não sabia que a minha poesia seria selecionada para ser o hino do município”- lembra.  E eu, como tantos outros meninos e meninas na época da escola (ensino fundamental), aprendi a cantar esse hino. Só nunca imaginei que um dia iria me encontrar  e conversar com a autora desse hino. E ainda mais, contar a história (um pouquinho) pro mundo.  Hoje, aos 62 anos,  divide seu tempo para ajudar o marido no comércio, e de vez em quando, ir para roça, fazer farinha e tapioca. Olha, que ganhei um kilo com a dona Terezinha.

Lá, nos horários de intervalo do evento, conheci professores e alguns jovens que não perde nenhum intervalo sem se conectar ao mundo virtual. É facebook e WhatsApp. E nesses intervalos, também aproveito para “coletar” depoimentos desses jovens e alguns participantes sobre o seminário. As entrevistas com alguns desses jovens foi bastante divertido, muitos “curta aê”, o termo usado para falar “pausa de gravação”.

Fiz um video de 10 mim do seminário para exibir ao final do evento, e foi muito bom, todo mundo gostou. Mas, disse a eles, que o video completo seria concluído em São Gabriel da Cachoeira. Muitos em suas falas, mostraram a importância desses tipos de eventos, pois, muitos deles, estão começando a participar desse movimento, por isso, todos eles afirmaram que “aprenderam muito durante o seminário”. O que mostra que os própositos dos eventos realizados, estão alcançando seus objetivos, que além de promover a discussão, leva também informação e conhecimento aos participantes, e em especial aos que estão começando a fazer parte da discussão e do debate sobre o tema.

Os dias em Iauaretê estavam chegando ao final. Mas, sair de lá sem conhecer de perto as pedras e ouvi as histórias sobre a Cachoeira das Onças não seria bom. Por isso, ficamos mais um dia para fazer isso. Ir até Aduana, um povoado que fica ao lado oposto de Iauaretê, à margem esquerda da foz Papurí. Do lado Colômbiano. E ver de perto os desenhos nas pedras, os petroglifos.

Sábado, 22/03, chega ao final, a temporada em Iauaretê. É hora de descer para São Gabriel da Cachoeira, encarar na volta a estrada de Ipanoré, e depois de lá é abrir meu livro de viagem: “Não posso me apaixonar” e cair na “estrada”, que são apenas mais seis horas de viagem. Cada viagem, sempre é uma aventura, de  muitas aprendizagens e descobertas.

 

“Se essa Cachoeira falasse, quanta coisa a gente descobriria”

Na véspera de minha primeira viagem para Iauaretê subindo o rio (já foi uma vez de avião), compartilho com os leitores o vídeo sobre a Cachoeira das Onças de Iauaretê- Rio Waupés.

“Se essa Cachoeira falasse, quanta coisa a gente descobriria”

O documentário “Iauaretê, Cachoeira das Onças” (48 minutos, 2006), dirigido por Vincent Carelli, reúne narrativas de lideranças indígenas do alto Rio Negro sobre os significados e ensinamentos contidos nessa paisagem, revelando ainda seu esforço e sua luta para fortalecer e legitimar as tradições indígenas. Fruto de uma parceria entre o Projeto Vídeo nas Aldeias, o Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), o filme constituiu parte importante do processo de tombamento dessa paisagem como patrimônio cultural imaterial, em agosto de 2006.

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Fonte ://www.ifch.unicamp.br/proa/resenhas/resenhailana.htm