Pátria educadora que não prioriza a educação

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Gestores de escolas, professores, estudantes e pais de alunos saíram às ruas na manhã desta quarta-feira, 8 de abril aqui em São Gabriel da Cachoeira.

“O governo brasileiro diz que o Brasil é Pátria Educadora mas, não prioriza a educação” – disse Paiva Baniwa Trinho Paiva, um dos coordenadores da mobilização.

Sair às ruas foi para protestar e chamar atenção dos governantes foi um dos encaminhamentos da 1a Reunião Ordinária dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas (SINTEAM) e Conselho de Professores Indígenas do Alto Rio Negro (COPIARN), realizado no dia 8 de março, que reuniu mais de 200 professores, elaborou uma carta para reivindicar:


Leia a carta: http://zip.net/bvq3Pw

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FOIRN 27 anos

Dia 30 de Abril de 2014 – 27 Anos de Lutas e Conquistas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN.

Diretor Renato da Silva Matos lê a Carta de comemoração de 27 (abaixo) anos durante a cerimônia. Foto: José Miguel Nieto Olivar

Diretor Renato da Silva Matos lê a Carta de comemoração de 27 (abaixo) anos durante a cerimônia. Foto: José Miguel Nieto Olivar

No dia 30 de abril de 1987 o ginásio da Diocese de São Gabriel da Cachoeira foi o palco onde se reuniram mais de 400 lideranças indígenas que vinham desde os anos 1970 se organizando e discutindo os direitos dos povos indígenas da região do Rio Negro. Neste evento que juntou diferentes etnias, povos, línguas, tradições e trajetórias históricas foi fundada a FOIRN. Nessa reunião estavam presentes não somente nossos parentes, mas também autoridades do Estado Brasileiro. Não que a presença de pessoas de contextos diferentes aos nossos fosse novidade. Nós indígenas do Rio Negro temos uma história de resistência à colonização desde a chegada de portugueses e espanhóis e mantemos nossa identidade indígena até hoje. A fundação da FOIRN marca mais uma dessas fases de resistência e foi com os motes de Terra e Cultura que fomos buscar nossos direitos.

A FOIRN foi criada para que nós tenhamos nosso próprio meio de expressão e reivindicação. Aqui nós falamos por nós mesmos, sem intermediários ou atravessadores.

Desde 1987 muitas ações foram concretizadas. Temos hoje Terras Indígenas demarcadas, a educação escolar indígena tem exemplos positivos, as línguas indígenas continuam a ser faladas e, principalmente, hoje mostramos que ser indígena é motivo de orgulho, pois nossa história marca a diversidade, a pluralidade, a ampliação dos conhecimentos e caminha em conjunto com um enorme patrimônio social e natural. Afinal, a história dos povos indígenas do Rio Negro não separa o ser humano do seu ambiente, das águas, das florestas, das montanhas e dos animais. Criamos desta forma riquezas que vão além de cifrões, de números. Nossa riqueza é maior que o PIB, ela é todo esse território de qual o mundo precisa para que seu clima mantenha as condições de vida do ser humano, ela traz concepções filosóficas, mitológicas e ecológicas sobre uma das regiões com a mais rica biodiversidade do mundo, a Floresta Amazônica. Produzimos e conservamos um sistema agrícola de ampla diversidade, resistente a pragas e que não carece de venenos. Temos, portanto, enormes contribuições ao nosso mundo e lutamos para que estas sejam reconhecidas.

Este reconhecimento é o que guia os trabalhos da FOIRN, reconhecimento de que os povos indígenas habitam esta região há milênios e que contribuem enormemente ao nosso país e ao mundo. No entanto, isso somente acontece através de grandes esforços, é por isso que a luta faz parte do nosso cotidiano. Lutamos pois há interesses que prefeririam destruir nossos territórios para dar lucro para quem já está soterrado de dinheiro. Temos que lutar pois somos ameaçados com ideias que menosprezam e querem uniformizar nossos conhecimentos milenares. Lutar porque aqui já queimaram malocas e demonizaram nossos costumes. Lutar pois há incentivos para quem vende cachaça e não para quem cultiva o bem viver na comunidade. Lutar pela nossa cultura e território.

Esta luta tem mais de 27 anos, mas há 27 anos trabalhamos com essa ferramenta garantida pela Constituição Federal de 1988, que é a associação indígena. Aqui na FOIRN propomos e acompanhamos as políticas públicas governamentais. Assim, construímos no dia a dia uma ponte entre a comunidade mais distante e o Estado Brasileiro. Fazemos as reivindicações de nossos parentes ecoarem nos palácios do governo e chegarem a quem pode tomar decisões que garantam nossos direitos.

Apesar de toda esta trajetória nos últimos 27 anos, ainda recebemos críticas sem fundamentos de que as terras indígenas trazem atraso e impedem o progresso. Lembramos para estas críticas que é em nome desse progresso que parentes no Mato Grosso do Sul são mortos por proprietários de grandes fazendas. É este progresso que polui nosso mundo e faz com os que mais ricos fiquem mais ricos e os mais pobres mais pobres. As Terras Indígenas são, ao contrário disso, reais exemplos de progresso. Nelas ainda se encontra ar puro, água, espaço, liberdade e reciprocidade. Nelas se pode viver sem nos submetermos a patrões e donos de negócios que querem só nossa força de trabalho e pagar o mínimo possível para que possam lucrar o máximo.

Convidamos assim vocês para refletirem sobre o nosso mundo de hoje, pensarem como podemos melhorá-lo e que estratégias podemos traçar em conjunto, pois essa história de 27 anos traz uma marca importante dos nossos ancestrais, a coletividade. Nossa instituição sempre foi e continuará de portas abertas para que nossos trabalhos sejam conhecidos, analisados e melhorados.

Assim como não deixamos de sermos indígenas por usarmos novas tecnologias ou falarmos português, não deixaremos que novas táticas de colonização acabem com nossos saberes e práticas milenares. Saibam suas histórias, procurem saber a versão não somente dos dominantes, mas também a versão daqueles que resistem, que lutam para que injustiças não sejam perpetuadas. Uma grande parte dessa história de resistência está aqui, ela é incorporada pela FOIRN, está na nossa maloca, nas nossas lideranças, nas nossas comunidades, roças, em danças de cariçu, em rodas de caxiri e também em nossos livros, arquivos e vídeos. Conheçam esta história.

O parabéns a FOIRN e a todos que contribuíram para sua existência é na verdade um parabéns à diversidade, à pluralidade e à tudo que nossos povos indígenas do Rio Negro representam.

 

Publicado no blog da FOIRN (www.foirn.wordpress.com), em 30 de Abril de 2014.

Em Iauaretê, uma temporada no Rio Waupés

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Em Iauaretê, durante o Seminário de Educação Escolar Indígena, entre os dias 17 a 19 de março.

Uma viagem tranquila e longa. As curvas e praias brancas às margens são os detalhes da paisagem, que além de lindas, as vezes significam perigo ou pedem atenção aos que descem e sobem o rio, que não são poucos, mas, especialmente àqueles que conduzem as encabarcações, os motoristas. Por isso, é sempre melhor, ter alguém que é de lá, e que conhece o “canal” para não ser surpreendidos ao longo da viagem.

Mas, nem todo o trajeto tem praias. Há um trecho já próximo de Iauaretê, que se fosse descrever a paisagem para orientar quem estivesse indo pela primeira vez, diria: “se começar a ver pedrais, é por que você já vai chegar em Iauaretê”.

Na última subida no Waupés, foi até em Taracúa, no final de fevereiro, também para o segundo seminário de educação escolar indígena. Na época, o mapa que tinha em mente sobre Waupés, terminava ali mesmo, informações que tinha sobre além disso era pouco.

Dessa vez, a missão da equipe na qual estava acompanhando era realizar o terceiro seminário de educação em Iauaretê, para reunir informações e ouvir o que as pessoas do alto Waupés e Papurí, como também aquelas que moram nas próximidades do distrito tem a dizer, reclamar, propor para que essa pauta avance, melhore. É aí que entro, para registrar o evento e gravar depoimentos. E ainda, conhecer pessoas, amarrar amizades e parcerias.

Depois de um dia de viagem sem pressa, num domingo (16/03) de muito sol, passamos noite Monte Alegre, que também é conhecido como Matapi. Um por do sol espetacular, com direito à algumas primeiras histórias sobre o local. Com praia de areia fina no porto, um local muito bonito, e bom de se tomar banho. Os botos de lá, são chamados de “aimas”. Vou explicar. Há algum tempo no rio Negro, foi criada a categoria de jovens indígenas pesquisadores conhecidos de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (aimas) pelo Instituto Socioambiental, FOIRN em parcerias com algumas escolas indígenas, com a proposta de estudar e desenvolver pesquisas sobre o uso de recursos naturais usados pelas comunidades, com o objetivo de acompanhar e propor boas práticas de manejo, ou, em outras palavras “cuidar” dos recursos.

O Leôncio, coordenador da COITUA, conta que todas vez que alguém coloca uma malhadeira (rede de pesca), os botos vão lá, acabar com a rede, no sentido, de furar e não “deixar que as pessoas coloquem essa armadilha lá”, por isso, esses botos receberam esse nome pelas pessoas de lá. Outro detalhe curioso, Monte Alegre é igual a qualquer uma comunidade rionegrina, menos por um detalhe: não tem cachorro. Por quê? O Leôncio responde: a comunidade um dia se reuniu para tratar de um assunto que consideraram importante: não ter mais cachorro na comunidade, e foi decidido.

Depois de uma noite fria e silênciosa, com direito ao cantos de pássados noturnos, depois do mingaú, continuamos a viagem. Era uma segunda-feira. Saimos cedo com a intencão de chegar mais cedo em Iauaretê. Passamos foz do Tiquié e logo depois, Taracúa, palco do ultimo encontro realizado. De longe, avistamos uma placa azul que  aparece pela metade “comido” pelo pasto. O primeiro sinal de uma obra do governo abandonada. Um pequeno sinal do que viria, seria visto, depois, da pequena comunidade conhecida de “Ipanoré”. É o projeto “Melhorias para a Estrada de Ipanoré”, com um custo de quase 10,5 milhões. Uma obra que teve início ainda em 2013, e seria entregue no início daquele mês (março). Porém, uma surpresa. A Estrada estava longe de ser concluída. Conto isso, mais na frente.

Mas, antes de encararmos a ladeira, e a altura do caminhão velho, resolvemos mergulhar no tempo. Fomos conhecer a cachoeira de Ipanoré, um dos locais sagrados e comumente citado nas narrativas de origem das etnias da família linguistica Tukano e Maku. No nível que a água estava, não deu para chegar mais próximo do “buraco de origem/imersão”. De acordo, com nosso motorista, tentar ir lá, é arriscar. E, é claro, ninguém queria arriscar. Ficamos de longe, mas, ouvi muita história sobre o local. Umas ligadas à origem da humanidade e outras, histórias relacionadas, a tragédias e mortes.

“Um dos esteios que sustenta a humanidade” 

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Mako.

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Makú.

O Higino, conhecedor Tuyuka, companheiro de viagem, disse, que desde os tempos antigos, muitas pessoas morreram e até de casos mais recentes. Há aproxidamente 500 metros de onde estávamos, de acordo o Higino, fica o grande “buraco”, uma grande “panelona”diz ele, que é único meio de passar e seguir a viagem. Os viajantes precisam esperar o tempo certo para passar, por que se “errar o tempo” já era – diz Higino. E ainda tem a parte mais curiosa, os mais velhos ou os benzedores, até mesmo os que “sairam de lá com vida” relatam que quando entra no buraco, é uma viagem em questão de segundo dentro de um túnel, para sair até nas proximidades de Ipanoré, que fica há mais ou menos 1km de lá na “boca do buraco”. De acordo com essas pessoas, dizem que eles passam dentro de uma “grande maloca” onde se vê muitas redes atadas, para sair de lá vivo é preciso tentar não “encostar” em nada. Mas, de todos que já entraram ou foram “engolidos” pelo buraco, poucos conseguiram sair com vida e contaram essa história. Mas, nada se sabe, como passou a ser a vida deles depois disso.

Outro detalhe curioso, é que acima da dessa grande cachoeira, não se vê mais boto. As narrativas dão a resposta. De acordo com os conhecedores, existem apenas dois “bucaros” umas espécies de túneis. Uma das piranhas e outras de peixes como aracú e outros. Alguém deve pensar, mas, por que ele passa nesses túneis? Até que daria para ele ir ou tentar. Mas, não é por falta de tentativas. É por que, quem fica de vigia na saída, é uma piranha enorme, do tamanho de uma “peneira”. Aí, o segredo. Quando tenta, é espedaçado em segundos. Depois de ouvir essa narrativa, se fosse boto, eu não arriscaria.

Depois, disso, voltar para à encarar Estrada, é como emergir de novo depois de um mergulho que fez você ir ao limite a imaginação. Agora, é encarar a parte mais complicada da viagem: a estrada de Ipanoré.

Uma obra iniciada, mas, não acabada..: “Filma isso e coloca no site!”.

Placa da "Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré" do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

Placa da “Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré” do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

“Aqui se quiser ajuda dos outros, você tem que ajudar” diz motorista do caminhão a alguns jovens que estavam ali sentados, enquanto um senhor estava tentando descer o bote do caminhão velho. Madruga, como é conhecido por todos, é o motorista do caminhão, o único meio de passar o trecho do Waupés Ipanoré-Urubuquara, um trajeto quase intransponível.

Com idade já na casa dos 50, ele carrega canoas (até médias) e voadeiras todos os dias, de Ipanoré à Urubuquara e vice-versa. E ele diz “Não sei aonde encontro tanta disposição assim. Mas, o corpo recla depois, a noite, quando caio na rede, não me mexo mais”. É um dos que reclamam da “incompetência” e do “desvio do recurso público”, palavras que ele usa, para chamar a situação em que se encontra a construção da estrada. Estava tirando fotos da estrada, e ele viu e me falou: “filma isso aqui e bota no site, alguém precisa cutucar alguém, é disperdício de dinheiro público, alguém está passeando com esse dinheiro, enquanto aqui o povo está sofrendo”.

Enfim, depois de aproximadamente 14 minutos, com nossas duas voadeira em cima do caminhão, descemos em Urubuquara. Ao longo da corrida, é possível ver o quanto ainda precisa ser feito para a obra ser concluida, e pior, muitas sacas de cimento estragadas ao longo da estrada. No caminho, um susto. Muitos sentiram a sensação de o “coração sair pela boca”, estourou um pneu do caminhão.

“Daqui até o destino são aproximadamente três horas” diz Ivo, para animar a turma. Mas, precisávamos comer, já tinha passado meio dia até aí. Fomos comprar peixe à uma comunidade chamada Pinu-pinu, que fica atras de uma ilha, atrás de Urubuquara. De lá, a gente tem a sensação de que o chão treme só por ouvir som da cachoeira. Não poderia perder a chance de conhecer aquele local, subi junto com Higino e Ivo. E lá, me perguntaram se aceitava uma “cuiada” de vinha de pupunha. E quem não aceitaria? Queria experimentar. Humm, demais. Muito bom. Mas, tinhamos que descer e continuar a viagem, por que, ainda tinha muito “chão” pra correr.

Deitei depois de algum tempo sentado, e dormí. Uma chuva forte, me fez acordar. Alguns minutos depois, começamos a passar vários pedrais e canoas subindo. Já estávamos chegando. Em meio à chuva, a vistamos de longe a igreja. “É Iauaretê! – disse um menino que estava de carona com a gente desde Ipanoré. Ainda se chegarmos ao porto, fomos “parados” pelo posto do exército, um militar de capuz preto desceu às pressas até a beira e grito: “tem algum estrangeiro aí?!”. Como não tinha, ele “liberou” a gente, para continuar a viagem.

E chegamos. No porto, Esmeraldo da COIDI e mais algumas pessoas estam nos esperando. E, fomos levados à sede da Coordenadoria, que é um antigo hospital dos salesianos, recentemente doado a eles. A tal da “Santa Casa”. Onde vamos ficar nos próximos dias, enquanto estivermos lá.

No dia seguinte, umas oito da manhã, iniciou-se o seminário. O legal desses seminários, é que a forma como é conduzida, os professores, os gestores, os estudantes, pais de alunos, colocam na mesa os problemas, as necessidades que enfrentam em relação a educação escolar. É falta de material escolar, falta de estrutura, contração de professores e etc…E melhor nisso, é, tudo na lingual. No caso, de Iauaretê, lingual Tukano. Por isso, aos que não são de lá, ou que não entendem, ficam “boiando” o evento tudo. Mas, tradutores não falta. Por isso, a única forma de me situar e acompanhar o andamento dos trabalhos, foi arrumar um tradutor.

Ao longo dos intervalos, procurei conhecer e saber mais sobre, a “cidade de indio”, como Iauaretê é também conhecido, devido, ao grande número de pessoas que compartilham aquele espaço. São pelo menos 4 mil pessoas na sede, e 3 mil nas comunidades próximas. Um local que está entre uma grande comunidade à cidade. Iauaretê reúne pessoas de vários lugares e de etnias diversos, o que faz dele, um povoado multiétnico.

Além de ter pequenos comercios, tem pelotão de exército, hospital, correios e entre esses a missão salesiana, mas, o que reúne jovens dos mais diversos lugares é a escola estadual São Miguel. Uma das mais antigas escolas da região do Rio Negro, foi a primeira a ofertar o ensino médio na região. No discurso de apresentação do que foi e o que é hoje, o atual Diretor disse: “a nossa escola foi pensada pelos missionários, mas, ela foi um espaço importante de formação na região, o que permitiu que chegássemos onde estamos hoje, apesar de ela ter objetivos inicialmente de acabar com as nossas culturas. Hoje, estamos mudando essa realidade e esses objetivos”.

Caminhar nas ruas de Iauretê, é “tropeçar”com a própria história local. Do bairro tradicional São Miguel, dos Tarianos ào bairros mais recentes. As ruínas do antigo internato, mostra as marcas deixadas pelo auge da atuação dos salesianos.

“São Gabriel dos meus sonhos es formosa…”.

 

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Bem ali, próximo do porto fica um pequeno comercio, é do Sr. Floriano e da Dona Terezinha Cardoso. O que faz, dos dois, e principalmente a Dona Terezinha, mergulhar todos os dias nas águas pretas do Waupés. Mas, o que ela tem de  especial assim afinal? É mais que isso, há 42 anos atrás, ná época ainda aos 20 anos, na 8a série, no Colégio São Gabriel da Cachoeira, ela participou de um concurso de poesia. E  nesse concurso ela ficou em primeiro lugar. Mas, o que ela não sabia, é que aquela poesia um ano depois, em 1972, se tornaria o hino de São Gabriel. “Não sabia que a minha poesia seria selecionada para ser o hino do município”- lembra.  E eu, como tantos outros meninos e meninas na época da escola (ensino fundamental), aprendi a cantar esse hino. Só nunca imaginei que um dia iria me encontrar  e conversar com a autora desse hino. E ainda mais, contar a história (um pouquinho) pro mundo.  Hoje, aos 62 anos,  divide seu tempo para ajudar o marido no comércio, e de vez em quando, ir para roça, fazer farinha e tapioca. Olha, que ganhei um kilo com a dona Terezinha.

Lá, nos horários de intervalo do evento, conheci professores e alguns jovens que não perde nenhum intervalo sem se conectar ao mundo virtual. É facebook e WhatsApp. E nesses intervalos, também aproveito para “coletar” depoimentos desses jovens e alguns participantes sobre o seminário. As entrevistas com alguns desses jovens foi bastante divertido, muitos “curta aê”, o termo usado para falar “pausa de gravação”.

Fiz um video de 10 mim do seminário para exibir ao final do evento, e foi muito bom, todo mundo gostou. Mas, disse a eles, que o video completo seria concluído em São Gabriel da Cachoeira. Muitos em suas falas, mostraram a importância desses tipos de eventos, pois, muitos deles, estão começando a participar desse movimento, por isso, todos eles afirmaram que “aprenderam muito durante o seminário”. O que mostra que os própositos dos eventos realizados, estão alcançando seus objetivos, que além de promover a discussão, leva também informação e conhecimento aos participantes, e em especial aos que estão começando a fazer parte da discussão e do debate sobre o tema.

Os dias em Iauaretê estavam chegando ao final. Mas, sair de lá sem conhecer de perto as pedras e ouvi as histórias sobre a Cachoeira das Onças não seria bom. Por isso, ficamos mais um dia para fazer isso. Ir até Aduana, um povoado que fica ao lado oposto de Iauaretê, à margem esquerda da foz Papurí. Do lado Colômbiano. E ver de perto os desenhos nas pedras, os petroglifos.

Sábado, 22/03, chega ao final, a temporada em Iauaretê. É hora de descer para São Gabriel da Cachoeira, encarar na volta a estrada de Ipanoré, e depois de lá é abrir meu livro de viagem: “Não posso me apaixonar” e cair na “estrada”, que são apenas mais seis horas de viagem. Cada viagem, sempre é uma aventura, de  muitas aprendizagens e descobertas.

 

Rio Negro fervendo de formação nos primeiros meses do ano

II Turma  Baniwa do Curso Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da -UFAM, em Assunção do Içana. Foto: Dario Casimiro

II Turma Baniwa do Curso Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da -UFAM, em Assunção do Içana. Foto: Dario Casimiro

Começou no inicio dessa semana, o Curso Licenciatura Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal do Amazonas – em São Gabriel da Cachoeira. Coordenada e realizada pela UFAM em parceria com a FOIRN, o curso formou a primeira turma no final de outubro de 2013. E nesse ano, começa a segunda turma do curso, que são mais de 100 alunos, divididos em três pólos Baniwa, Tukano e Nheengatú, com localidades, de acordo com o território línguístico. Polo Tukano em Taracúa – Médio Waupes, Baniwa em Assunção do Içana – Médio Içana e Nheengatú em Cucuí – Alto Rio Negro. A primeira etapa do curso vai até na segunda quinzena de fevereiro, segundo informações divulgadas pela coordenação geral do curso.

Enquanto isso, o Magistério Indígena III – Curso de Formação para Professores Indígenas de nível médio está acontecendo na Ilha de Camanaus, próximo de São Gabriel da Cachoeira, que reúne cerca de 100 professores indígenas, distribuídos em cinco pólos: Baniwa, Tukano, Hupdah, Yanomani e Nheengaú. O curso deu início no dia 20 de janeiro e vai até no inicio do mês de março, no período em que começa as aulas da rede município. Segundo, o Juscelino Pereira, seleção dos candidatos para a terceira turma do Curso, teve como prioridade atender e garantir formação aos professores que já atuam na sala de aula, mas, que apenas tem formação acadêmica (nível médio). Dessa vez, o curso é realizada pela SEMEC em parceria com a SEDUC, que tem a empresa empresa Memvavmem como executura do projeto.

E utros Cursos de Graduação para formação de professores através do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica – PARFOR acontece no município, que atende o maior número de professores indígenas da região. E a turma da Licenciatura Intercultural do IFAM – Campus São Gabriel também está em formação nesse mesmo período. É o Rio Negro fervendo de formação nesses primeiros meses do ano.

 

Matsiakaro phatsamitha weemaka wadzakalenairiko

ImagemLirikoda mhitshaka lhieka idzeenaliwa (05-07/12), nawakeetakawa nhaa kaakonadalipe ayaha Hiipanako, kaakokaro nhaa nanako nhaa kanakaiperi pamatsiataka ideenhikhettika oo nhaatsakha nhaa kanakaiperittoa padeenhika, wattaitakaro mitha watsa weemaka matsiaphatsa wadzakalenairiko.Hoore yakotti, iwapineetakhetti, nheette ideenhikhetti kanakaiperi padeenhika, metsa karoka mherapittinakatsa ni.

Waanheenina oophittetsa lhie naamaka nawadzakeetaka whaa oo maatshika naako nheette nadeenhika wakhoette nhaa wanheri yalanawinai. Metsa, neenikatsakhaa nhaa yomakape oo ikitsindataka whaa, Nhaa wakitsienatsa nakhoette nhaa wheponda, ideenhiri phiome nhetakaro waadza wahipaite weemali neeni. Ikatsa pada yakotti khedzakoli kanakai wakaitepeka walhiowaaka pandza whaa wakoenai, imas, pawalipe, nhaatsa nhaa wakitsienatsa, pakoaka nawapineetaka naapidza nhaa yalanawinai oo nawadaka matsiakalika lhia nhemali nheette nakapali tsakha. Katsa pada matshidalikatsa yakottika pandza.

Irawadatti (dzanakaa), katsa padakatsakha imatshikakada weemaka pandza ayaha weemakaliko. Padatsa kaakoli nhaa inako lirikoda neeniri mendzamitsa. Hore kanhetsa pida nadeeka irawadatti wadzakalenairiko nhaa padapenaa wakitsienapetsa, koamekatsa nhaa yalanawinai (Colombianonai). Okayalirikolhe pida horekanheetsa nadeeka lhiapepe. Pandza pida Dzawhipani, karotha pida nakadaa navenderi neeni, metsa peemhette pida neenika ni. Kadzodali ima pida, manopena nainoakakawa oo maliomekanhaa kadzodali ikhette.

Daa..hore mikanheetsa kanakaiperi pamatsiataka weemakawaliko. Oopina naroita wapidzawa nhaa kanakaiperi Iniali irhio, pandza kanakai watsa waaka naphontte, ima wawapakadaatsa watsa, kadzo oopidzotsa, karowatsa koaka wadeenhiri. Phada pianhe tsiali.

Mulheres Indígenas do Rio Negro se reuniram em SGC para discutir temas de interesse e elaborar propostas e planos de ação para próximos anos.

ImagemNa semana passada, entre os dias 03 a 05, acompanhei de perto o evento que reuniu mais de 50 mulheres indígenas, vindas de varias regiões do Rio Negro. Uma verdadeira aula de historia de movimento indígena pra mim, que antes, pouco conhecia o quanto era o envolvimento e participação delas, desde que o movimento indígena do rio negro foi formado.

Declarações de ex-diretores, como de Domingos Barreto, me fez lembrar e trazer aos “olhos” a fala da “Joaquina” (como aparece no vídeo), de como elas foram e são parte importante do movimento. Mas, nem sempre tiveram o devido espaço, como elas conquistaram desde que o Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn foi criado em 2002.

Apesar dos altos e baixos desde que foi criado, o DMIRN consolidou o espaço delas no movimento, que pode ser mencionado como um dos resultados dentre os varias conquistas. Em 26 anos, apenas duas mulheres passaram na diretoria. A Rosilene Fonseca e a  a Almerinda Ramos que tem mais 3 anos de gestão pela frente.

Enfim…durante os três dias de evento, pude perceber o quanto ainda são grandes os desafios a serem superadas em termos de fortalecimentos de suas instituições, e como organização de suas iniciativas, relacionadas a praticas de produção.  E como representantes delas, as coordenadoras do Departamento foram cobrados frequentemente na reunião. Duas senhoras questionaram as atuais (da gestão 2010-2013), o por que elas não atenderam as demais regiões, se fizeram isso em outras.

Esse atendimento se resume em visitas e realizações de oficinas de formação e outros. E por ai vai…O que faz necessário uma explicação por parte das coordenadoras, do porque a ausência em todas as regiões. Primeiro por que a atuação do DMIRN abrange três municípios (Sao Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos), por isso, ha muitas demandas, e para agravar a situacao, os recursos são escassos, e o departamento não tem uma estrutura e equipamento para realizar viagens independentes. Segundo as coordenadoras, só chegam nas bases pegando “carona” com os coordenadores regionais, que nem sempre realizam viagens com frequência.

Outra critica. A Loja de produtos do Rio Negro, a Wariro, sempre foi vista por elas, como um espaço distante do que gostariam que fosse. Todas elas são produtoras de determinados produtos, usando cerâmica, tucum e fibras de piaçava. “A gente chega la, as vezes a gerente pede para passar outro dia, e quando vamos no dia seguinte, fala a mesma coisa..Isso nos desanima” – afirmou uma das participantes, ao se referir as gerentes anteriores da atual. “Agora esta melhorando, estou gostando” – conclui a produtora, falando dos avanços em relação a responsável atual.

O que elas querem?. Durante o evento, as participantes foram organizadas em grupos por associações para colocar no papel e apresentar as demandas. Formação e informação, troca de experiencias com outras mulheres de regiões diferentes foram os desejos mais repetidos nas exposições. Oficinas, encontros e feiras são formatos que apontaram para realização desses objetivos. Por isso, que Santa Isabel e Barcelos os aguardem! Elas vão la…O mais interessante, a preocupação em repasse e transmissão de conhecimentos esta sendo foco dessas oficinas e encontros.

Em 2014, a Casa do Saber da Foirn (maloca), sera um centro de formação de mulheres em produção de artefatos de cerâmica e produtos de tucum. Foram programas essas oficinas aqui em São Gabriel da Cachoeira. Ja esta anotado e agendado. Elas vao se organizar e deixar todo material a ser usado, pronto, e trazer para cidade, quando chegar a data. E a grana para reunir tantas mulheres e vários lugares diferentes? ” A Funai tem que nos apoiar” – disse dona Jacinta, presidente de uma das associações presentes no evento. Sobre recursos financeiros, elas com certeza irão atras, disso, não tenho duvidas.

Depois de toda discussão, no final do evento, chegou o momento mais esperado. E eleição da nova coordenação para o departamento de mulheres. Com o compromisso de trazer uma candidata, cada associação veio com 5 delegadas para votar. Mas, algumas associações chegaram com poucas delegadas, e apenas 4 apresentaram suas indicadas para concorrer. As quatro tiveram seu tempo para se apresentar e falar de suas propostas para a gestão. Isso, aconteceu no final do segundo dia.

No terceiro dia, apos, a palestra de dois enfermeiros do DSEI-ARN, sobre a Saúde da Mulher (Importância do Pre-natal, Câncer de Mama e Câncer de Colo de Útero), começou a votação. Foram mais de 30 votos no total. Resultado. Professora Rosilda Cordeiro da etnia Tukano, do Distrito de Taracuá como Coordenadora e Francineia Fontes, Baniwa, da comunidade de Assunção do Içana.

Depois disso, houve um momento que comoveu todos os presentes. Leituras de cartas de agradecimento das atuais coordenadoras do departamento, Rosane Cruz e Anair Sampaio, eleitas em 2010. Onde, elas, expressam suas aprendizagens, lutas e conquistas. ” Deixo o departamento, mas, continuarei sendo liderança indígena, o que me tornei” – finalizou a Cruz, que coordenou do DMIRN por três anos.

E nós, homens, estivemos la também para apoiar em momentos necessários. ” Falar de lutas e do movimento das Mulheres, e referir nos a luta do Movimento Indígena do Rio Negro”- disse, o Barreto, atual coordenador do CRRN-Funai.

Voltando aos poucos a blogar.

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Depois de tirar uma “folga” das minhas redes, estou aos poucos voltando. E no final dessa semana (25/08), participei do Encontro de Jovens Indígenas Baré, Werekena e Baniwa na comunidade de Boa Vista/Foz do Içana. O encontro foi realizado pelo Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN.

Representando o Setor de Comunicação (FOIRN), falei sobre a presença de novas tecnologias nas comunidades indígenas, e na influencia destes na vida dos jovens. Falei também da importância das redes sociais como ferramenta de comunicação e do exercício de cidadania.

Para ler a matéria que escreví sobre o encontro, acesse: http://foirn.wordpress.com/2013/08/28/mobilizacao-reuniu-jovens-indigenas-baniwa-bare-e-werekena-em-boa-vista-foz-do-icana-nos-dias-24-a-25-de-agosto/