Conhecendo aos poucos esse imenso Rio Negro

Na companhia da dona Jacinta de Assis, liderança da comunidade Balaio, no Rio Negro, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira

Na companhia da dona Jacinta de Assis, liderança da comunidade Balaio, no Rio Negro, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira

A ida pra participar da 1a etapa local da Conferência Nacional de Política Indigenista na comunidade Juruti – Alto Rio Negro, aproximadamente 2 horas e meia viajando, subindo o Rio Negro, muito perto da linha de fronteira do Brasil com a Venezuela e Colômbia, me possibilitou mais uma vez (segunda vez que vou para Juruti, e terceira ao alto Rio Negro), conhecer ainda mais e melhor os povos Baré e Werekena que predominam a região, além de também compartilharem esse território com outras pessoas das demais etnias no Rio Negro.

Em Barcelos nos dias 14 a 16 de maio.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

O Seminário que aconteceu em Barcelos reuniu 50 representantes de 12 comunidades indígenas do município, incluindo professores, pais, alunos e lideranças Baré, Baniwa, Tukano, Caxinawá, Tuyuka, Macuxi, Ticuna e Arapasso, além de integrantes da Coordenadoria das Associações Indígenas do baixo Rio Negro (CAIMBRN), Associação Indígena de Barcelos (Asiba) e Setor de Educação Escolar Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Barcelos.

Leia mais sobre o evento aqui

Acariquara – Médio rio Negro, um reencontro com parentes.

A minha viagem no final de abril (25 a 27) para Acariquara, uma comunidade que fica localizado no rio Jurubaxi, a mais ou menos uma hora e meia de Santa Isabel do Rio Negro (descendo o rio), para participar do “Seminário de avaliação de 20 anos da ACIMRN”, não esperava encontrar pessoas que não via há algum tempo, ainda no Içana, na época em que dava aula na Escola Pamáali (médio Içana).

Lá estava sr. Carlos, que desceu de Maúa Cachoeira (Içana), há 4 anos e algumas pessoas conhecidas. O que me fez sentir em casa, ao chegar lá, quase um dia de viagem, depois de descer de São Gabriel da Cachoeira, de expresso e passar um tempo em Santa Isabel antes de pegar o transporte até lá. Conversamos sobre acontecimentos desses anos que ele passou a ficar fora do Içana. E como muitas coisas aconteceram.

O evento foi uma aula de história do movimento indígena pra mim. Estavam lá as principais e os mais importantes líderes do movimento indígena da região do médio. Da história de luta e dos desafios vividos pela Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro – ACIMRN, em duas décadas, quando foi criada, até a proposta de tornar o Sistema Tradicional Agrícola do Rio Negro (SAT-RN) em patriômonio da Humanidade.

Uma recepção e despedida calorosa dos alunos e da comunidade, com direito à dubucurí. Foi a minha primeira viagem à região, conhecí nossas pessoas, experimentei novos sabores e aprendi muita coisa, tanto do movimento indígena local, como do local, das pessoas. Foi um reencontro de parentes e amigos.

Foto criada em 2014-04-27 às 11.06 #2

Foto: eu e sr. Carlos (no fundo) em Acariquara, rio Jurubaxi, Médio rio Negro.

Em Iauaretê, uma temporada no Rio Waupés

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Em Iauaretê, durante o Seminário de Educação Escolar Indígena, entre os dias 17 a 19 de março.

Uma viagem tranquila e longa. As curvas e praias brancas às margens são os detalhes da paisagem, que além de lindas, as vezes significam perigo ou pedem atenção aos que descem e sobem o rio, que não são poucos, mas, especialmente àqueles que conduzem as encabarcações, os motoristas. Por isso, é sempre melhor, ter alguém que é de lá, e que conhece o “canal” para não ser surpreendidos ao longo da viagem.

Mas, nem todo o trajeto tem praias. Há um trecho já próximo de Iauaretê, que se fosse descrever a paisagem para orientar quem estivesse indo pela primeira vez, diria: “se começar a ver pedrais, é por que você já vai chegar em Iauaretê”.

Na última subida no Waupés, foi até em Taracúa, no final de fevereiro, também para o segundo seminário de educação escolar indígena. Na época, o mapa que tinha em mente sobre Waupés, terminava ali mesmo, informações que tinha sobre além disso era pouco.

Dessa vez, a missão da equipe na qual estava acompanhando era realizar o terceiro seminário de educação em Iauaretê, para reunir informações e ouvir o que as pessoas do alto Waupés e Papurí, como também aquelas que moram nas próximidades do distrito tem a dizer, reclamar, propor para que essa pauta avance, melhore. É aí que entro, para registrar o evento e gravar depoimentos. E ainda, conhecer pessoas, amarrar amizades e parcerias.

Depois de um dia de viagem sem pressa, num domingo (16/03) de muito sol, passamos noite Monte Alegre, que também é conhecido como Matapi. Um por do sol espetacular, com direito à algumas primeiras histórias sobre o local. Com praia de areia fina no porto, um local muito bonito, e bom de se tomar banho. Os botos de lá, são chamados de “aimas”. Vou explicar. Há algum tempo no rio Negro, foi criada a categoria de jovens indígenas pesquisadores conhecidos de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (aimas) pelo Instituto Socioambiental, FOIRN em parcerias com algumas escolas indígenas, com a proposta de estudar e desenvolver pesquisas sobre o uso de recursos naturais usados pelas comunidades, com o objetivo de acompanhar e propor boas práticas de manejo, ou, em outras palavras “cuidar” dos recursos.

O Leôncio, coordenador da COITUA, conta que todas vez que alguém coloca uma malhadeira (rede de pesca), os botos vão lá, acabar com a rede, no sentido, de furar e não “deixar que as pessoas coloquem essa armadilha lá”, por isso, esses botos receberam esse nome pelas pessoas de lá. Outro detalhe curioso, Monte Alegre é igual a qualquer uma comunidade rionegrina, menos por um detalhe: não tem cachorro. Por quê? O Leôncio responde: a comunidade um dia se reuniu para tratar de um assunto que consideraram importante: não ter mais cachorro na comunidade, e foi decidido.

Depois de uma noite fria e silênciosa, com direito ao cantos de pássados noturnos, depois do mingaú, continuamos a viagem. Era uma segunda-feira. Saimos cedo com a intencão de chegar mais cedo em Iauaretê. Passamos foz do Tiquié e logo depois, Taracúa, palco do ultimo encontro realizado. De longe, avistamos uma placa azul que  aparece pela metade “comido” pelo pasto. O primeiro sinal de uma obra do governo abandonada. Um pequeno sinal do que viria, seria visto, depois, da pequena comunidade conhecida de “Ipanoré”. É o projeto “Melhorias para a Estrada de Ipanoré”, com um custo de quase 10,5 milhões. Uma obra que teve início ainda em 2013, e seria entregue no início daquele mês (março). Porém, uma surpresa. A Estrada estava longe de ser concluída. Conto isso, mais na frente.

Mas, antes de encararmos a ladeira, e a altura do caminhão velho, resolvemos mergulhar no tempo. Fomos conhecer a cachoeira de Ipanoré, um dos locais sagrados e comumente citado nas narrativas de origem das etnias da família linguistica Tukano e Maku. No nível que a água estava, não deu para chegar mais próximo do “buraco de origem/imersão”. De acordo, com nosso motorista, tentar ir lá, é arriscar. E, é claro, ninguém queria arriscar. Ficamos de longe, mas, ouvi muita história sobre o local. Umas ligadas à origem da humanidade e outras, histórias relacionadas, a tragédias e mortes.

“Um dos esteios que sustenta a humanidade” 

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Mako.

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Makú.

O Higino, conhecedor Tuyuka, companheiro de viagem, disse, que desde os tempos antigos, muitas pessoas morreram e até de casos mais recentes. Há aproxidamente 500 metros de onde estávamos, de acordo o Higino, fica o grande “buraco”, uma grande “panelona”diz ele, que é único meio de passar e seguir a viagem. Os viajantes precisam esperar o tempo certo para passar, por que se “errar o tempo” já era – diz Higino. E ainda tem a parte mais curiosa, os mais velhos ou os benzedores, até mesmo os que “sairam de lá com vida” relatam que quando entra no buraco, é uma viagem em questão de segundo dentro de um túnel, para sair até nas proximidades de Ipanoré, que fica há mais ou menos 1km de lá na “boca do buraco”. De acordo com essas pessoas, dizem que eles passam dentro de uma “grande maloca” onde se vê muitas redes atadas, para sair de lá vivo é preciso tentar não “encostar” em nada. Mas, de todos que já entraram ou foram “engolidos” pelo buraco, poucos conseguiram sair com vida e contaram essa história. Mas, nada se sabe, como passou a ser a vida deles depois disso.

Outro detalhe curioso, é que acima da dessa grande cachoeira, não se vê mais boto. As narrativas dão a resposta. De acordo com os conhecedores, existem apenas dois “bucaros” umas espécies de túneis. Uma das piranhas e outras de peixes como aracú e outros. Alguém deve pensar, mas, por que ele passa nesses túneis? Até que daria para ele ir ou tentar. Mas, não é por falta de tentativas. É por que, quem fica de vigia na saída, é uma piranha enorme, do tamanho de uma “peneira”. Aí, o segredo. Quando tenta, é espedaçado em segundos. Depois de ouvir essa narrativa, se fosse boto, eu não arriscaria.

Depois, disso, voltar para à encarar Estrada, é como emergir de novo depois de um mergulho que fez você ir ao limite a imaginação. Agora, é encarar a parte mais complicada da viagem: a estrada de Ipanoré.

Uma obra iniciada, mas, não acabada..: “Filma isso e coloca no site!”.

Placa da "Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré" do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

Placa da “Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré” do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

“Aqui se quiser ajuda dos outros, você tem que ajudar” diz motorista do caminhão a alguns jovens que estavam ali sentados, enquanto um senhor estava tentando descer o bote do caminhão velho. Madruga, como é conhecido por todos, é o motorista do caminhão, o único meio de passar o trecho do Waupés Ipanoré-Urubuquara, um trajeto quase intransponível.

Com idade já na casa dos 50, ele carrega canoas (até médias) e voadeiras todos os dias, de Ipanoré à Urubuquara e vice-versa. E ele diz “Não sei aonde encontro tanta disposição assim. Mas, o corpo recla depois, a noite, quando caio na rede, não me mexo mais”. É um dos que reclamam da “incompetência” e do “desvio do recurso público”, palavras que ele usa, para chamar a situação em que se encontra a construção da estrada. Estava tirando fotos da estrada, e ele viu e me falou: “filma isso aqui e bota no site, alguém precisa cutucar alguém, é disperdício de dinheiro público, alguém está passeando com esse dinheiro, enquanto aqui o povo está sofrendo”.

Enfim, depois de aproximadamente 14 minutos, com nossas duas voadeira em cima do caminhão, descemos em Urubuquara. Ao longo da corrida, é possível ver o quanto ainda precisa ser feito para a obra ser concluida, e pior, muitas sacas de cimento estragadas ao longo da estrada. No caminho, um susto. Muitos sentiram a sensação de o “coração sair pela boca”, estourou um pneu do caminhão.

“Daqui até o destino são aproximadamente três horas” diz Ivo, para animar a turma. Mas, precisávamos comer, já tinha passado meio dia até aí. Fomos comprar peixe à uma comunidade chamada Pinu-pinu, que fica atras de uma ilha, atrás de Urubuquara. De lá, a gente tem a sensação de que o chão treme só por ouvir som da cachoeira. Não poderia perder a chance de conhecer aquele local, subi junto com Higino e Ivo. E lá, me perguntaram se aceitava uma “cuiada” de vinha de pupunha. E quem não aceitaria? Queria experimentar. Humm, demais. Muito bom. Mas, tinhamos que descer e continuar a viagem, por que, ainda tinha muito “chão” pra correr.

Deitei depois de algum tempo sentado, e dormí. Uma chuva forte, me fez acordar. Alguns minutos depois, começamos a passar vários pedrais e canoas subindo. Já estávamos chegando. Em meio à chuva, a vistamos de longe a igreja. “É Iauaretê! – disse um menino que estava de carona com a gente desde Ipanoré. Ainda se chegarmos ao porto, fomos “parados” pelo posto do exército, um militar de capuz preto desceu às pressas até a beira e grito: “tem algum estrangeiro aí?!”. Como não tinha, ele “liberou” a gente, para continuar a viagem.

E chegamos. No porto, Esmeraldo da COIDI e mais algumas pessoas estam nos esperando. E, fomos levados à sede da Coordenadoria, que é um antigo hospital dos salesianos, recentemente doado a eles. A tal da “Santa Casa”. Onde vamos ficar nos próximos dias, enquanto estivermos lá.

No dia seguinte, umas oito da manhã, iniciou-se o seminário. O legal desses seminários, é que a forma como é conduzida, os professores, os gestores, os estudantes, pais de alunos, colocam na mesa os problemas, as necessidades que enfrentam em relação a educação escolar. É falta de material escolar, falta de estrutura, contração de professores e etc…E melhor nisso, é, tudo na lingual. No caso, de Iauaretê, lingual Tukano. Por isso, aos que não são de lá, ou que não entendem, ficam “boiando” o evento tudo. Mas, tradutores não falta. Por isso, a única forma de me situar e acompanhar o andamento dos trabalhos, foi arrumar um tradutor.

Ao longo dos intervalos, procurei conhecer e saber mais sobre, a “cidade de indio”, como Iauaretê é também conhecido, devido, ao grande número de pessoas que compartilham aquele espaço. São pelo menos 4 mil pessoas na sede, e 3 mil nas comunidades próximas. Um local que está entre uma grande comunidade à cidade. Iauaretê reúne pessoas de vários lugares e de etnias diversos, o que faz dele, um povoado multiétnico.

Além de ter pequenos comercios, tem pelotão de exército, hospital, correios e entre esses a missão salesiana, mas, o que reúne jovens dos mais diversos lugares é a escola estadual São Miguel. Uma das mais antigas escolas da região do Rio Negro, foi a primeira a ofertar o ensino médio na região. No discurso de apresentação do que foi e o que é hoje, o atual Diretor disse: “a nossa escola foi pensada pelos missionários, mas, ela foi um espaço importante de formação na região, o que permitiu que chegássemos onde estamos hoje, apesar de ela ter objetivos inicialmente de acabar com as nossas culturas. Hoje, estamos mudando essa realidade e esses objetivos”.

Caminhar nas ruas de Iauretê, é “tropeçar”com a própria história local. Do bairro tradicional São Miguel, dos Tarianos ào bairros mais recentes. As ruínas do antigo internato, mostra as marcas deixadas pelo auge da atuação dos salesianos.

“São Gabriel dos meus sonhos es formosa…”.

 

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Bem ali, próximo do porto fica um pequeno comercio, é do Sr. Floriano e da Dona Terezinha Cardoso. O que faz, dos dois, e principalmente a Dona Terezinha, mergulhar todos os dias nas águas pretas do Waupés. Mas, o que ela tem de  especial assim afinal? É mais que isso, há 42 anos atrás, ná época ainda aos 20 anos, na 8a série, no Colégio São Gabriel da Cachoeira, ela participou de um concurso de poesia. E  nesse concurso ela ficou em primeiro lugar. Mas, o que ela não sabia, é que aquela poesia um ano depois, em 1972, se tornaria o hino de São Gabriel. “Não sabia que a minha poesia seria selecionada para ser o hino do município”- lembra.  E eu, como tantos outros meninos e meninas na época da escola (ensino fundamental), aprendi a cantar esse hino. Só nunca imaginei que um dia iria me encontrar  e conversar com a autora desse hino. E ainda mais, contar a história (um pouquinho) pro mundo.  Hoje, aos 62 anos,  divide seu tempo para ajudar o marido no comércio, e de vez em quando, ir para roça, fazer farinha e tapioca. Olha, que ganhei um kilo com a dona Terezinha.

Lá, nos horários de intervalo do evento, conheci professores e alguns jovens que não perde nenhum intervalo sem se conectar ao mundo virtual. É facebook e WhatsApp. E nesses intervalos, também aproveito para “coletar” depoimentos desses jovens e alguns participantes sobre o seminário. As entrevistas com alguns desses jovens foi bastante divertido, muitos “curta aê”, o termo usado para falar “pausa de gravação”.

Fiz um video de 10 mim do seminário para exibir ao final do evento, e foi muito bom, todo mundo gostou. Mas, disse a eles, que o video completo seria concluído em São Gabriel da Cachoeira. Muitos em suas falas, mostraram a importância desses tipos de eventos, pois, muitos deles, estão começando a participar desse movimento, por isso, todos eles afirmaram que “aprenderam muito durante o seminário”. O que mostra que os própositos dos eventos realizados, estão alcançando seus objetivos, que além de promover a discussão, leva também informação e conhecimento aos participantes, e em especial aos que estão começando a fazer parte da discussão e do debate sobre o tema.

Os dias em Iauaretê estavam chegando ao final. Mas, sair de lá sem conhecer de perto as pedras e ouvi as histórias sobre a Cachoeira das Onças não seria bom. Por isso, ficamos mais um dia para fazer isso. Ir até Aduana, um povoado que fica ao lado oposto de Iauaretê, à margem esquerda da foz Papurí. Do lado Colômbiano. E ver de perto os desenhos nas pedras, os petroglifos.

Sábado, 22/03, chega ao final, a temporada em Iauaretê. É hora de descer para São Gabriel da Cachoeira, encarar na volta a estrada de Ipanoré, e depois de lá é abrir meu livro de viagem: “Não posso me apaixonar” e cair na “estrada”, que são apenas mais seis horas de viagem. Cada viagem, sempre é uma aventura, de  muitas aprendizagens e descobertas.

 

“Se essa Cachoeira falasse, quanta coisa a gente descobriria”

Na véspera de minha primeira viagem para Iauaretê subindo o rio (já foi uma vez de avião), compartilho com os leitores o vídeo sobre a Cachoeira das Onças de Iauaretê- Rio Waupés.

“Se essa Cachoeira falasse, quanta coisa a gente descobriria”

O documentário “Iauaretê, Cachoeira das Onças” (48 minutos, 2006), dirigido por Vincent Carelli, reúne narrativas de lideranças indígenas do alto Rio Negro sobre os significados e ensinamentos contidos nessa paisagem, revelando ainda seu esforço e sua luta para fortalecer e legitimar as tradições indígenas. Fruto de uma parceria entre o Projeto Vídeo nas Aldeias, o Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), o filme constituiu parte importante do processo de tombamento dessa paisagem como patrimônio cultural imaterial, em agosto de 2006.

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Fonte ://www.ifch.unicamp.br/proa/resenhas/resenhailana.htm

Três dias em Taracúa

Em homenagem ao Luis Carlos, que faleceu na volta, depois do Seminário de EEI realizado em Taracúa.

Em homenagem ao Luis Carlos, que faleceu na volta, depois do Seminário de EEI realizado em Taracúa.

Na ida animado e na chegada triste. Era mais um evento voltado para discutir e compartilhar conhecimentos, sabres e práticas sobre a educação escolar indígena. Depois, de dar o pontapé inicial em Itapereira, uma comunidade que fica no médio Rio Negro, duas horas descendo do Porto de Camanaus, de São Gabriel da Cachoeira, era a vez, do pessoal, da região Baixo, Médio e Rio Tiquié fazer o mesmo: Discutir os problemas e elaborar propostas para o Seminário Regional previsto para o mês de maio.

A última viagem que fiz pra lá (Taracúa), foi em dezembro de 2007. De lá pra cá, muita coisa aconteceu, na época, a minha ida pra Taracúa, tinha como objetivo participar de um Curso de formação continuada para professores indígena para o ensino médio. Novo e inexperiente, e único representante da Escola Baniwa e Coripaco Pamáali, na época, buscando caminhos e dando passos iniciais da luta de implantação de ensino médio. Portanto, era conhecer as experiências das escolas estaduais que já estavam funcionando há alguns anos. Em duas semanas, conhecí experiências, histórias de pessoas, e como amarrei amizades. Que se tornaram meus contatos para continuar acompanhando o movimento de lá depois do evento.

Dessa vez, final de fevereiro desde ano, minha missão no evento foi registrar, conhecer as histórias, as experiências em fotos e vídeos. E lá acabei novamente relatando um pouco da experiência que obtive na escola Baniwa, desde os tempos de estudante, até ao de Coordenador, o posto que tive o privilégio de assumir, antes de iniciar uma nova etapa de experiências. E enfim…

Durante os três dias em Taracúa, foi rico em vários sentidos. A volta pra rever os amigos, aprender e contar um pouco da história de luta e conquistas do meu povo em relação ao tema educação escolar indígena. Mas, o que fez, dessa viagem inesquecível, não foi uma coisa boa, ou que não eu não esperava. A perda de um grande amigo e companheiro de luta, que conhecí, exatamente, em 2007, quando participei do evento em Taracúa: Luis Carlos.

Era um domingo, 02/03, depois do almoço, debaixo de uma forte chuva, já umas três da tarde, quando dois botes saíram do porto de Taracúa, num deles (da SEMEC-SGC), ele no meio. Uma viagem que o levou e que seria a última, e sem volta. Dia antes, fomos subir na pedra atrás da antiga casa de hospedagem da Missão Salesiana, admirando a vista linda e trocando as máquinas fotográficas. Eu tirando fotos dele, e ele (uma que vai nesse post) tirando as minhas. Ficamos ali conversando, quando aparece o irmão dele, Tarcísio, para fazer companhia…Na conversa, voltamos no túnel do tempo…”o nosso irmão (Gersen) estou aqui”, ele lembrou, “aqui é o único lugar um presidente já pisou”- comentou Tarcísio. E logo, o sino do jantar nos interrompeu e voltamos.

Na segunda de tarde, quando eu e mais companheiros chagamos no Porto da Queiróz, em São Gabriel da Cachoeira, recebemos a notícia: “O Luis Carlos, desapareceu, num acidente aí acima na volta, até agora, ainda não encontraram o corpo dele”- disse Abraão Mendes, que foi eleito (Tesoureiro), junto com ele, ainda em 2013. O Luis, era o Presidente (da Associação dos Professores Indígenas do Alto Rio Negro – APIARN).

Foi um choque enorme, ninguém estava esperando por isso. Todos, ficaram abalados por essa perda. Muitos, entre eles, eu, são testemunhas, da dedicação e do compromisso que Luis tinha e demonstrou desde na época de professor, e mais recentemente, como representante e liderança indígena.

Os três dias em Taracúa (28/02 a 02/03), ficaram na lembrança e na saudade. Que o meu grande amigo e líderança indígena do rio Negro, descance em Paz.

Retrô 2013: Viagem pro Baixo Rio Negro

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Em setembro, acompanhei o representante do Departamento de Educação (Foirn) e o Prof. Orlando Melgueiro Baré, Coordenador da CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), com a missão de registrar as oficinas e colaborar com um pouco do que conseguí acumular de experiências nos últimos 10 anos, começando como aluno, depois como professor e finalmente no ano passado como Coordenador da Escola Baniwa e Coripaco.

Paramos em quatro comunidades. Cada lugar situação diferente. Dificuldades, problemas e desafios. Todos com um objetivo como como sonho: Educação Escolar própria. Algumas com a escola na comunidade já funcionando, outras apenas ainda como um sonho. E nós, em alguns momentos buscando formas de ajudar na compreensão e direcionamento. Tirando dúvidas, contando experiências, com o objetivo dar a eles um pouco de conhecimento, para eles, próprio construir o que eles querem.

Em questão de idade, de formação e de experiência sou o menor na viagem. E para completar, é a primeira vez que viajo de voadeira, parando em algumas comunidades nessa região. Portanto, um desafio. Nas primeira duas comunidades (Castanheirinho e Livramento II), ainda usei meu “baniwa”para me comunicar com as pessoas. Na terceira e na quarta comunidade, somente português, já que meu Yêgatú serve apenas para entender e o algumas vezes adivinhar o que meus parentes Baré falam.

Cada comunidade um sabor, uma receita e lá está a quinhapira acompanhado sempre de vinho de açai. E histórias sobre lugares, como o por quê da Comunidade Cartucho ter aquele nome, também aprendi na viagem e durante as reuniões, que duravam apenas no máximo dois dias. Pouco para construir ou pelo menos para ajudar no entendimento do que é um Projeto Político Pedagógico Indígena? Muito pouco. Mas, estávamos ali, para dar continuidade de um trabalho já iniciado. O caminho já estava aberto há algum tempo. Mas, em alguns casos, tivemos que voltar atrás, para começar de novo.

Certas pessoas algumas vezes, mesmo longe de casa, te faz sentir como se estivesse lá. Logo na primeira comunidade, o “administrador”em uma viagem a Santa Isabel, na volta, viu uma placa na foz de um igarapé e anotou e trouxe para comunidade o recado deixado. Ele, explica e pergunta aos demais qual o sentido da mensagem (vou tentar recuperar a mensagem). O admirei pelo conhecimento que carrega, estão tão bem atualizado, como qualquer um que está conectado à internet todos os dias. Na outra, achamos o Chiquinho, como é mais conhecido o Francisco Suares, com idade já na casa dos 50, que só pelo jeito de falar e de se movimentar, já faz as pessoas ao redor rir.

Ah..deixo voltar um pouco para a missão. Na fala dos professores, das lideranças comunitárias e dos próprios alunos, dá a entender o quanto querem que a escola seja mais próximo, que respeito e que de alguma forma sirva de instrumento para recuperar aspectos culturais perdidos, ao longo do tempo do contato. Só para se ter idéia, não se escuta mais eles usarem a língua Baré nas comunidades visitadas. Os próprios jovens em seus depoimentos, falam que não sabem mais fazer algum tipo de artesanato. E a escola é um espaço certo ou ideal para a revitalização e transmissão desses saberes?

Na última comunidade visitada, a coordenação da oficina, aproveitou a passagem do Higino Tenório (Tuyuka), para ele também contar a história e da experiência da escola que ele ajudou a montar com um único e objetivo claro: “Fazer o povo Tuyuka voltar a falar a lingua Tuyuka”. Se quisermos valorizar, recuperar nossa cultura, temos que ser “radicais”disse ele. “Época que criamos a escola Tuyuka, apenas idosos falavam a nossa língua. Decidimos então que nínguem falasse mais Tukano em aldeia Tuyuka. Resultado disso, depois de algumas semanas, as crianças começaram a falar a nossa língua”- lembra Higino. E mais, “Se rezarmos “Ave Maria”todos os dias com nossas crianças e jovens, é claro que em menos de uma semana todos eles vão saber rezar”- completa.

Em uma das conversas que tive com o professor Orlando, ele me fez a pergunta: “O que te faz dizer que uma viagem para fora de sua região (no caso Içana) ser boa ou até marcante?

I Fórum da Internet no Brasil: A internet também é minha.

Abertura Oficial do I Forum de Internet no Brasil (Foto: Dan Baniwa)

Da cabeça do cachorro para São Paulo. Motivo? Participar do I Fórum da Internet no Brasil, que aconteceu na Expo Center Norte, entre os dias 13 e 14 de outubro. Na companhia do Daniel Benjamim, companheiro de outras viagens ao sudeste do país, e um dos mais ativos blogueiros indígenas do Rio Negro.

O evento foi uma iniciativa do Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI), com múltiplos objetivos, mas, a principal, criar um espaço de discussão os desafios atuais e futuros da internet. O que levou a vários segmentos da sociedade como Governo, Terceiro Setor, Setor Empresarial, Indígenas representantes de vários movimentos (Cultura Digital Indígena) e outros a participarem do fórum.

Os assuntos discutidos durante os dois dias foram divididos em seis trilhas (abaixo),cada participante fez sua escolha voluntária para participar da roda de discussão de interesse.

1. LIBERDADE, PRIVACIDADE E DIREITOS HUMANOS

-Proteção dos direitos humanos na rede

-Garantia de direitos e liberdades na Internet

-Privacidade e proteção de dados pessoais

-Direitos das crianças e adolescentes

-Liberdade de Expressão

 2. GOVERNANÇA DEMOCRÁTICA E COLABORATIVA

-Governança internacional da Internet: modelo e locus da governança

-Internet como serviço de valor adicionado

-Organização da Internet no Brasil

-Dinâmica e transparência do Comitê Gestor

 3. UNIVERSALIDADE E INCLUSÃO DIGITAL

-Regime jurídico e universalização

-Infraestrutura e redes

-Programa Nacional de Banda Larga (PNBL)

-Qualidade da banda larga

-Medidas de apoio à inclusão digital

-Espectro aberto e democratização do acesso

 4. DIVERSIDADE E CONTEÚDO

-Acesso ao conhecimento e à cultura

-Incentivo à produção nacional e regional de conteúdos para a Internet

-Garantia da diversidade cultural, de gênero e étnico-racial

-Produção e compartilhamento de conteúdos

-Publicidade na rede

-Propriedade intelectual no cenário digital

-Modelos de sustentabilidade

 5. PADRONIZAÇÃO, INTEROPERABILIDADE, NEUTRALIDADE E INOVAÇÃO

-Defesa dos padrões abertos

-Neutralidade na rede

-Estímulos e garantias para a inovação

-Interoperabilidade e os desafios da mobilidade

-Acessibilidade para portadores de necessidades especiais

-Espectro aberto

 6. AMBIENTE LEGAL, REGULATÓRIO, SEGURANÇA E INIMPUTABILIDADE DA REDE

-Marco Civil da Internet

-Tecnologias e legislação sobre crimes na Internet

-Guarda de logs

-Equilíbrio entre segurança, liberdade e privacidade

-Norma 4 e regulação da Internet (serviço de telecomunicações ou serviço de valor adicionado)

-Governança e regulação do espectro

A internet também é minha. “Ter acesso a rede mundial é um direito universal, por isso, deve e precisa chegar aos que vivem nos mais remotos lugares deste país. Se não chega nas periferias de São Paulo, imagine em outros lugares distantes. A internet precisa chegar para todos, e chegar com qualidade!”-disse Sergio Amadeu da Silveira, professor da UFABC e Conselheiro do Comitê Gestor de Internet no Brasil, representante do Terceiro Setor.

A presença Indígena na rede mundial ainda é pequena, mas, crescente. E são os que menos acessam a rede, por não chegar às comunidades. “A sociedade precisa saber que existimos que os povos indígenas também estão na rede, e que tem total capacidade de manusear e usar as novas tecnologias”- disse Anapuaka Muniz, Líder indígena do Movimento Cultura Digital Indígena.

O Fórum realizado nos dias 13 a 14 de outubro foi apenas o I (Primeiro), serão realizados próximos encontros de consulta e discussão sobre os desafios atuais e futuros da internet no país. Foram amarradas várias propostas e o documento final será disponibilizado ao publico, segundo a coordenação do evento.

Fico grato pelo privilégio de ter participado do evento, graças ao esforço de amigos e companheiros (as) usuários da rede, que merecem meus agradecimentos, entre os vários, vão em destaque a Gil (Gilmara do ISA-SGC), Mariana (Secretária Executiva do evento), Professora Mônica (GESAC-AM). Por vários motivos, uma delas a presença no evento que me levou a rever alguns amigos do I Simpósio de Uso da Web nas Aldeias Indígenas realizado no final de 2010, que foi importante para trocar experiências e atualizar as novidades sobre alguns projetos, e o mais legal, fazer parte da equipe indígena no fórum.

A discussão está apenas começando. Lembre-se, a internet também é sua. A sua participação nessa consulta é importante. Internet de qualidade é um direito seu!

Mais informações acesse a página oficial do Fórum: http://forumdainternet.cgi.br/