Em Santa Isabel do Rio Negro, na semana que vem (17/11)

Foto reprodução capa facebook da FOIRN

Foto reprodução capa facebook da FOIRN

A partir da segunda-feira, próxima, 17/11, lideranças de todas as associações indígenas do Rio Negro, representantes das 5 Coordenadorias Regionais da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), vão se reunir em Santa Isabel do Rio Negro, para discutir vários temas de interesse (ver a programação aqui: http://zip.net/bdpZjg).

E estarei lá pra atualizar e compartilhar os principais desdobramentos e encaminhamentos.

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Danças tradicionais no Rio Negro

Grupo de danças da Comunidade Ilha das Flores - Alto Rio Negro

Grupo de danças da Comunidade Ilha das Flores – Alto Rio Negro

As danças tradicionais estão de volta. E o mais importante e bonito de se ver, é o que os mais pequenos estão no meio dos mais velhos, aprendendo a dar passos, ou afinando as flautas tradicionais.

Não tive a oportunidade de aprender a tocar uma flauta desde cedo. Mas, através de escola indígena aprendi a tocar vários tipos de flautas (Baniwa).

E cada vez que participo ou aprecio uma apresentação de danças me emociono. E o mais bonito é que cada região, cada povo, tem suas danças e músicas diferentes uma da outra, apesar de alguns instrumentos musicais serem os mesmos.

Em Cartucho – Médio Rio Negro

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A minha primeira viagem como integrante da equipe de Comunicação da FOIRN à região do Médio Rio Negro foi em setembro de 2013. Daquela vez, a missão foi acompanhar e contribuir na discussão dos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas de ensino fundamental em quatro comunidades indígenas, que pertencem à área de abrangência do município de Santa Isabel do Rio Negro. E a última parada da viagem de 2013 foi em Cartucho – uma comunidade que fica aproximadamente uma hora e meia de Santa Isabel.

Quase um ano depois, na primeira semana de agosto de 2014, voltei à Cartucho, para participar do Seminário Comemorativo de 21 anos da associação ACIR (Associação das Comunidades Indígenas e Ribeirinhas), que congreja 13 comunidades.

Em três dias de evento, grandes líderes que tiveram um árduo e papel fundamental da consolidação do movimento indígena na região desde o início da década de 90, relataram suas lutas, momentos difíceis, medos e conquistas. Entre estes, estavam Braz França e Libório Diniz. Os dois, lembraram em seus relatos nomes de lideranças que também estiveram no grupo de lideranças que também foram importantes, como o Moura Tukano, que faleceu já neste ano.

Uma verdadeira aula de história do movimento indígena para mim, e como tantos jovens que estavam ali para anotar e ouvir.

“Não podemos deixar de lutar pelos nossos direitos”- disse Liborio, um dos fundadores da ACIR, há 21 anos.

“Fui várias vezes ameaçado pela luta pelos direitos, que nós indígenas tinhamos acabado de conquistar na Constituição Federal. Na época (inicio dos anos 90), nem o prefeito de Santa Isabel sabia que tinhamos conquistado direito na CF, em uma reunião que realizamos, ele disse que nos estávamos inventando e que isso ia morrer aí mesmo”-lembra Braz.

Depois dos relatos das lideranças históricas, passamos a conhecer a história da associação, através de seus ex-diretores presidentes. Cada um relatou os principais desafios e dificuldades no período em que estiveram à frente da associação.

Marivelton Rodriguês Barroso atual  (2013-2016) Diretor da FOIRN de referência para a região do Médio e Baixo Rio Negro disse que, para fortalecer o movimento indígenas e principalmente as associações, é fundamental a participação das lideranças que estiveram desde o inicio, para que os mais jovens, conheçam quais foram os principais desafios e dificuldades que enfrentaram e como isso aprender, e como também por outro lado, conhecer a história da luta pelos direitos.

Ainda houve um exercicio de tradução de alguns termos da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) para a língua Nheengatu. O trabalho é parte do trabalho de campo dos estudantes do Curso Básico em PNGATI, realizado pela FOIRN em parceria com o ISA e apoio financeiro do PDPI. Vamberto Placido é um dos 25 participantes do Curso, e foi ele quem coordenou as atividades em Cartucho. Cinco grupos de trabalhos foram formados para essa atividade, que ao final, apresentaram os termos em Nheengatu. Um trabalho que deverá ser aprimorado com o tempo. Pois, quanto mais pessoas começarem a falar e trocar idéias sobre elas, o entendimento vai também se aprimorando. Vamberto foi bastante elogiado pelos participantes pelo trabalho.

Na noite de despedida foi apresentada a “Maniaka Murasi” que é a mesma coisa “Dança da Mandioca”. Uma dança com musica adaptada que fala sobre os conhecimentos tradicionais relacionadas à roça e a vida na comunidade. Desde os mais pequenos até aos mais velhos. “Uma maneira de valorizar a cultura que alunos e professores juntos com os conhecedores estão desenvolvendo”- disse, a presidente da ACIR.

A cultura para ser trasmitida para novas gerações, deve ser praticada, vivida. Os mais novos, vão aprendendo e vivendo.

E eu, vou aprendendo e conhecendo a diversidade e a riqueza cultural que nós povos indígenas do Rio Negro temos. Cada viagem, carrego de volta uma bagagem de conhecimento e novas descobertas.

Foto criada em 2014-09-02 às 21.51 #4

Conselho Kaali

Mendzamitsa, 20 a 24 ka agosto, whaa Baniwanai wawakeetakawa Ttonowiriko kaako karo whaa iakottinai kanakaiperi walhio oo kanakaiperi wadeenhika weemakawaliko. 

Wakaitepe wapidzawaaka koadzokeena poadzaka oo waakatsawa wapeedzalhewa linako matsiaka peemaka padzakalerio wakeñoakadzami lhia wawakeetakakawa wapidzawaaka wadeenhikaro. Kadzo ideenhikhettiapani nheette ikadzeekataakakhetti nako tsakha. 

Nakaitepe whema linako lhia ideenhikhetti  nanakodali nhaa wanheekhe wadeenhixoopa nheette weemaxoopa hekoapiali, kadzo kiniki, nheette phiome nhaa linakoapaninaa nheette lideenhikanaa. Kanakaidali walhio wattaitakaro wakhedzakota lhia iwapiñeetakhetti nheette iakotti linakodali lhia kanakaika wamatsiataka weemakawa nheette wadzeneetaka naawa nhaa ianhekhetti nalhio nhaa walimanai. 

Kadzodali ima wakeñoa Conselho Kaali kaakokarodawa whaa phiome nhaa iakotti, wattaitakaro wadeeka lipeedzalhewa lhia ideenhikhetti wapidzawaaka whaa wakoenai.

Kaako tsakha whaa linako attiapani, ideenhikhetti mendzamidalitsa ikeñoa wemakawaliko. Da hore iakokitti. 

Em Barcelos nos dias 14 a 16 de maio.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

Benjamim Baniwa, presidente da Associação Indígena de Barcelos- ASIBA.

O Seminário que aconteceu em Barcelos reuniu 50 representantes de 12 comunidades indígenas do município, incluindo professores, pais, alunos e lideranças Baré, Baniwa, Tukano, Caxinawá, Tuyuka, Macuxi, Ticuna e Arapasso, além de integrantes da Coordenadoria das Associações Indígenas do baixo Rio Negro (CAIMBRN), Associação Indígena de Barcelos (Asiba) e Setor de Educação Escolar Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Barcelos.

Leia mais sobre o evento aqui

FOIRN 27 anos

Dia 30 de Abril de 2014 – 27 Anos de Lutas e Conquistas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN.

Diretor Renato da Silva Matos lê a Carta de comemoração de 27 (abaixo) anos durante a cerimônia. Foto: José Miguel Nieto Olivar

Diretor Renato da Silva Matos lê a Carta de comemoração de 27 (abaixo) anos durante a cerimônia. Foto: José Miguel Nieto Olivar

No dia 30 de abril de 1987 o ginásio da Diocese de São Gabriel da Cachoeira foi o palco onde se reuniram mais de 400 lideranças indígenas que vinham desde os anos 1970 se organizando e discutindo os direitos dos povos indígenas da região do Rio Negro. Neste evento que juntou diferentes etnias, povos, línguas, tradições e trajetórias históricas foi fundada a FOIRN. Nessa reunião estavam presentes não somente nossos parentes, mas também autoridades do Estado Brasileiro. Não que a presença de pessoas de contextos diferentes aos nossos fosse novidade. Nós indígenas do Rio Negro temos uma história de resistência à colonização desde a chegada de portugueses e espanhóis e mantemos nossa identidade indígena até hoje. A fundação da FOIRN marca mais uma dessas fases de resistência e foi com os motes de Terra e Cultura que fomos buscar nossos direitos.

A FOIRN foi criada para que nós tenhamos nosso próprio meio de expressão e reivindicação. Aqui nós falamos por nós mesmos, sem intermediários ou atravessadores.

Desde 1987 muitas ações foram concretizadas. Temos hoje Terras Indígenas demarcadas, a educação escolar indígena tem exemplos positivos, as línguas indígenas continuam a ser faladas e, principalmente, hoje mostramos que ser indígena é motivo de orgulho, pois nossa história marca a diversidade, a pluralidade, a ampliação dos conhecimentos e caminha em conjunto com um enorme patrimônio social e natural. Afinal, a história dos povos indígenas do Rio Negro não separa o ser humano do seu ambiente, das águas, das florestas, das montanhas e dos animais. Criamos desta forma riquezas que vão além de cifrões, de números. Nossa riqueza é maior que o PIB, ela é todo esse território de qual o mundo precisa para que seu clima mantenha as condições de vida do ser humano, ela traz concepções filosóficas, mitológicas e ecológicas sobre uma das regiões com a mais rica biodiversidade do mundo, a Floresta Amazônica. Produzimos e conservamos um sistema agrícola de ampla diversidade, resistente a pragas e que não carece de venenos. Temos, portanto, enormes contribuições ao nosso mundo e lutamos para que estas sejam reconhecidas.

Este reconhecimento é o que guia os trabalhos da FOIRN, reconhecimento de que os povos indígenas habitam esta região há milênios e que contribuem enormemente ao nosso país e ao mundo. No entanto, isso somente acontece através de grandes esforços, é por isso que a luta faz parte do nosso cotidiano. Lutamos pois há interesses que prefeririam destruir nossos territórios para dar lucro para quem já está soterrado de dinheiro. Temos que lutar pois somos ameaçados com ideias que menosprezam e querem uniformizar nossos conhecimentos milenares. Lutar porque aqui já queimaram malocas e demonizaram nossos costumes. Lutar pois há incentivos para quem vende cachaça e não para quem cultiva o bem viver na comunidade. Lutar pela nossa cultura e território.

Esta luta tem mais de 27 anos, mas há 27 anos trabalhamos com essa ferramenta garantida pela Constituição Federal de 1988, que é a associação indígena. Aqui na FOIRN propomos e acompanhamos as políticas públicas governamentais. Assim, construímos no dia a dia uma ponte entre a comunidade mais distante e o Estado Brasileiro. Fazemos as reivindicações de nossos parentes ecoarem nos palácios do governo e chegarem a quem pode tomar decisões que garantam nossos direitos.

Apesar de toda esta trajetória nos últimos 27 anos, ainda recebemos críticas sem fundamentos de que as terras indígenas trazem atraso e impedem o progresso. Lembramos para estas críticas que é em nome desse progresso que parentes no Mato Grosso do Sul são mortos por proprietários de grandes fazendas. É este progresso que polui nosso mundo e faz com os que mais ricos fiquem mais ricos e os mais pobres mais pobres. As Terras Indígenas são, ao contrário disso, reais exemplos de progresso. Nelas ainda se encontra ar puro, água, espaço, liberdade e reciprocidade. Nelas se pode viver sem nos submetermos a patrões e donos de negócios que querem só nossa força de trabalho e pagar o mínimo possível para que possam lucrar o máximo.

Convidamos assim vocês para refletirem sobre o nosso mundo de hoje, pensarem como podemos melhorá-lo e que estratégias podemos traçar em conjunto, pois essa história de 27 anos traz uma marca importante dos nossos ancestrais, a coletividade. Nossa instituição sempre foi e continuará de portas abertas para que nossos trabalhos sejam conhecidos, analisados e melhorados.

Assim como não deixamos de sermos indígenas por usarmos novas tecnologias ou falarmos português, não deixaremos que novas táticas de colonização acabem com nossos saberes e práticas milenares. Saibam suas histórias, procurem saber a versão não somente dos dominantes, mas também a versão daqueles que resistem, que lutam para que injustiças não sejam perpetuadas. Uma grande parte dessa história de resistência está aqui, ela é incorporada pela FOIRN, está na nossa maloca, nas nossas lideranças, nas nossas comunidades, roças, em danças de cariçu, em rodas de caxiri e também em nossos livros, arquivos e vídeos. Conheçam esta história.

O parabéns a FOIRN e a todos que contribuíram para sua existência é na verdade um parabéns à diversidade, à pluralidade e à tudo que nossos povos indígenas do Rio Negro representam.

 

Publicado no blog da FOIRN (www.foirn.wordpress.com), em 30 de Abril de 2014.