Conhecendo aos poucos esse imenso Rio Negro

Na companhia da dona Jacinta de Assis, liderança da comunidade Balaio, no Rio Negro, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira

Na companhia da dona Jacinta de Assis, liderança da comunidade Balaio, no Rio Negro, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira

A ida pra participar da 1a etapa local da Conferência Nacional de Política Indigenista na comunidade Juruti – Alto Rio Negro, aproximadamente 2 horas e meia viajando, subindo o Rio Negro, muito perto da linha de fronteira do Brasil com a Venezuela e Colômbia, me possibilitou mais uma vez (segunda vez que vou para Juruti, e terceira ao alto Rio Negro), conhecer ainda mais e melhor os povos Baré e Werekena que predominam a região, além de também compartilharem esse território com outras pessoas das demais etnias no Rio Negro.

“Sete nove zero entrando na freqüência!”. Odilene, a comunicadora do Alto Rio Negro.

Hoje o meio de comunicação mais usada na região, a radiofonia não somente serve como meio de passar e receber informações, mas, é também um instrumento de valorização das línguas indígenas do Rio Negro. Para conversar com as comunidades não só exige a responsabilidade e conhecimentos técnicos, mas, também o compromisso e o respeito a diversidade lingüística e cultural dos 23 povos da cabeça de cachorro, é o que a Odilene Silva Máximo, de 24 anos de idade, faz, nas três horas em que está na radiofonia. “Gosto de falar com as pessoas na radiofonia, é o que me faz acordar feliz todos os dias”-revela a comunicadora, em meia hora de conversa que Nodakaroda teve com ela, no telecentro da FOIRN em São Gabriel.

Odilene Máximo, comunicadora da FOIRN. (foto: Divulgação)

São três horas por dia falando com as comunidades, passando e recebendo mensagens para mais diversos destinatários e objetivos. É isso que faz com que ela acorde sempre feliz e animada todos os dias, de segunda a sábado em São Gabriel da Cachoeira. Ela e a radiofonia o meio de comunicação mais usado na cabeça de cachorro, como é mais conhecido a região do Alto Rio Negro.

Odilene Silva Máximo, que em muitas vezes se confunde com “Rosilene, Darlene, Dilene”, pelos operadores de rádio da região, nasceu e foi criada na Ilha de Acará, que se confunde com as muitas ilhas do baixo Rio Negro, que para ser localizado, precisa ter como referencia a ilha de Tapajós.  Pai da etnia Baré, ela é a única mulher dos três filhos do Sr. Hermogenes e dona Irene da Silva. Nascida, em 05 de maio de 1987, começou a freqüentar a escola como seus poucos anos de idade, e durante esses últimos anos, passou por alguns colégios de São Gabriel, até terminar seu ensino médio no IFAM-Campus São Gabriel.

Teve que vencer três concorrentes para chegar onde está hoje, no Departamento de Comunicação da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), onde divide seu tempo, viajando com a equipe nas comunidades para registrar eventos, cuidar da Rede de radiofonias instaladas nas mais diversas comunidades da região e ainda apresentar o Programa Vozes do Rio Negro, na FM, nos dias de terça-feira de cada semana. Espaço onde são levados a população de São Gabriel, notícias sobre as atividades da FOIRN, do Movimento Indígena, a Cultura dos 23 povos da região e muita informação.  E ainda mantem um programa na Radio Municipal, mas, apresentado pelo Nivaldo, que também atua junto com a Odilene no SETCOM da FOIRN.

Como as Estações de Radio Fonia foram instaladas na Região do Alto Rio Negro.

Radiofonia se tornou nos últimos 10 anos, o meio de comunicação mais usada na região do Rio Negro. Na foto aluno da Escola Pamáali, Ronaldo Rafael, usando a radio para conversar com sua mãe. (Foto: Carol da Riva)

Depois da criação da FOIRN em abril de 1987, foi necessário que fossem desenvolvidas atividades para que realmente os Povos Indígenas da Região pudessem garantir o futuro no seu território,  tanto fisicamente como culturalmente. Uma das primeiras grande bandeira de luta e motivo de criação da Federação foi a demarcação das terras, que com esforço e por meio de parcerias estabelecidas, foi conquistado.

É possível perceber a emoção e o olhar dos principais líderes indígenas do Rio Negro, ao contarem essa luta no vídeo institucional. Como terra demarcada, precisou criar projetos de desenvolvimento da região, que a FOIRN vem fazendo ao longo dos mais de 20 anos. Entre eles, o Projeto de Fiscalização das terras demarcadas, que trouxe em sua maioria as estações de radiofonia para as comunidades da região.  Segundo as informações da equipe de comunicação, as primeiras radiofonias foram instaladas a partir de 1994. De lá pra cá, foram instaladas mais de 100 estações.

Apesar de ser um número grande, ainda não é suficiente para as mais de 700 comunidades do Alto Rio Negro. Segundo, a operadora do 790 (FOIRN), ainda há dificuldades para levar as informações para todas as comunidades da região. O que dificulta a comunicação com as bases. E hoje, existe um número acima de 15 de radiofonias não funcionando, com problemas ou danificados. E a única forma de resolver ou concertar esses equipamentos quando danificados é por meio da parceria que a FOIRN tem com o Distrito Sanitário Especial Indígena – DSEI, por concerto ter na cidade um custo alto. E outro motivo é a falta de capacitação (em manutenção ou em cuidados necessários com os equipamentos) do pessoal que é responsável pelas rádios nas comunidades, que geralmente são os Agentes Comunitários Indígenas de Saúde, por ser um meio de contato importante para manter a equipe de saúde informada sobre a situação de saúde na comunidade.

Frequência das Línguas Indígenas do Rio Negro.

Se você chegar na sala de radio da FOIRN em São Gabriel, a primeira coisa que irá ouvir é gente falando nos mais diversos dialetos da região.  Nheengatu, Tukano e Baniwa são as línguas mais usadas nesse meio de comunicação. Apesar de estar escrito na sala “Deixar seu recado em forma escrita. A Direção Agradece!”, as pessoas preferem falar pessoalmente com o destinatário e ainda na língua. Só entende quem é falante da língua. E nessas ocasiões, a Odilene, apenas fica vendo, principalmente quando a língua é Baniwa ou Tukano.

Há certos momentos alguns usuários desse meio exageram em expressões, tipo falando coisas imorais ou coisas que não deveriam falar. Especialmente quando não é horário da FOIRN, como o 790 entra apenas das 8hs a 9h30 da manhã e 14hs a 15h30 da tarde, a responsável não consegue acompanhar tudo o que é falado na freqüência. Pois, algumas estações chegam a funcionar desde cedo e até mais tarde, de todos os dias, que é possível perceber quando está numa comunidade onde existe radiofonia funcionando, e por ser usado por qualquer um da comunidade, o que causa problemas conseqüentemente. Mas, que a equipe de comunicação sempre está ressaltando a importância dos cuidados, da responsabilidade de uso destes equipamentos. “Quando entramos na freqüência procuramos sempre falar da importância dos cuidados e da responsabilidade que os operadores devem ter com o equipamento e o uso adequado, como por exemplo, respeitar os horários”-disse .

Acesso a internet na escola Pamáali(foto: Carol da Riva)

Hoje, esse meio de comunicação ainda é o mais usado na região, mas, com a chegada de alguns pontos de internet, os mais jovens começaram também a se adequar com essa nova tecnologia. E que ao longo dos próximos anos tem a crescer, pois, cada vez mais o interesse pelas novas tecnologias é grande. E por facilitar a comunicação e a busca de informações, como envio de e-mails, conversas instantâneas não só com pessoas da região, mas, de outros lugares distantes. Mas, ainda há dificuldades não só no conhecimento de uso, mas, também no acesso a essas tecnologias.

Enquanto a internet não domina a região, as pessoas vão continuar usando a radiofonia e chamar “790 na escuta! É a Rosilene que está falando?!”, “790 na escuta, quem fala aqui é a Odilene, câmbio”.

Encerrou hoje, sábado, 23 de julho o curso de Magistério Indígena II em São Gabriel da Cachoeira

Alunos do Curso Magistério Indígena II, Pólo Baniwa-Coripaco (foto: Ronaldo G)

Os alunos de curso de Magistério Indígena II, como eu, chegaram no inicio de junho aqui em São Gabriel, desde lá começaram as aulas. Os Pólos Baniwa-Coripaco, Nheengatu, Tukano, Hupda desceram para fazer o curso na cidade, somente o Pólo Yanomami ficou na comunidade. Depois, de quase dois meses de aulas, encerraram hoje, 23 de julho, as atividades. A próxima e a última está prevista para o inicio do próximo ano.

Mas, o encerramento oficial acontece no final da próxima sema, pois, começará na próxima segunda, um seminário organizado pela SEDUC, como objetivo de avaliar a etapa e apontar caminhos para os próximos passos, como a última etapa, segundo os coordenadores do curso.  O seminário faz parte das atividades programadas para a etapa do curso.

Alto Rio Negro: Línguas

No Noroeste Amazônico são faladas mais de 20 línguas, de três grandes famílias lingüísticas: Tukano Oriental, Aruak e Maku. As línguas da família Tukano Oriental – diz-se assim para diferenciá-los dos tukano ocidentais, que habitam nas fronteiras entre Colômbia, Equador e Peru – predominam no Uaupés e no Apapóris, enquanto os falantes da família Aruak são mais comuns no Içana. Algumas línguas, como o Tukano e o Baniwa, são faladas por alguns milhares de pessoas, e outras, como o Dow, por apenas poucas dezenas.

Existem pelo menos 16 diferentes línguas classificadas como Tukano Oriental. No Brasil, seus falantes habitam toda a bacia do Rio Uaupés e, em grande parte dessas populações, ocorre uma convergência entre as regras exogâmicas e os grupos lingüísticos, de tal modo que os grupos afins (com os quais se pode casar) são falantes de outras línguas. Tal dinâmica resulta em um multilingüismo característico da região, em que numa mesma comunidade muitas vezes se fala mais de uma língua indígena, além do Português e do Espanhol. Algumas etnias, ou parte delas, deixaram de falar suas línguas de origem, adotando outros idiomas indígenas. Tal é o caso dos Tariana do Uaupés, originalmente falantes de uma língua aruak, mas que atualmente falam Tukano; ou dos Tukano que foram para o Médio Rio Negro e adotaram o Nheengatu.

A principal língua da família Tukano Oriental é o Tukano propriamente dito. Ela é usada não só pelos Tukano, mas também pelos outros grupos do Uaupés brasileiro e em seus afluentes Tiquié e Papuri. Na medida em que há várias línguas distintas, o Tukano passou a ser empregado como língua franca, permitindo a comunicação entre povos com línguas paternas bem diferenciadas e, em muitos casos, não compreensíveis entre si. Em alguns contextos, o Tukano passou a ser mais usado do que as próprias línguas locais.

As outras línguas dessa família são faladas por populações menores, predominando em regiões mais limitadas. É o caso do Kotiria e Kubeo no Alto Uaupés, acima de Iauareté; do Pira-tapuya do Médio Papuri; do Tuyuka e Bará do Alto Tiquié; e do Desana de comunidades localizadas no Tiquié, Papuri e afluentes.

Os Aruak são representados principalmente pelos Baniwa, Coripaco, Baré, Warekena e Tariana. Os últimos, como mencionado, falam principalmente o Tukano, em consequência do convívio de séculos com os povos Tukano no Médio Uaupés. Os Baré também não falam mais sua língua original. Em decorrência do contato com missionários e a colonização, adotaram a Língua Geral (o Nheengatu). Forma simplificada do Tupi antigo, o Nheengatu foi adaptado e amplamente difundido pelos primeiros missionários jesuítas. Atualmente, esta língua representa uma marca de sua identidade cultural.

A designação Maku se refere a seis línguas distintas de povos que ocupam o território mais extenso do Alto Rio Negro, estando os grupos falantes de quatro dessas línguas no Brasil. A família lingüística Maku nada tem a ver com as famílias tukano ou aruak, se excetuarmos alguns evidentes e poucos empréstimos. Praticamente todos os Maku são falantes de suas línguas. Devido à proximidade dos Tukano, os Maku da área do Uaupés também dominam línguas tukano, dando curso ao multilingüismo da região.

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Fonte: pib.socioambiental.org

Povos do Rio Negro: Especializações e trocas

Foto: Reprodução/pib.socioambiental.org

Por razões ecológicas, sociológicas e simbólicas, vigoram na região especializações artesanais (produção especializada de certos artefatos por diferentes etnias) que definem uma rede formalizada de trocas inter-comunitárias.

Os Tukano são conhecidos por seus bancos de madeira, os Desana e os Baniwa por seus balaios, estes últimos também pelos ralos de mandioca, os Kubeo pelas suas máscaras funerárias, os Kotiria (dizem alguns) por seus tipitis, os Maku pelas flautas de pã, o curare e os aturás de cipó. No caso dos artefatos de arumã, também há especialistas. No rio Tiquié, os Tuyuka e Bará se destacam como os melhores construtores de canoas, artigo de primeira necessidade para todas as famílias e que alcançam um bom valor de troca.

Hoje muitas comunidades também se dedicam à fabricação de artesanato para a venda ou troca por produtos industrializados. Com as missões salesianas, as mulheres passaram a se dedicar à fabricação, para a venda, de redes, tapetes e bolsas de tucum, que aprenderam nos colégios com as freiras, ou com ex-alunas e professoras índias que dão aulas nas comunidades.

No Içana há atualmente um aumento da produção de balaios e urutus para venda, muitas mulheres baniwa também se dedicam a esta atividade. Há outros locais onde se encontram especialistas na confecçãode cerâmica, objetos de pau-brasil e bancos rituais.

 

Fonte: pib.socioambiental.org

Mais um final de semana em São Gabriel

Sábado de novo? Não é porque não quero que seja, mas,  como foi tão rápido a semana! Nessa semana que termina me dediquei as aulas do Magistério Indígena (Pólo Baniwa), na diagramação dos materiais produzidos e nos momentos vagos fiquei cuidando do blog da Pamáali e das redes sociais (face  e twitterda escola) e os meus também. Comentando, curtindo e fazendo alguns posts.

Na semana que vem estarei participando do Seminário de discussão da criação Instituto de Conhecimento dos Povos Indígenas do Rio Negro organizada pelo Instituto Socioambiental em parceria com a FOIRN e outras instituições parceiras.  A semana será especial, porque vou completar mais um ano de vida. Meu Aniversário será na quarta-feira, dia 6.

Que venha a próxima semana!