Outra vez: Santa Isabel do Rio Negro

Pôr do sol no Rio Negro (Baixo Rio Negro).

Pôr do sol no Rio Negro (Baixo Rio Negro).

Após a etapa local da Conferência Nacional de Política Indigenista, realizado em Juruti – Alto Rio Negro, no início do mês de maio (ver post abaixo), dessa vez o evento aconteceu em Santa Isabel do Rio Negro, um dos três municípios do Rio Negro (São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos – nessa ordem, descendo o rio Negro).

Mais uma vez, o evento aconteceu durante três dias, mais de 200 pessoas marcaram presença, estes, vindos das mais diferentes comunidades, representantes de organizações Indígenas.

O principal tema de discussão foi sobre os Direitos Indígenas conquistados na C.F 1988, violados e ameaçados pelos interesses econômicos. Uma oportunidade para as lideranças mostrarem sua indignação a respeito disso, e melhor, elaborar propostas para os governos municipal, estadual e federal sobre, como querem que passem a ser tratados de agora em diante.

Enfim….muitas propostas foram levantadas e encaminhadas, especialmente o pedido da demarcação urgente das Terras Indígenas em processo, localizadas na região do Baixo Rio Negro. Para saber mais como foi leia a notícia da conferência no blog da FOIRN. 

A viagem de volta, como na descida foi de voadeira. Uma oportunidade de ver e rever lugares, e pessoas conhecidas em algumas comunidades onde tivemos a oportunidade de fazer uma parada (em Cartucho – para assar peixe e almoçar).

Muito bom viajar pelo Rio Negro. Cada viagem uma alegria, uma emoção, uma aventura.

Subindo o Rio Negro, de Santa Isabel para São Gabriel da Cachoeira

Subindo o Rio Negro, de Santa Isabel para São Gabriel da CachoeiraPess

Retrô 2013: Viagem pro Baixo Rio Negro

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Em setembro, acompanhei o representante do Departamento de Educação (Foirn) e o Prof. Orlando Melgueiro Baré, Coordenador da CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), com a missão de registrar as oficinas e colaborar com um pouco do que conseguí acumular de experiências nos últimos 10 anos, começando como aluno, depois como professor e finalmente no ano passado como Coordenador da Escola Baniwa e Coripaco.

Paramos em quatro comunidades. Cada lugar situação diferente. Dificuldades, problemas e desafios. Todos com um objetivo como como sonho: Educação Escolar própria. Algumas com a escola na comunidade já funcionando, outras apenas ainda como um sonho. E nós, em alguns momentos buscando formas de ajudar na compreensão e direcionamento. Tirando dúvidas, contando experiências, com o objetivo dar a eles um pouco de conhecimento, para eles, próprio construir o que eles querem.

Em questão de idade, de formação e de experiência sou o menor na viagem. E para completar, é a primeira vez que viajo de voadeira, parando em algumas comunidades nessa região. Portanto, um desafio. Nas primeira duas comunidades (Castanheirinho e Livramento II), ainda usei meu “baniwa”para me comunicar com as pessoas. Na terceira e na quarta comunidade, somente português, já que meu Yêgatú serve apenas para entender e o algumas vezes adivinhar o que meus parentes Baré falam.

Cada comunidade um sabor, uma receita e lá está a quinhapira acompanhado sempre de vinho de açai. E histórias sobre lugares, como o por quê da Comunidade Cartucho ter aquele nome, também aprendi na viagem e durante as reuniões, que duravam apenas no máximo dois dias. Pouco para construir ou pelo menos para ajudar no entendimento do que é um Projeto Político Pedagógico Indígena? Muito pouco. Mas, estávamos ali, para dar continuidade de um trabalho já iniciado. O caminho já estava aberto há algum tempo. Mas, em alguns casos, tivemos que voltar atrás, para começar de novo.

Certas pessoas algumas vezes, mesmo longe de casa, te faz sentir como se estivesse lá. Logo na primeira comunidade, o “administrador”em uma viagem a Santa Isabel, na volta, viu uma placa na foz de um igarapé e anotou e trouxe para comunidade o recado deixado. Ele, explica e pergunta aos demais qual o sentido da mensagem (vou tentar recuperar a mensagem). O admirei pelo conhecimento que carrega, estão tão bem atualizado, como qualquer um que está conectado à internet todos os dias. Na outra, achamos o Chiquinho, como é mais conhecido o Francisco Suares, com idade já na casa dos 50, que só pelo jeito de falar e de se movimentar, já faz as pessoas ao redor rir.

Ah..deixo voltar um pouco para a missão. Na fala dos professores, das lideranças comunitárias e dos próprios alunos, dá a entender o quanto querem que a escola seja mais próximo, que respeito e que de alguma forma sirva de instrumento para recuperar aspectos culturais perdidos, ao longo do tempo do contato. Só para se ter idéia, não se escuta mais eles usarem a língua Baré nas comunidades visitadas. Os próprios jovens em seus depoimentos, falam que não sabem mais fazer algum tipo de artesanato. E a escola é um espaço certo ou ideal para a revitalização e transmissão desses saberes?

Na última comunidade visitada, a coordenação da oficina, aproveitou a passagem do Higino Tenório (Tuyuka), para ele também contar a história e da experiência da escola que ele ajudou a montar com um único e objetivo claro: “Fazer o povo Tuyuka voltar a falar a lingua Tuyuka”. Se quisermos valorizar, recuperar nossa cultura, temos que ser “radicais”disse ele. “Época que criamos a escola Tuyuka, apenas idosos falavam a nossa língua. Decidimos então que nínguem falasse mais Tukano em aldeia Tuyuka. Resultado disso, depois de algumas semanas, as crianças começaram a falar a nossa língua”- lembra Higino. E mais, “Se rezarmos “Ave Maria”todos os dias com nossas crianças e jovens, é claro que em menos de uma semana todos eles vão saber rezar”- completa.

Em uma das conversas que tive com o professor Orlando, ele me fez a pergunta: “O que te faz dizer que uma viagem para fora de sua região (no caso Içana) ser boa ou até marcante?