A Pimenta Baniwa é mais que uma pimenta

Mulheres Baniwa na cerimônia de Inauguração da Casa da Pimenta Yamado (Titsiadoa), 23 de abril. Foto: Ray Benjamim

Mulheres Baniwa na cerimônia de Inauguração da Casa da Pimenta Yamado (Titsiadoa), 23 de abril. Foto: Ray Benjamim

Provavelmente, o Iñapirikoli – Deus criador (para os Baniwa) já sabia que os Walimanai (novas gerações/gerações de hoje), algum dia no futuro iriam usar a pimenta não apenas para purificar a comida, ou como alimento que protege o corpo e a alma de espíritos que causam doenças. Desde que foi iniciado o projeto, a Pimenta Baniwa vem sendo um símbolo de luta pelos direitos, reafirmação de identidade do Povo Baniwa, não apenas estes, mas, de todos os povos indígenas do Rio Negro. A Pimenta Baniwa carrega uma história de luta e resistência vem sendo uma “mensagem positiva” dos povos indígenas para o Brasil e para o mundo, de acordo com o André Fernando ou André Baniwa, como é mais conhecido o presidente da OIBI (Organização Indígena da Bacia do Içana).

O Projeto Pimenta Baniwa vem buscando valorizar a diversidade e a territorialidade tradicional dos clãs Baniwa na região do Içana. “A primeira casa inaugurada, está funcionando em Tunuí Cachoeira (Baixo-Médio Içana) no território dos Dzawinai, a segunda, foi inaugurada na comunidade Ucuki Cachoeira, Alto Aiarí no território dos Hohodene, e a terceira na Escola Pamáali no território dos Waliperidakenai, e esta quarta casa vai funcionar aqui em Yamado para os Baniwa que mora na cidade ou próximo a ela”-lembrou Adeilson Lopes, ecólogo do Instituto Socioambiental, que assessora o projeto, e trabalha com os Baniwa do Içana há alguns anos.

André Baniwa, lembrou da importância das parcerias, os apoiadores, os consumidores da Pimenta, especialmente as instituições que apoiam e participam da gestão compartilhada do projeto como a FOIRN, a CABC, o ISA, o ATA entre outros que vão se construindo e consolidando com o tempo, que de acordo o André são importantes para a divulgação do projeto, da luta e da história (e cultura) que esse produto carrega.

Chefes de Cozinha com mulheres Baniwa na inauguração da Casa da Pimenta Yamado. Foto: Ray Benjamim

Chefes de Cozinha com mulheres Baniwa na inauguração da Casa da Pimenta Yamado. Foto: Ray Benjamim

Os Chefs de Cozinha Alex Atala (Restaurante D.O.M de São Paulo), Felipe Schaedler (Restaurante Banzeiro de Manaus) e Bela Gil participaram das duas cerimônia de inauguração.

Em meios as tantas ameaças aos direitos constitucionais dos indígenas no Brasil hoje, a Pimenta Baniwa chega para contribuir com essa luta.

Que a Pimenta Baniwa não apenas nos projeta de espíritos que causam a doença, como também nos proteja dessas ameaças aos nossos direitos.

Saiba mais sobre a Pimenta Baniwa, onde encontrar e receitas aqui.

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Projeto Mawako: Encontro de sons para a formação de novas lideranças e valorização cultural

Mobilizando pessoas para contribuir no processo de fortalecimento das comunidades Baniwa, valorização cultural e formação de novas lideranças através da música. “Uma gota de ação neste mar verde”.

Equipe do Projeto Mawako em Assunção do Içana. Foto: Inês

Equipe do Projeto Mawako em Assunção do Içana. Foto: Inês

A idéia de criar um projeto que ajudasse a valorização da cultura pelos jovens indígenas e a formação destes para continuar a luta pela defesa dos direitos, da terra e continuar mantendo viva seu modo de vida, mas, ao mesmo tempo aprendendo novas coisas para fugir das drogas e etc…, nasceu  no curso de Fé e Política (CEFEP (5a turma), do ano de 2014-2015 promovido pela CNBB e PUC­Rio.

Trinho Paiva, professor Baniwa e vereador de São Gabriel da Cachoeira, compartilhou as dificuldades enfrentadas na região do Rio Negro, sobretudo, na região do Içana. Falou também ao grupo do curso, quais principais anseios dos jovens baniwa, e a preocupação dos mais velhos em relação a transmissão de conhecimentos a estes. E como resultado dessa reflexão, chegou-se a uma conclusão, fazer alguma ação que incentive os jovens a valorizar as musicas tradicionais através de instrumentos musicais dos “brancos”. Assim foi criado o Projeto Mawako. (Mawako é um instrumento musical usando comumente pelos povos indígenas do Rio Negro).

Desde então, foi criado um sítio do projeto na internet com objetivo de divulgar o objetivo do projeto e como uma forma de encontrar colaboradores e apoiadores através de doações de instrumentos ou de recursos financeiros.

Entre 14 a 18 de março, aconteceu a primeira viagem à região do Içana. A equipe composta pelo Isaias Fontes (Diretor da FOIRN, parceira do projeto), Trinho Paiva (Coordenador do Projeto), Inês, Luiz Catapan, Irmã Inê e Honeide. E eu acompanhei a equipe para fazer registro.

A primeira etapa do projeto contemplou as comunidades Assunção do Içana e Ucuki Cachoeira, alto Aiarí. A próxima etapa será contemplar outras comunidades da região.

Nas comunidade visitadas (contempladas) a equipe (estudantes do curso), falou da reforma política, um dos temas abordados pelo curso. Após a palestra sobre o tema, os comunitários também falaram da situação em que vivem, de acordo eles, os programas de governo não chegam e clamam para que o poder público municipal faça alguma….”Os políticos só aparecem aqui na época da campanha política para pedir voto, depois da eleição não aparecem mais….prometem e prometem e nunca cumprem”-falou Dário da comunidade Ucuki Cachoeira.

“Não podemos perder a esperança. Vocês precisam lutar pelos seus direitos…por isso que estamos aqui com o projeto Mawako para trazer incentivo aos jovens, pois são eles o presente e o futuro”-falou Luiz Catapan.

Isaias e os demais membros da equipe de viagem, ressaltaram a importância da valorização da cultura, e que o projeto Mawako tem essa proposta, e que o o objetivo maior vai além da música, que o projeto contribua no desenvolvimento social das comunidades e do povo Baniwa.

“Com estes instrumentos os jovens irão animar a comunidade através de grupo de musicas, animar as assembleias das associações e momentos que for necessários. Quem sabe no futuro iremos realizar festivais de musicas na região. A própria comunidade vai fazer a gestão desses equipamentos”-disse Trinho.

Na noite em que chegamos em Ucuki o Trinho passou vídeos de mensagens do bispo Don Edosn, Antonio Manoel de Barros comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva e do Secretário Municipal de educação de São Gabriel da cachoeira. Estes em suas mensagens declaram apoio a iniciativa e ressaltaram de ações como o projeto Mawako para incentivar os jovens a valorização de suas culturas e o fortalecimento das lideranças e comunidades.

Pessoalmente, foi a segunda vez que fui até Ucuki Cachoeira, depois de quase um ano, mais uma vez tive o privilégio conhecer mais o modo de vida ainda “viva”, como disse o capitão da comunidade Abel Fontes. “Aqui não falamos do resgate da cultura. Estamos vivendo a nossa cultura”-disse ele. Não é em todo lugar que se ouve palavras como a do capitão de Ucuki.

Que o projeto Mawako seja um instrumento que incentive os jovens a continuarem aprendendo com os mais velhos, para que no futuro próximo eles façam o mesmo com os filhos. E que o projeto Mawako se amplie e chegue em várias comunidades no Içana e como também em outros cantos deste imenso rio Negro. Para isso, convido você leitor conhecer o projeto e colaborar. Sua colaboração fará grande diferença e dará bons frutos no futuro.

Moradores da comunidade Ucuki Cachoeira, com flautas tradicionais e instrumentos musicais dos "brancos" em frente a maloca. Foto: Arquivo pessoal

Moradores da comunidade Ucuki Cachoeira, com flautas tradicionais e instrumentos musicais dos “brancos” em frente a maloca. Foto: Arquivo pessoal

Conheça mais o projeto visitando o site do projeto: http://www.projetomawako.teiadecomunidades.com.br/

Oficinas de Acordos ortográficos das línguas co-oficializadas do Município de SGC.

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A busca por uma “escrita” mais próxima da forma como se fala as línguas indígenas do Rio Negro não é recente. Línguistas, pesquisadores tem sido as pessoas que chegam, pesquisam e propõem essas propostas, é claro, geralmente com pessoas falantes dessas línguas indígenas. Resultado disso. Já existem muito materiais didáticos e para-didáticos produzidos em algumas línguas, as mais conhecidas e divulgadas são: Baniwa, Tukano e Yêgatú.

Mas, o movimento mais recente, há pelo menos desde o início desta década, os próprios indígenas, através de organizações comunitárias e, em especial de professores, vem criando e buscando, eles próprios a discutir como “pode pode ser” usado, ou aproveitado o que “ja existe” (propostas de grafias). Já que essas linguas (três) são co-oficializadas no município. Mas, até agora no só papel, sem implementação.

Uma das poucas implentações conhecidas, ou práticas até hoje, é o processo seletivo da para o Curso de Licenciatura Indígena da UFAM (Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável), em que os inscritos, realizam a prova nas línguas indígenas.

Nesse ano, sobretudo, a partir de segundo semestre, lideranças, indígenas, professores e estudantes voltaram se reunir para retomar as discussões que algum tempo havia sido “deixadas de lado”. Em agosto, o COPIARN (Conselho dos Professores Indígenas do Rio Negro), reuniu falantes dessas línguas na Casa dos Saberes da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira, para iniciar a retomada dessa atividade. O evento de dois dias, foi suficiente para apresentar o que já tem de material didático produzidos nas línguas, e aos mais jovens, que estão começando a participar do movimento, conhecer a história de como começou o movimento (co-oficialização das línguas indígenas).

A oficina de agosto, resultou uma série de propostas para os próximos anos, voltados para essa temática, entre elas, as discussões em torno de um “acordo ortográfico” das línguas co-oficializadas. Na primeira semana de novembro, o Conselho de Professores, reuniu os “falantes” da língua Yêgatú, em Boa Vista, comunidade que fica na foz do Içana, a três horas de viagem de São Gabriel (para transportes rápidos).

E nesse final de semana (22 a 23/11), foi a vez dos Tukano se reunir na Casa dos Saberes da FOIRN, em São Gabriel para também iniciar uma discussão em torno desse mesmo tema. ” Sempre terá brigas quando o assunto é buscar um acordo, ainda mais, quando se trata de uma grafia de uma língua. Todo mundo acha que como se escreve é a maneira “certa” de se escrever. Por isso, temos que conversar, discutir e buscar consenso” – disse professor Gilvan Muller, mediador da discussão durante a oficina.

Maximiliano Correia completa: ” Estamos buscando uma forma de “escrever” de uma única maneira, o que não significa que vamos pronúniciar a frase da mesma forma. Pois, sabemos que cada trecho do rio, falamos diferente um do outro, apesar de ser a mesma língua”.

E como fica a diversidade línguistíca do Rio Negro, se apenas 3 línguas são (ainda) co-oficializadas? Essa pergunta foi feita no encontro de agosto, e, é uma questão em aberto. O que indica que o tema está voltando a ser o foco das atenções no rio Negro. E que deve ser mesmo. Fiquei sabendo que foi também realizado uma oficina no rio Xié, sobre a grafia da língua Werekena, nesse segundo semestre do ano.

Os Baniwa, já estão projetando também um encontro para próximo ano, no Içana, com essa mesma proposta. Afinal, uma língua escrita, falada é como dizem sempre “é a alma de uma cultura”. E a co-oficialização de uma língua indígena é a âncora de uma transformação social, emprestando as palavras do professor Gilvan.