Conhecendo aos poucos esse imenso Rio Negro

Na companhia da dona Jacinta de Assis, liderança da comunidade Balaio, no Rio Negro, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira

Na companhia da dona Jacinta de Assis, liderança da comunidade Balaio, no Rio Negro, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira

A ida pra participar da 1a etapa local da Conferência Nacional de Política Indigenista na comunidade Juruti – Alto Rio Negro, aproximadamente 2 horas e meia viajando, subindo o Rio Negro, muito perto da linha de fronteira do Brasil com a Venezuela e Colômbia, me possibilitou mais uma vez (segunda vez que vou para Juruti, e terceira ao alto Rio Negro), conhecer ainda mais e melhor os povos Baré e Werekena que predominam a região, além de também compartilharem esse território com outras pessoas das demais etnias no Rio Negro.

Em Iauaretê, uma temporada no Rio Waupés

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Em Iauaretê, durante o Seminário de Educação Escolar Indígena, entre os dias 17 a 19 de março.

Uma viagem tranquila e longa. As curvas e praias brancas às margens são os detalhes da paisagem, que além de lindas, as vezes significam perigo ou pedem atenção aos que descem e sobem o rio, que não são poucos, mas, especialmente àqueles que conduzem as encabarcações, os motoristas. Por isso, é sempre melhor, ter alguém que é de lá, e que conhece o “canal” para não ser surpreendidos ao longo da viagem.

Mas, nem todo o trajeto tem praias. Há um trecho já próximo de Iauaretê, que se fosse descrever a paisagem para orientar quem estivesse indo pela primeira vez, diria: “se começar a ver pedrais, é por que você já vai chegar em Iauaretê”.

Na última subida no Waupés, foi até em Taracúa, no final de fevereiro, também para o segundo seminário de educação escolar indígena. Na época, o mapa que tinha em mente sobre Waupés, terminava ali mesmo, informações que tinha sobre além disso era pouco.

Dessa vez, a missão da equipe na qual estava acompanhando era realizar o terceiro seminário de educação em Iauaretê, para reunir informações e ouvir o que as pessoas do alto Waupés e Papurí, como também aquelas que moram nas próximidades do distrito tem a dizer, reclamar, propor para que essa pauta avance, melhore. É aí que entro, para registrar o evento e gravar depoimentos. E ainda, conhecer pessoas, amarrar amizades e parcerias.

Depois de um dia de viagem sem pressa, num domingo (16/03) de muito sol, passamos noite Monte Alegre, que também é conhecido como Matapi. Um por do sol espetacular, com direito à algumas primeiras histórias sobre o local. Com praia de areia fina no porto, um local muito bonito, e bom de se tomar banho. Os botos de lá, são chamados de “aimas”. Vou explicar. Há algum tempo no rio Negro, foi criada a categoria de jovens indígenas pesquisadores conhecidos de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (aimas) pelo Instituto Socioambiental, FOIRN em parcerias com algumas escolas indígenas, com a proposta de estudar e desenvolver pesquisas sobre o uso de recursos naturais usados pelas comunidades, com o objetivo de acompanhar e propor boas práticas de manejo, ou, em outras palavras “cuidar” dos recursos.

O Leôncio, coordenador da COITUA, conta que todas vez que alguém coloca uma malhadeira (rede de pesca), os botos vão lá, acabar com a rede, no sentido, de furar e não “deixar que as pessoas coloquem essa armadilha lá”, por isso, esses botos receberam esse nome pelas pessoas de lá. Outro detalhe curioso, Monte Alegre é igual a qualquer uma comunidade rionegrina, menos por um detalhe: não tem cachorro. Por quê? O Leôncio responde: a comunidade um dia se reuniu para tratar de um assunto que consideraram importante: não ter mais cachorro na comunidade, e foi decidido.

Depois de uma noite fria e silênciosa, com direito ao cantos de pássados noturnos, depois do mingaú, continuamos a viagem. Era uma segunda-feira. Saimos cedo com a intencão de chegar mais cedo em Iauaretê. Passamos foz do Tiquié e logo depois, Taracúa, palco do ultimo encontro realizado. De longe, avistamos uma placa azul que  aparece pela metade “comido” pelo pasto. O primeiro sinal de uma obra do governo abandonada. Um pequeno sinal do que viria, seria visto, depois, da pequena comunidade conhecida de “Ipanoré”. É o projeto “Melhorias para a Estrada de Ipanoré”, com um custo de quase 10,5 milhões. Uma obra que teve início ainda em 2013, e seria entregue no início daquele mês (março). Porém, uma surpresa. A Estrada estava longe de ser concluída. Conto isso, mais na frente.

Mas, antes de encararmos a ladeira, e a altura do caminhão velho, resolvemos mergulhar no tempo. Fomos conhecer a cachoeira de Ipanoré, um dos locais sagrados e comumente citado nas narrativas de origem das etnias da família linguistica Tukano e Maku. No nível que a água estava, não deu para chegar mais próximo do “buraco de origem/imersão”. De acordo, com nosso motorista, tentar ir lá, é arriscar. E, é claro, ninguém queria arriscar. Ficamos de longe, mas, ouvi muita história sobre o local. Umas ligadas à origem da humanidade e outras, histórias relacionadas, a tragédias e mortes.

“Um dos esteios que sustenta a humanidade” 

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Mako.

Higino Tuyuka, 59 anos, um dos companheiros de viagem conta que a Cachoeira de Ipanoré. é um dos pilares que sustenta a humanidade para os povos indígenas, especialmente nas narrativas das famílias línguísticas Tukano e Makú.

O Higino, conhecedor Tuyuka, companheiro de viagem, disse, que desde os tempos antigos, muitas pessoas morreram e até de casos mais recentes. Há aproxidamente 500 metros de onde estávamos, de acordo o Higino, fica o grande “buraco”, uma grande “panelona”diz ele, que é único meio de passar e seguir a viagem. Os viajantes precisam esperar o tempo certo para passar, por que se “errar o tempo” já era – diz Higino. E ainda tem a parte mais curiosa, os mais velhos ou os benzedores, até mesmo os que “sairam de lá com vida” relatam que quando entra no buraco, é uma viagem em questão de segundo dentro de um túnel, para sair até nas proximidades de Ipanoré, que fica há mais ou menos 1km de lá na “boca do buraco”. De acordo com essas pessoas, dizem que eles passam dentro de uma “grande maloca” onde se vê muitas redes atadas, para sair de lá vivo é preciso tentar não “encostar” em nada. Mas, de todos que já entraram ou foram “engolidos” pelo buraco, poucos conseguiram sair com vida e contaram essa história. Mas, nada se sabe, como passou a ser a vida deles depois disso.

Outro detalhe curioso, é que acima da dessa grande cachoeira, não se vê mais boto. As narrativas dão a resposta. De acordo com os conhecedores, existem apenas dois “bucaros” umas espécies de túneis. Uma das piranhas e outras de peixes como aracú e outros. Alguém deve pensar, mas, por que ele passa nesses túneis? Até que daria para ele ir ou tentar. Mas, não é por falta de tentativas. É por que, quem fica de vigia na saída, é uma piranha enorme, do tamanho de uma “peneira”. Aí, o segredo. Quando tenta, é espedaçado em segundos. Depois de ouvir essa narrativa, se fosse boto, eu não arriscaria.

Depois, disso, voltar para à encarar Estrada, é como emergir de novo depois de um mergulho que fez você ir ao limite a imaginação. Agora, é encarar a parte mais complicada da viagem: a estrada de Ipanoré.

Uma obra iniciada, mas, não acabada..: “Filma isso e coloca no site!”.

Placa da "Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré" do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

Placa da “Obra de Melhorias da Estrada de Ipanoré” do governo do estado com valor de 10.433, 765, 25, que deveria ter sido entregue no início de março, até naquele dia (17/03), ainda não tinha chegado até a metade, e pior, a obra estava abandonada.

“Aqui se quiser ajuda dos outros, você tem que ajudar” diz motorista do caminhão a alguns jovens que estavam ali sentados, enquanto um senhor estava tentando descer o bote do caminhão velho. Madruga, como é conhecido por todos, é o motorista do caminhão, o único meio de passar o trecho do Waupés Ipanoré-Urubuquara, um trajeto quase intransponível.

Com idade já na casa dos 50, ele carrega canoas (até médias) e voadeiras todos os dias, de Ipanoré à Urubuquara e vice-versa. E ele diz “Não sei aonde encontro tanta disposição assim. Mas, o corpo recla depois, a noite, quando caio na rede, não me mexo mais”. É um dos que reclamam da “incompetência” e do “desvio do recurso público”, palavras que ele usa, para chamar a situação em que se encontra a construção da estrada. Estava tirando fotos da estrada, e ele viu e me falou: “filma isso aqui e bota no site, alguém precisa cutucar alguém, é disperdício de dinheiro público, alguém está passeando com esse dinheiro, enquanto aqui o povo está sofrendo”.

Enfim, depois de aproximadamente 14 minutos, com nossas duas voadeira em cima do caminhão, descemos em Urubuquara. Ao longo da corrida, é possível ver o quanto ainda precisa ser feito para a obra ser concluida, e pior, muitas sacas de cimento estragadas ao longo da estrada. No caminho, um susto. Muitos sentiram a sensação de o “coração sair pela boca”, estourou um pneu do caminhão.

“Daqui até o destino são aproximadamente três horas” diz Ivo, para animar a turma. Mas, precisávamos comer, já tinha passado meio dia até aí. Fomos comprar peixe à uma comunidade chamada Pinu-pinu, que fica atras de uma ilha, atrás de Urubuquara. De lá, a gente tem a sensação de que o chão treme só por ouvir som da cachoeira. Não poderia perder a chance de conhecer aquele local, subi junto com Higino e Ivo. E lá, me perguntaram se aceitava uma “cuiada” de vinha de pupunha. E quem não aceitaria? Queria experimentar. Humm, demais. Muito bom. Mas, tinhamos que descer e continuar a viagem, por que, ainda tinha muito “chão” pra correr.

Deitei depois de algum tempo sentado, e dormí. Uma chuva forte, me fez acordar. Alguns minutos depois, começamos a passar vários pedrais e canoas subindo. Já estávamos chegando. Em meio à chuva, a vistamos de longe a igreja. “É Iauaretê! – disse um menino que estava de carona com a gente desde Ipanoré. Ainda se chegarmos ao porto, fomos “parados” pelo posto do exército, um militar de capuz preto desceu às pressas até a beira e grito: “tem algum estrangeiro aí?!”. Como não tinha, ele “liberou” a gente, para continuar a viagem.

E chegamos. No porto, Esmeraldo da COIDI e mais algumas pessoas estam nos esperando. E, fomos levados à sede da Coordenadoria, que é um antigo hospital dos salesianos, recentemente doado a eles. A tal da “Santa Casa”. Onde vamos ficar nos próximos dias, enquanto estivermos lá.

No dia seguinte, umas oito da manhã, iniciou-se o seminário. O legal desses seminários, é que a forma como é conduzida, os professores, os gestores, os estudantes, pais de alunos, colocam na mesa os problemas, as necessidades que enfrentam em relação a educação escolar. É falta de material escolar, falta de estrutura, contração de professores e etc…E melhor nisso, é, tudo na lingual. No caso, de Iauaretê, lingual Tukano. Por isso, aos que não são de lá, ou que não entendem, ficam “boiando” o evento tudo. Mas, tradutores não falta. Por isso, a única forma de me situar e acompanhar o andamento dos trabalhos, foi arrumar um tradutor.

Ao longo dos intervalos, procurei conhecer e saber mais sobre, a “cidade de indio”, como Iauaretê é também conhecido, devido, ao grande número de pessoas que compartilham aquele espaço. São pelo menos 4 mil pessoas na sede, e 3 mil nas comunidades próximas. Um local que está entre uma grande comunidade à cidade. Iauaretê reúne pessoas de vários lugares e de etnias diversos, o que faz dele, um povoado multiétnico.

Além de ter pequenos comercios, tem pelotão de exército, hospital, correios e entre esses a missão salesiana, mas, o que reúne jovens dos mais diversos lugares é a escola estadual São Miguel. Uma das mais antigas escolas da região do Rio Negro, foi a primeira a ofertar o ensino médio na região. No discurso de apresentação do que foi e o que é hoje, o atual Diretor disse: “a nossa escola foi pensada pelos missionários, mas, ela foi um espaço importante de formação na região, o que permitiu que chegássemos onde estamos hoje, apesar de ela ter objetivos inicialmente de acabar com as nossas culturas. Hoje, estamos mudando essa realidade e esses objetivos”.

Caminhar nas ruas de Iauretê, é “tropeçar”com a própria história local. Do bairro tradicional São Miguel, dos Tarianos ào bairros mais recentes. As ruínas do antigo internato, mostra as marcas deixadas pelo auge da atuação dos salesianos.

“São Gabriel dos meus sonhos es formosa…”.

 

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Dona Terezinha de Jesus Cardoso, a autora da poesia que se tornou o hino do município. Hoje aos 62 anos.

Bem ali, próximo do porto fica um pequeno comercio, é do Sr. Floriano e da Dona Terezinha Cardoso. O que faz, dos dois, e principalmente a Dona Terezinha, mergulhar todos os dias nas águas pretas do Waupés. Mas, o que ela tem de  especial assim afinal? É mais que isso, há 42 anos atrás, ná época ainda aos 20 anos, na 8a série, no Colégio São Gabriel da Cachoeira, ela participou de um concurso de poesia. E  nesse concurso ela ficou em primeiro lugar. Mas, o que ela não sabia, é que aquela poesia um ano depois, em 1972, se tornaria o hino de São Gabriel. “Não sabia que a minha poesia seria selecionada para ser o hino do município”- lembra.  E eu, como tantos outros meninos e meninas na época da escola (ensino fundamental), aprendi a cantar esse hino. Só nunca imaginei que um dia iria me encontrar  e conversar com a autora desse hino. E ainda mais, contar a história (um pouquinho) pro mundo.  Hoje, aos 62 anos,  divide seu tempo para ajudar o marido no comércio, e de vez em quando, ir para roça, fazer farinha e tapioca. Olha, que ganhei um kilo com a dona Terezinha.

Lá, nos horários de intervalo do evento, conheci professores e alguns jovens que não perde nenhum intervalo sem se conectar ao mundo virtual. É facebook e WhatsApp. E nesses intervalos, também aproveito para “coletar” depoimentos desses jovens e alguns participantes sobre o seminário. As entrevistas com alguns desses jovens foi bastante divertido, muitos “curta aê”, o termo usado para falar “pausa de gravação”.

Fiz um video de 10 mim do seminário para exibir ao final do evento, e foi muito bom, todo mundo gostou. Mas, disse a eles, que o video completo seria concluído em São Gabriel da Cachoeira. Muitos em suas falas, mostraram a importância desses tipos de eventos, pois, muitos deles, estão começando a participar desse movimento, por isso, todos eles afirmaram que “aprenderam muito durante o seminário”. O que mostra que os própositos dos eventos realizados, estão alcançando seus objetivos, que além de promover a discussão, leva também informação e conhecimento aos participantes, e em especial aos que estão começando a fazer parte da discussão e do debate sobre o tema.

Os dias em Iauaretê estavam chegando ao final. Mas, sair de lá sem conhecer de perto as pedras e ouvi as histórias sobre a Cachoeira das Onças não seria bom. Por isso, ficamos mais um dia para fazer isso. Ir até Aduana, um povoado que fica ao lado oposto de Iauaretê, à margem esquerda da foz Papurí. Do lado Colômbiano. E ver de perto os desenhos nas pedras, os petroglifos.

Sábado, 22/03, chega ao final, a temporada em Iauaretê. É hora de descer para São Gabriel da Cachoeira, encarar na volta a estrada de Ipanoré, e depois de lá é abrir meu livro de viagem: “Não posso me apaixonar” e cair na “estrada”, que são apenas mais seis horas de viagem. Cada viagem, sempre é uma aventura, de  muitas aprendizagens e descobertas.

 

Retrô 2013: Viagem pro Baixo Rio Negro

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Chegando à comunidade Cartucho, médio rio Negro.

Em setembro, acompanhei o representante do Departamento de Educação (Foirn) e o Prof. Orlando Melgueiro Baré, Coordenador da CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), com a missão de registrar as oficinas e colaborar com um pouco do que conseguí acumular de experiências nos últimos 10 anos, começando como aluno, depois como professor e finalmente no ano passado como Coordenador da Escola Baniwa e Coripaco.

Paramos em quatro comunidades. Cada lugar situação diferente. Dificuldades, problemas e desafios. Todos com um objetivo como como sonho: Educação Escolar própria. Algumas com a escola na comunidade já funcionando, outras apenas ainda como um sonho. E nós, em alguns momentos buscando formas de ajudar na compreensão e direcionamento. Tirando dúvidas, contando experiências, com o objetivo dar a eles um pouco de conhecimento, para eles, próprio construir o que eles querem.

Em questão de idade, de formação e de experiência sou o menor na viagem. E para completar, é a primeira vez que viajo de voadeira, parando em algumas comunidades nessa região. Portanto, um desafio. Nas primeira duas comunidades (Castanheirinho e Livramento II), ainda usei meu “baniwa”para me comunicar com as pessoas. Na terceira e na quarta comunidade, somente português, já que meu Yêgatú serve apenas para entender e o algumas vezes adivinhar o que meus parentes Baré falam.

Cada comunidade um sabor, uma receita e lá está a quinhapira acompanhado sempre de vinho de açai. E histórias sobre lugares, como o por quê da Comunidade Cartucho ter aquele nome, também aprendi na viagem e durante as reuniões, que duravam apenas no máximo dois dias. Pouco para construir ou pelo menos para ajudar no entendimento do que é um Projeto Político Pedagógico Indígena? Muito pouco. Mas, estávamos ali, para dar continuidade de um trabalho já iniciado. O caminho já estava aberto há algum tempo. Mas, em alguns casos, tivemos que voltar atrás, para começar de novo.

Certas pessoas algumas vezes, mesmo longe de casa, te faz sentir como se estivesse lá. Logo na primeira comunidade, o “administrador”em uma viagem a Santa Isabel, na volta, viu uma placa na foz de um igarapé e anotou e trouxe para comunidade o recado deixado. Ele, explica e pergunta aos demais qual o sentido da mensagem (vou tentar recuperar a mensagem). O admirei pelo conhecimento que carrega, estão tão bem atualizado, como qualquer um que está conectado à internet todos os dias. Na outra, achamos o Chiquinho, como é mais conhecido o Francisco Suares, com idade já na casa dos 50, que só pelo jeito de falar e de se movimentar, já faz as pessoas ao redor rir.

Ah..deixo voltar um pouco para a missão. Na fala dos professores, das lideranças comunitárias e dos próprios alunos, dá a entender o quanto querem que a escola seja mais próximo, que respeito e que de alguma forma sirva de instrumento para recuperar aspectos culturais perdidos, ao longo do tempo do contato. Só para se ter idéia, não se escuta mais eles usarem a língua Baré nas comunidades visitadas. Os próprios jovens em seus depoimentos, falam que não sabem mais fazer algum tipo de artesanato. E a escola é um espaço certo ou ideal para a revitalização e transmissão desses saberes?

Na última comunidade visitada, a coordenação da oficina, aproveitou a passagem do Higino Tenório (Tuyuka), para ele também contar a história e da experiência da escola que ele ajudou a montar com um único e objetivo claro: “Fazer o povo Tuyuka voltar a falar a lingua Tuyuka”. Se quisermos valorizar, recuperar nossa cultura, temos que ser “radicais”disse ele. “Época que criamos a escola Tuyuka, apenas idosos falavam a nossa língua. Decidimos então que nínguem falasse mais Tukano em aldeia Tuyuka. Resultado disso, depois de algumas semanas, as crianças começaram a falar a nossa língua”- lembra Higino. E mais, “Se rezarmos “Ave Maria”todos os dias com nossas crianças e jovens, é claro que em menos de uma semana todos eles vão saber rezar”- completa.

Em uma das conversas que tive com o professor Orlando, ele me fez a pergunta: “O que te faz dizer que uma viagem para fora de sua região (no caso Içana) ser boa ou até marcante?